sábado, 6 de novembro de 2010

Noite

Quem és tu, chama só e pirética,
que me olhas duma velha varanda caquética
a levitar do outro lado da rua,
da outra margem do mar,
num fio argênteo de lua
visível só pelo derramar
da luz das tuas vidraças
com que ao longe me abraças...
Quero desde já sublinhar,
com um marcador de mil cores
fundidas num só cinzento
pelos meus olhos daltónicos,
que aqui desfio todos os meus rancores
à hora obscenamente tardia em que invento
uma teoria sustentada por sorrisos sardónicos

Daí que me lance neste discurso esquizofrénico
em que gradualmente vou elevando a voz,
em que gesticulo de modo assaz frenético
na vã tentativa de calar o gotejar do algeroz
(desconfio que à minha janela nunca veio o luar,
só lá vai o nevoeiro quando tem de chorar),
na fútil procura por uma atitude normal,
na infrutífera demanda pela sanidade mental
perdida para lá de qualquer esperança médica,
algures nos meandros dum sofrimento
quebrado e disperso por um beijo de vento,
embriagado por uma versatilidade ecléctica
que todos os dias me consegue surpreender,
que me deixa sem mais nada para dizer.

Quem és tu, alma decadente e mirrada,
que nas olheiras mostras que foste arruinada.
Quem sabe, pudesse ela falar,
imaginamos lá o que nos iria contar,
talvez tudo sobre o nada,
ou então nada sobre o tudo...
Cruzo a cortina de chuva, em mais uma das romarias
solitárias em que me mato mais um pouco,
felizmente envolvo-me com o negro sobretudo
a ocultar uma vida diminuída por idiossincrasias,
a permitir-me troçar do romantismo com um riso rouco.