Raramente vi o céu tão estrelado,
raramente vi as trevas tão luminosas,
um brilho contra-natura derramado
sobre as ténues curvas ruinosas
do perfil que, com os dedos estendidos,
desenho nas dúbias correntes de ar,
que transportam os sons diminuídos
dum pulmão direito a começar
a ceder perante o esforço
de se contrair em insultos,
de berrar impropérios,
sem vestígio de remorso,
para a amálgama de tumultos
em que habitam os meus etéreos
devaneios, delírios, conjecturas,
sonhos nada sérios,
que o vento leva para as amarguras
residentes nas sombras escuras
aonde não chega o calor
da recordação do teu olhar -
apenas o ambíguo terror
de sentir a corrente virar.
Procuro-te veementemente
nesta cidade de rio e rocha,
que floresce ao luar nascente,
tremeluzindo diante da tocha
acesa para me dar a possibilidade
de prolongar a noite intemporal
onde sinto o peso da idade,
o desejo de mudar de canal
(embora me interrogue para qual),
de poder pressionar
resete deixar tudo para trás,
visto que muito pouco já faz
qualquer sentido, tudo se repete
num ciclo fora do meu controlo,
no qual te espero ao virar da esquina
das ruelas onde queria ter o consolo
de te apagar numa névoa
adamantinaque, com ela, traz a frescura
duma chuva em pleno Agosto,
infalível modo de apagar a secura
dos dias que me queimam o
raciocínioque se prolongam nas saudades do rosto
onde deslindei um triste vaticínio.
Revisito neste poema insosso
a imagem que idealizo
da delicadeza do teu pescoço,
da revolta madeixa que aliso
com as pontas dos dedos
(ásperos como velhos penedos,
desajeitados no gesto ensaiado
que redundantemente é falhado)
da cor única da tua íris
que ainda não sei definir,
nem serei capaz de o fazer
enquanto tiver na boca a bílis
do
enjoo que persiste em subir
das entranhas que adoram escarnecer
da tentativa de te negar
com a fúria dum moderno
Nietzche,
de te reduzir a um imaturo
fetiche,
da tua memória esborratar
com tinta negra como
azeviche.
As nuvens abrem-se na ânsia
de fugir para outra dimensão...
Quem me dera ir com elas,
devotar-me a uma
errânciasem lugar para a razão,
apenas para vogar em caravelas
brancas e sem destino traçado...
Espera, espera só um bocado,
as ilusões não são mais que trapos
com que visto a minha timidez,
pois as nuvens desfazem-se em farrapos,
um pouco como a minha sensatez
implodiu há cerca de meia hora -
perdi as forças para não desfalecer,
desconheço se vivo o agora
ou se estou prestes a deixar de viver...
Fode-me e deixa-me a apodrecer
no rancor de não te esquecer...
Fugi de tudo isto,
enganei-me no caminho,
este está ladeado por um misto
de nostalgia, melancolia e carinho
que sou incapaz de suster sem vinho...
Acabo um cigarro com calma metódica,
fustigado por infindáveis setas de prata,
estilização de gotas duma água retórica
que com um subtil sopro mata
os desvarios duma mente neurótica.
Desfaço-me da pagã beata
num movimento saturado de desdém,
baixo os olhos para a alva linha
com a qual me vou enforcar -
pergunto alto a alguém
com uma voz que não é a minha,
com a loucura de ser o único a inalar,
pergunto a já não sei bem quem
quem ainda está a meu lado
ou se já estou só no meu enterro,
pelo augúrio da morte rodeado,
nas faces de quem espera um erro,
de quem espera os despojos dum condenado.
Estou com uma entorse no pulso,
adquirida nesta raiva de escrever,
de agarrar as palavras que saem
avulsodas minhas mãos, quase sem querer.
Daí que desista e me encoste
a uma centenária árvore
erguida na solidão como um poste,
com a resistência dum bloco de mármore,
inflamável apenas pelo fogo,
amodorrado no meu coração,
que salta um batimento com o rogo
solto pela alma na escuridão
duma soalheira manhã de Verão
que rompe o cerrado nevoeiro,
que me aquece aqui recostado
enquanto oiço o canto
altaneirodum apressado e límpido regato,
despertador para o choro cansado
a que, por fim, me resgato.
Contudo, há dores incuráveis,
como esta dor que me traga
duma só vez...
Que dúvidas insondáveis
me levaram a atirar desta fraga
(onde acredito que não me vês,
onde me equilibro titubeante)
as palavras que aqui lês,
o suspiro que me corta, incessante?
É aqui, acima do Norte,
numa difusa e imaterial fronteira
(onde deixo de crer na sorte,
onde transponho no sono a barreira
de confundir onde tu começas
e onde eu termino)
que abandono as promessas
feitas nas horas de desatino
em que só me restavam destroços...
Mas não sei afastar o frio
que me gela até aos ossos...
Peço-te, em alucinadas preces:
Leva-me para o ermo sombrio
que só tu conheces,
deixa que o erotismo
nos inunde numa maré cheia de prazer
antes que o desejo
feneça,
antes que me entregue ao realismo,
de te racionalizar, de te compreender,
antes que a minha boca esqueça
a vontade de procurar a tua
nos meandros duma crua
paisagem onde se adivinha
a despedida dolorosa,
a viagem penosa...
Dedico-te um último aceno, Caminha,
antes de correr as portadas
por onde deixei entrar a alegria
de me demorar nas margens amadas
dum Minho de que jamais me cansaria.
Regresso ao exílio imposto,
baseado no pressuposto
de ter de viver no mundo palpável,
de não ter refúgio no bosque agradável
consumido pelas chamas do desgosto,
ateadas pelo teu sorriso frígido,
alimentadas pelo teu não rígido...
Não me ouviste
tocar à tua campainha?
Não me sentiste
amparar-te quando estavas sozinha?
Não me viste
proteger-te sob a capa amarrotada,
frágil, com a respiração pesada?
Lembra-te do momento deixado a pairar
na atmosfera duma leveza abafada,
do momento que contigo quero reencenar.