quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Olhar

Sabes, ainda não percebi bem
dos teus olhos a cor,
a tonalidade que me tem
preso num insidioso rubor,
ascendente impulso eléctrico
que me sobe pela espinha acima
num trajecto em tudo assimétrico,
desde o toque que me reanima
até ao desprezo onde se extingue,
torpe argumento bilingue,
um escrito sonhado em inglês,
um atrito racionalizado em português.

Músculos retesados pelo stress,
postura rígida e tensa,
sem a verve que me aquece
a ironia outrora imensa,
agora rebento morto à nascença,
reles semente da descrença
em encontrar palavras para te dizer,
em me olhares com olhos de ver,
sentindo para lá do cadáver a estrebuchar
para se conseguir manter levemente vigil,
apesar de caído, esmagado no lancil
do passeio onde, pé ante pé, fui arranhar
o meu nome no jovem cimento fresco
apenas para ser cuspido pela petulância
incapaz de acreditar que sou o rocambolesco
resultado duma perene infância,
tão feliz que ainda hoje a vivo.
Num ápice apagar-se-ia a expressão altiva
nesta trip de açúcar onde sobrevivo...
Hellas, já deixei escapar a alternativa.

Nunca te li
os olhos tão perto de mim.
Será que vou parar aqui?
Recorda-me porque é que vim...
Obscureces-me o pensamento
e no auge da antecipação
eis que surge o momento
duma infinita inspiração
antes do mergulho para o vazio,
para a opacidade atrofiante
de lançares um desafio
às ruínas que talhaste em mim
com o punhal que agora afio,
na raiva digna dum inocente Caim
que com a voz já não cativas.
Estou esgotado pelas tentativas
ocas de enfiar o Rossio
numa pictórica rua da Betesga,
inundada pelo lodo do rio
donde bebo a inspiração,
fechado no caos, só com uma nesga
para observar em ti o reflexo da depressão.

Não há sorriso que derrube a muralha.
Não há esperança no fio da navalha
Não há droga que me valha.
Resta-me um olhar que falha.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Folha Solta #4

Fodo, não pelo prazer mórbido da concupiscência, mas sim com o propósito altruísta da continuação da espécie.

Nostalgia

Rompe
Rasga
Rói
Na penumbra dum vão de escada,
enrolo-me sobre mim mesmo,
fecho os olhos da alma mal alumiada,
escrevo o desespero e tu lês-mo,
tu sabes recitá-lo de cor,
desenhei-o com lágrimas salgadas
que se confundiam com o meu suor
num Verão de noites atraiçoadas
pela vontade de me perder,
de chorar o que nunca foi,
o que devia ter sido e não foi,
o que não foi e que quero rever.
Tu lês-mo pois secaste-me do rosto,
com os beijos que desejei, a água
que cravou a palavra desgosto
fundo, bem fundo. Olha, trago-a
ainda hoje comigo, gasto amuleto
que me recorda o que já não prometo.

Arranca
Arrasta
Agarra
Estou só, nu na escuridão,
o vulto dum miserável,
sem força para pousar a mão
e estancar a hemorragia incontrolável
violentamente aberta à tua passagem...
Filme recente, neo-realismo selvagem,
rodado num passado remoto,
há anos de sofrimento atrás,
memória cronológica que me traz
aos dedos uma amarelecida foto,
retrato da perdida luta
que rancorosamente emboto
com pinceladas de raiva bruta.

Renega
Retraça
Rejeita
Odeio o teu regresso,
amo o teu sorriso,
nos turnos em que me revezo
para suportar as insónias que profetizo
mal acordo dos sonhos turbulentos
em que subo degraus de madeira,
em que revisito pátios cinzentos,
em que sinto nas folhas a voz prazenteira
do fogo que julgara enterrado
e que ainda me suga a vida,
aquela que ardeu na tua mão distraída
e que deixaste cair como um fósforo queimado

Abraça
Acaricia
Acorda
O passado não descansa,
na melhor das hipóteses amansa,
até dele fugirmos, pondo de lado
o conceito de ser errado,
hábitos antigos,
velhos amigos
de não me lembro quando...
Contudo, no destino não mando
felizmente não possuo tal dom,
e acabaste por cortar o cabelo, apagar as pegadas
sem deixar um sinal, uma letra, um som
apenas as folhas desfeitas e cremadas
da poesia que agora recuso,
foste para nunca mais te ver outra vez,
foste para onde já não me vês.
Agora, num revivalismo caído em desuso,
procuro-te em cada carro que passa,
fugazes luzes numa paroxística estrada
destituída de direcção, que queres que faça,
fui eu quem a desenhei assim,
e de forma assaz despropositada
esqueci-me de onde era o fim...

Com música rebento os tímpanos,
com íntimos sonhos profanos
(estes fragmentos sem lógica nem ligação)
destruo cada fibra do meu coração,
são os últimos pregos do meu caixão.

sábado, 6 de novembro de 2010

Noite

Quem és tu, chama só e pirética,
que me olhas duma velha varanda caquética
a levitar do outro lado da rua,
da outra margem do mar,
num fio argênteo de lua
visível só pelo derramar
da luz das tuas vidraças
com que ao longe me abraças...
Quero desde já sublinhar,
com um marcador de mil cores
fundidas num só cinzento
pelos meus olhos daltónicos,
que aqui desfio todos os meus rancores
à hora obscenamente tardia em que invento
uma teoria sustentada por sorrisos sardónicos

Daí que me lance neste discurso esquizofrénico
em que gradualmente vou elevando a voz,
em que gesticulo de modo assaz frenético
na vã tentativa de calar o gotejar do algeroz
(desconfio que à minha janela nunca veio o luar,
só lá vai o nevoeiro quando tem de chorar),
na fútil procura por uma atitude normal,
na infrutífera demanda pela sanidade mental
perdida para lá de qualquer esperança médica,
algures nos meandros dum sofrimento
quebrado e disperso por um beijo de vento,
embriagado por uma versatilidade ecléctica
que todos os dias me consegue surpreender,
que me deixa sem mais nada para dizer.

Quem és tu, alma decadente e mirrada,
que nas olheiras mostras que foste arruinada.
Quem sabe, pudesse ela falar,
imaginamos lá o que nos iria contar,
talvez tudo sobre o nada,
ou então nada sobre o tudo...
Cruzo a cortina de chuva, em mais uma das romarias
solitárias em que me mato mais um pouco,
felizmente envolvo-me com o negro sobretudo
a ocultar uma vida diminuída por idiossincrasias,
a permitir-me troçar do romantismo com um riso rouco.


sábado, 9 de outubro de 2010

Voo

Hoje exacerbo o mau humor,
tanto num ribombante clamor,
como num sussurro entredentes.
Hoje, ontem, amanhã, resmungo
contra o mundo e as minhas lentes,
contra um amaldiçoado e teimoso fungo
que inicia a decomposição cardíaca,
potenciada pelos inconsistentes murmúrios,
a sintonia da sanidade maníaca,
que me interrompem em interlúdios
desprovidos do mais fugidio
e ténue vestígio de sentido,
meros grunhidos que recrio
com uma ininteligível fonética,
o som das asas dum anjo caído,
que, num voo rasante, vem mostrar
a sua suicida genialidade patética,
amnesicamente sem se lembrar
que há muito que já não sabia falar.

Assim, nada te diz
"Tenho saudades"
(leve sabor a anis,
pesada noite de veleidades)
como escrever poesia
e gravá-la na tua porta
com o gume duma faca fria,
brilho na luminosidade pura...
Acarinho com doçura
o dia antes de te conhecer,
quando ainda sabia viver.

Mas qual o simbolismo de tudo isto?
Apenas o duma lisa pedra de xisto,
lascada, riscada, deformada e despedaçada,
até se tornar o cascalho duma vida passada
ou seja, putativamente, não tem nenhum,
é a tradução dum inconsequente preliminar
que se prolonga ad eternum
até por fim decidires parar
com o ardil de me deixar voar,
e em 2 abruptas frases sibilinas
transfiguras os sorrisos que hoje me destinas
na realidade onde tenho de me despenhar.

Folha Solta #3

Não há definição de normalidade, nem ninguém se pode auto-denominar normal, face ao facto de todos vivermos numa normal anormalidade.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Crise existencial documentada #14 (ou "Cartas do Outono")

De súbito, tudo termina
num ponto de interrogação,
que se ri num esgar traquina,
como se adivinhasse o furacão
que me dilacera sem piedade,
lâminas intrínsecas e rombas,
portadoras da crueldade
refinada com que arrombas
as infindáveis fechaduras
com que me tentei trancar
longe da esquizofrenia de desesperar
na espera por esperanças futuras.

Sou acometido por uma cegueira
onde tacteio na tua luz,
onde nado num branco leitoso,
onde dou caneladas na cadeira
em cujas costas desenho uma cruz
com o sangue quente e viscoso
que jorra do meu coração
quando neste ofuscamento eterno
regresso ao brilho malicioso
do olhar transbordante de provocação...
Esta volta sem ida tem tanto de moderno
como de arcaico... É só o asqueroso
esboço do instinto deturpado
com o qual me recomponho
(ligaduras na caixa torácica,
cicatriz no ventrículo cauterizado)
da fadiga mortal dum sonho
impregnado duma raiva clássica.

Ainda sem ver, oiço a ira do vento
num duelo pessoal com a minha janela,
prova cabal do péssimo temperamento.
Evoco no calor do passado o cheiro
morno e aconchegante da canela,
antecipo o inconfundível formigueiro
de membros na reconquista da circulação,
afugentada por uma má posição.
No entanto, ainda não vejo,
só sei que cubro o rosto de água,
na enlutada vigília pelo beijo
capaz de me lavar a mágoa,
insensível ao ressequido sal
que brota duma fonte de cal.

Continuo sem descortinar nada,
de olhos abertos a ver tudo à volta...
Adeus inocência desprotegida,
frágil partícula arrebatada
pelo vento da revolta,
eco da noite desconstruída,
sussurro duma frase nahive,
morta pela recordação
mais preciosa que já tive,
à qual aplico demão após demão
duma pintura em preto-mate,
que recorrentemente se desmaterializa
para deixar à vista o teu sorriso
(pungente e doce como chocolate,
demência que nenhum psiquiatra analisa) -
se aqui não comprovo a falta de juízo,
a sua absoluta e total ausência,
fala mais 5 minutos comigo,
já que eu não a tive, tem paciência,
e sente a aproximação do perigo
de te emaranhares nos quid pro quo's
imperceptíveis duma alma infeliz
que só agora, nos dias breves e sós,
compreendeu o que sempre quis.

Contudo, tu és a perfeita inversão
de tudo o que eu sou,
talvez aí resida a razão
que inconscientemente me levou
a revisitar o que queria esquecer,
num golpe de pura melancolia,
que persiste em não esmorecer -
há muito que já não caía...
(sabes o que se costuma dizer,
se a esmola é muita, o pobre desconfia)

Porquê? Vá-se lá saber,
mas deixa-me tentar responder...
Porque na tua voz sem mácula
ouvi os motivos expectantes a florescer.
Porque me cobri com uma máscara ridícula,
estou certo de que nada ma remove.
Porque me escondi sob uma manta rota.
Porque já não aguento olhar-te.
E porque hoje chove.
E em cada gota
reflectem-se as lágrimas sem arte
nem engenho para molhar
a aridez do teu rosto,
para na tua alma reencontrar
a atracção do oposto.

Apanhado no início deste conto
que começa em media res,
sento-me no frio, meio tonto,
surpreendido pelo Outono rompante,
numa entrada que confere uma palidez
bem-vinda à luz que me cegou,
dissipada pela chuva cantante,
pela neblina do esquecimento
pela calma que finalmente chegou,
pela enxurrada que me arrasta para jusante
interpondo uma vida entre mim e o sofrimento.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Poema Anónimo

Era uma vez um poema que não rimava,
subtil evidência da inabilidade
de ser socialmente aceite
na vasta sociedade dos versos,
dos lirismos pseudo-literários,
das palavras com triplo significado...
Contudo, nada disso tinha ele,
apenas letras atravancadas,
desarranjadas no vago rascunho
de mostrar sentimentos que se confundiam
com a ponta inerte da esferográfica,
ensaguentada pela mediocridade
que dele jorrava de inédito modo -
pobre poema, ostracizado pelos seus pares,
que, todavia, não lhe eram assim tão iguais.

Olhava-se num espelho de noite cerrada,
demasiado opaco para lhe devolver
o olhar carregado do raro ódio
por ele próprio, pelo mundo,
pelo conto que morava ao lado,
pela crónica que era porteira,
pelo poema que, com graciosidade,
rimava lá no alto do 7º andar
e cuja harmonia lhe havia roubado
o coração de celulose e tinta negra,
engalanada por jogos de sentidos,
por pleonasmos, metáforas, hipérboles,
arrogante na superioridade criativa
do génio que a havia tornado poesia.

Camuflado sob o traje deceptivo
duma capa de gosto algo duvidoso,
o poema que não rimava afundou a cara
nos cantos dobrados da folha que era corpo
(isto sabendo que os poemas têm uma face)
e renuncia-se a si próprio,
ao objectivo de embelezar o real,
agora vê que nunca o conseguiu,
que está para lá, muito para lá
da sua caótica e analfabeta métrica,
do seu desconexado esquema rimático.

Enojado pela brutal constatação
de que nunca seria o que se propôs ser,
que não seria mais do que um projecto
estuprado desde a nascença,
coloca-se no limiar do abismo,
no vértice da carcomida escrivaninha
do quarto mísero e gelidamente vazio,
subtraído de toda a alma que o habitara...
Um dia, o poema que não rimava
acendeu um preto isqueiro
e na chama viu tudo o que amava,
ígneo flashback do verdadeiro
ridículo do seu fim prematuro,
viu como fora extirpado do futuro -
Ateia o fogo que o consome
numa devoradora investida
duma rubra e violenta fome,
reduzindo a cinzas a frágil vida...

Era uma vez um poema que não rimava,
que lágrimas de tinta chorava,
até ao dia em que reparou
que, sem querer, rimou.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Folha Solta #2

De desastre em desastre, a doce desesperança duplica, na dada medida da dor.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Crise existencial documentada #13 (ou "Cartas do meu quarto")

Precipito o meu olhar
nas profundezas do que é teu,
cristal dum revolto mar
onde tudo o que sei desapareceu...
E nesse vácuo sem retorno
aqueço o meu espírito morto
nas brasas dum fogo morno,
entorpecido pelo sorriso torto
com que me presenteias no nada
em que mergulho sem hesitação,
apesar de te ver odiada
pelo delírio da antecipação,
agora meramente deturpada,
sem perspectiva, sem conclusão,
apenas mais uma folha rasgada
dos calhamaços da minha ilusão.

Aqui deitado revejo a franja,
com olhos que não são meus,
da revolução que desarranja
as vísceras encerradas em breus
impenetráveis num negrume
que me confunde os sentidos,
lancinados pelo teu perfume
prenúncio dos dias sofridos
em que a penitência se ajoelha
perante a catástrofe de te ter
ao alcance dos meus vícios velhos,
duma trovoada reduzida a centelha,
e de ainda assim te ver desvanecer
nos redemoinhos de água vermelhos
da névoa duma madrugada amarga,
na qual tudo se começa a parecer
com a horrenda e tenaz carga
que pousa sobre os meus ombros,
com o peso do infinito sofrimento
de ver o meu corpo em escombros,
de te ver fugir num momento.

O teu trejeito singular
assombra agora o meu sono
perante a impotência de respirar
o oxigénio poluído que entrono
como o ponto alto da existência,
enterrada, que descanse em paz...
Aconteceu... Paciência,
num verde monte já ela jaz,
impérvia à banalidade
de me preocupar com a saudade.

No espelho reflecte-se tanta dor,
tanta em alguém tão novo,
mas que já vive num mundo incolor
imbuído pelo cinzento que louvo
por entre traços a branco e preto,
sensual remake do anos 20,
onde me sinto vasilhame obsoleto,
invólucro vazio e desalmado,
contraste violento com o requinte,
paradoxo hipoteticamente errado,
sem qualquer hipótese de melhorar
e que no meu leito se vem aconchegar.

Recosto-me novamente na cama
e penetro na noctívaga tristeza,
fecho os ouvidos à voz que chama,
estou a cair contra uma mesa,
pronta para que a alma seja dissecada
até ao mais ínfimo defeito
se revelar para teu proveito,
para alimentar a charada
com a qual o ego se diverte,
até que a verdade se inverte
e a noite dá lugar à alvorada.

A última coisa que recordo
é uma visão adulterada
do teu perfil nas lâmpadas a morrer...
Ainda agora, quando acordo,
na penumbra duma manhã pesada,
boca seca pela ânsia de beber,
vejo-o com insuspeita acuidade,
coberto pela sombra dum corvo
a pairar em ventos de irrealidade,
nas lufadas de ar fresco que sorvo.
Não passa duma ilusão de óptica,
tenho perfeita noção da imagem idiótica.

Coração podre aos dezanove,
chã amostra da irracionalidade
de tecer uma história que não comove
uma única pessoa, que invade
brutalmente as tentativas de parar
e desperdiçar 2 segundos a raciocinar.

[E tudo isto por um buraco nas meias,
faísca do fogo que me arde nas veias.]

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Folha Solta #1

O sofrimento que sentiste será sempre sentido na serenidade da minha solidão.

"Soneto" da Quimera

No sufoco arquejante do calor,
quando as esperanças perecem
e os pensamentos desaparecem,
sinto-me paralisado pela dor.

Pela dor de não agir, de sucumbir
ao teu longínquo olhar ambíguo
que me enclausura num local exíguo,
cruel restrição à capacidade de sentir.

Tudo deixa de fazer sentido,
para o nada sou arrastado
guiado pelo desejo desentendido...

Despeço-me dum fantasma descarnado,
agarro-me ao que nos teus olhos é lido
pela loucura de subir o monte empedrado.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Queda

Repara nele, numa mão uma cerveja,
na outra um pequeno copo de bagaço.
Repara como a consciência lhe fraqueja,
em como ele já não lhe distingue o sabor a mel,
em como ganha autonomia o braço,
há pouco inanimado, agora num tropel
de gestos descoordenados numa dança feia
para delícia da voraz e exultante plateia.
Repara na malignidade dele concentrada num tumor
dentro do coração que há dias se começou a decompor.
Neste preciso momento é o fígado podre de Jack,
não mais do que um palácio abandonado ao saque.

Ele que um dia já fez coisas belas,
mas isso foi antes de lhe cortarem as mãos.

Ele que já se ajoelhou diante de abertas capelas,
mas agora lambe os dedos em ritos pagãos.

Ele que já provocou com palavras orgasmos,
mas agora desculpa-se pelos estúpidos pleonasmos.

Ele que já foi convidado para prazeres orgiásticos,
mas agora não recebe mais que esgares sarcásticos.

Ele que já foi um mestre em conquistar a cópula,
mas agora não ergue a cabeça, desdentado Drácula.

Ele que já se deu ao luxo de se ocultar em pseudónimos,
mas agora até lhe roubaram as impressões digitais.

Ele que já foi adorado por uma obscenidade de anónimos,
mas agora rasteja, partilha os restos com os animais.

Ele é o nada que já foi tudo.

Ele é o maldito que já foi sortudo.

Até que ela vê uma sombra a levitar,
azul-acinzentado no olhar,
ruivo delicado no cabelo,
ela que é o sonho dele sem sabê-lo,
um sinal que esperava e que o alegra.
Contudo, todos os sonhos acabam por se esfumar
e este não é mais do que os outros, não foge à regra...
Ele foi incapaz de encontrar a força para se levantar
talvez devido a uma fraqueza muscular,
talvez por ter ficado sem ponta de voz,
ou simplesmente porque quer ficar
com a egoísta auto-comiseração a sós.
Quem saberá? Por certo, não nós...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Crise existencial documentada #12 (ou "Cartas de Caminha")

Raramente vi o céu tão estrelado,
raramente vi as trevas tão luminosas,
um brilho contra-natura derramado
sobre as ténues curvas ruinosas
do perfil que, com os dedos estendidos,
desenho nas dúbias correntes de ar,
que transportam os sons diminuídos
dum pulmão direito a começar
a ceder perante o esforço
de se contrair em insultos,
de berrar impropérios,
sem vestígio de remorso,
para a amálgama de tumultos
em que habitam os meus etéreos
devaneios, delírios, conjecturas,
sonhos nada sérios,
que o vento leva para as amarguras
residentes nas sombras escuras
aonde não chega o calor
da recordação do teu olhar -
apenas o ambíguo terror
de sentir a corrente virar.

Procuro-te veementemente
nesta cidade de rio e rocha,
que floresce ao luar nascente,
tremeluzindo diante da tocha
acesa para me dar a possibilidade
de prolongar a noite intemporal
onde sinto o peso da idade,
o desejo de mudar de canal
(embora me interrogue para qual),
de poder pressionar reset
e deixar tudo para trás,
visto que muito pouco já faz
qualquer sentido, tudo se repete
num ciclo fora do meu controlo,
no qual te espero ao virar da esquina
das ruelas onde queria ter o consolo
de te apagar numa névoa adamantina
que, com ela, traz a frescura
duma chuva em pleno Agosto,
infalível modo de apagar a secura
dos dias que me queimam o raciocínio
que se prolongam nas saudades do rosto
onde deslindei um triste vaticínio.

Revisito neste poema insosso
a imagem que idealizo
da delicadeza do teu pescoço,
da revolta madeixa que aliso
com as pontas dos dedos
(ásperos como velhos penedos,
desajeitados no gesto ensaiado
que redundantemente é falhado)
da cor única da tua íris
que ainda não sei definir,
nem serei capaz de o fazer
enquanto tiver na boca a bílis
do enjoo que persiste em subir
das entranhas que adoram escarnecer
da tentativa de te negar
com a fúria dum moderno Nietzche,
de te reduzir a um imaturo fetiche,
da tua memória esborratar
com tinta negra como azeviche.

As nuvens abrem-se na ânsia
de fugir para outra dimensão...
Quem me dera ir com elas,
devotar-me a uma errância
sem lugar para a razão,
apenas para vogar em caravelas
brancas e sem destino traçado...
Espera, espera só um bocado,
as ilusões não são mais que trapos
com que visto a minha timidez,
pois as nuvens desfazem-se em farrapos,
um pouco como a minha sensatez
implodiu há cerca de meia hora -
perdi as forças para não desfalecer,
desconheço se vivo o agora
ou se estou prestes a deixar de viver...
Fode-me e deixa-me a apodrecer
no rancor de não te esquecer...

Fugi de tudo isto,
enganei-me no caminho,
este está ladeado por um misto
de nostalgia, melancolia e carinho
que sou incapaz de suster sem vinho...
Acabo um cigarro com calma metódica,
fustigado por infindáveis setas de prata,
estilização de gotas duma água retórica
que com um subtil sopro mata
os desvarios duma mente neurótica.
Desfaço-me da pagã beata
num movimento saturado de desdém,
baixo os olhos para a alva linha
com a qual me vou enforcar -
pergunto alto a alguém
com uma voz que não é a minha,
com a loucura de ser o único a inalar,
pergunto a já não sei bem quem
quem ainda está a meu lado
ou se já estou só no meu enterro,
pelo augúrio da morte rodeado,
nas faces de quem espera um erro,
de quem espera os despojos dum condenado.

Estou com uma entorse no pulso,
adquirida nesta raiva de escrever,
de agarrar as palavras que saem avulso
das minhas mãos, quase sem querer.
Daí que desista e me encoste
a uma centenária árvore
erguida na solidão como um poste,
com a resistência dum bloco de mármore,
inflamável apenas pelo fogo,
amodorrado no meu coração,
que salta um batimento com o rogo
solto pela alma na escuridão
duma soalheira manhã de Verão
que rompe o cerrado nevoeiro,
que me aquece aqui recostado
enquanto oiço o canto altaneiro
dum apressado e límpido regato,
despertador para o choro cansado
a que, por fim, me resgato.

Contudo, há dores incuráveis,
como esta dor que me traga
duma só vez...
Que dúvidas insondáveis
me levaram a atirar desta fraga
(onde acredito que não me vês,
onde me equilibro titubeante)
as palavras que aqui lês,
o suspiro que me corta, incessante?
É aqui, acima do Norte,
numa difusa e imaterial fronteira
(onde deixo de crer na sorte,
onde transponho no sono a barreira
de confundir onde tu começas
e onde eu termino)
que abandono as promessas
feitas nas horas de desatino
em que só me restavam destroços...
Mas não sei afastar o frio
que me gela até aos ossos...
Peço-te, em alucinadas preces:
Leva-me para o ermo sombrio
que só tu conheces,
deixa que o erotismo
nos inunde numa maré cheia de prazer
antes que o desejo feneça,
antes que me entregue ao realismo,
de te racionalizar, de te compreender,
antes que a minha boca esqueça
a vontade de procurar a tua
nos meandros duma crua
paisagem onde se adivinha
a despedida dolorosa,
a viagem penosa...
Dedico-te um último aceno, Caminha,
antes de correr as portadas
por onde deixei entrar a alegria
de me demorar nas margens amadas
dum Minho de que jamais me cansaria.

Regresso ao exílio imposto,
baseado no pressuposto
de ter de viver no mundo palpável,
de não ter refúgio no bosque agradável
consumido pelas chamas do desgosto,
ateadas pelo teu sorriso frígido,
alimentadas pelo teu não rígido...
Não me ouviste
tocar à tua campainha?
Não me sentiste
amparar-te quando estavas sozinha?
Não me viste
proteger-te sob a capa amarrotada,
frágil, com a respiração pesada?
Lembra-te do momento deixado a pairar
na atmosfera duma leveza abafada,
do momento que contigo quero reencenar.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

"Soneto" da Velhice

A metaforização do Inverno
pinta num puído cinzento
um semblante duro e eterno,
um esgar de constante tormento.

A neve acumula-se na sabedoria
dos cabelos soltos ao vento,
que morde os ossos c'o a zombaria
de ser vergado pelo sofrimento.

Assim me queima, assim sinto,
selvagem e violento, o vento Norte
mensageiro dum pesar indistinto.

Com um envelhecido e ancião porte,
deitado a teu lado, ao tempo minto -
não quero ouvir já os passos da Morte.

[Quiçá um dia, para lá de toda a esperança,
afastes com os lábios a sombra que me alcança]

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Lágrimas dum exílio setentrional

A estrada desliza à minha frente,
estou parado nos quilómetros que percorro,
abandonado ao suspiro carente
que oculto no descosido forro
do casaco cinzento e andrajoso,
símbolo dos séculos de desgaste
que pesam sobre o corpo teimoso
em não prescindir da memória que deixaste
gravada nas cicatrizes dum rosto sisudo...
Lentamente, começo a ver o nada no tudo,
observo-me a preencher o requisito
de adormecer nesta maldita cadeira,
onde sei que a noite não é boa conselheira,
pois tem o dom de tornar o obscuro explícito...

Onde estás tu, eterna gaivota,
que contigo trazes o lamento do mar,
voando nas costas da brisa que trota
alegremente na descrença de acreditar?

Onde estás tu, praia triste,
povoada por mil soturnos rochedos,
mordidos pela intempéries em que caíste,
enquanto me entregava aos meus medos?

Onde estás tu, rio intransigente,
que cantas com perene voz
os vales puros da tua nascente
e o vento gélido da tua foz?

Onde estás tu, alto monte,
miradouro sobre a pequenez humana,
desdenhoso da miséria que enruga a fronte,
do delírio da minha imaginação insana?

Onde estás tu, virgem floresta,
que me prendes nas folhas verdes e douradas,
sendo agora tudo o que me resta
um acre cheiro a terras queimadas?

Onde estás tu, frio castelo,
imponente numa história de morte,
não ouves como te interpelo
com um suspiro virado para o Norte?

Onde estás tu, negra igreja,
altar de ostentação de outrora,
arruinada pelo tempo cruel que te beija,
local onde um olhar de desprezo se demora?

Onde estás tu, branco cálice,
guardião duma alma indomável,
fugaz, desparecido num ápice
para corporizar uma paixão intratável?

Onde estás tu, capa preta,
abençoada pela chuva etérea,
imortal na ponta da caneta
com que escrevo a noite ébria?

Onde estás tu, solitária guitarra,
que nos acordes guardas o passado
ao qual o meu espírito se agarra
num último esforço desesperado?

Até que acordo do pesadelo,
e vejo diante de mim Viana,
sobre um luminoso novelo
entretecido pela leviana
sensualidade reflectida nas águas
que a beijam na face -
vejo-a com uma inaudível alegria,
insuficiente para que lavasse
do meu coração as mágoas,
a profunda e muda agonia...
Se bem que seja uma poderosa droga
para a tenebrosa ferida rasgada
pelo clamor que me roga
por descanso para a alma cansada.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Crise existencial documentada #11 (ou "Cartas de Alcântara")

Permaneço na indefinição tardia,
dissolvida na vontade egocêntrica
de ser uma folha na ventania,
necessidade ridícula e excêntrica
de voar numa ausência de gravidade
na total abstracção da realidade,
durante léguas e léguas,
para longe, bem longe de tudo
num ansiado acordo de tréguas
com o qual me iludo.
Afinal porquê adiar
o que reconheço inevitável?
Porquê aprender a odiar
um sonho só por ser improvável?

"Não sei"
É a resposta que me baila no olhar,
que para mim é já uma lei,
pois poucas vezes consigo escapar
à inevitabilidade da ignorância...
Ou será que consigo
e não sei vencer a arrogância
de me fechar no irredutível abrigo
de não querer saber
ou de pelo menos parecer
escarrar de alto no destino,
com um vago ar de cretino
e com os olhos semi-cerrados
na inculta e ébria presunção
de não admitir os actos falhados
que sabotam as manobras de diversão,
infrutíferas na frágil missão
de me desviar a atenção.

Vá lá, dá-me as chaves,
permaneço afogado na sobriedade
preso pela evidente impossibilidade
de planear um ataque às caves
cintilantes de cristal e ouro,
de vermelho ensaguentado,
sussurrando no escuro
com a voz do longínquo Douro,
com o aroma dum campo imaculado,
com o toque do solo duro.
Mas aqui, alheado dessa perfeição,
nesta forma de ser estranha
que encara tudo com uma apreensão,
atenuada pelo fumo que arranha
a garganta apertada pela opressão
da irresistível vontade de ficar
com os pés colados ao chão,
presos por raízes que parecem brotar
do calcário negro que calceta
(Raios, já não alinho uma ideia correcta)
os caminhos tortuosos
que, semana após semana,
calcorreio com passos pesarosos
apenas para, num flagrante egoísmo
ou numa mera inspiração pessoana,
responder aos impulsos sequiosos
que me levam a olvidar o cinismo,
em mim doença crónica,
que se prolonga até que ceda
uma alma que grita até ficar afónica,
até se prostrar, inútil e leda.

Porém a noite ainda é jovem
e a vontade de ir embora
não supera o medo
das sombras que se movem
no quarto onde mora
a sentença do degredo
a que me condeno diariamente,
um exílio no seio da multidão,
simples desterro inexistente
que me encerra numa prisão
com paredes de sonho,
com grades de emoção,
com um torreão tristonho
donde olho para um idílico céu,
um quadro violado pelo mundo
de carne e osso, de ar e pedra,
esfomeado, preto como o breu,
como a boca dum poço sem fundo,
como o terror que em mim medra
ao sentir os membros fraquejar
na fuga que tento manter viva
mesmo que a mente seja cativa
do infernal esforço de especular
sobre o que poderia ter acontecido,
sobre o que o amanhã guarda
(Véu sobre o coração empedernido),
pois um novo sol já não tarda.

Caminho em direcção ao nada,
tento quebrar o marasmo
de aguardar pela odiosa alvorada,
inconveniente interrupção do orgasmo
de viver na escuridão que atiça
o sangue dos meus restos mortais,
espalhados à luz mortiça
que me pergunta "Onde vais?"
Para o brilho do sorriso que salvaguardo
deste mordaz e selvagem arrepio,
da tentação de rejeitar o fardo
de cumprir o que a mim me prometo...
Sinto na espinha o frio,
no ar a infantilidade da lamentação
que oiço num tom de falsetto
(Dignidade sacrificada em vão).

O sol nasce, fecha-se a porta,
todo o encanto reduz-se à relativa
desilusão duma cerveja morta
antes mesmo de estar viva.
E é no ancião número 28,
sob fechaduras ferrugentas
que um desalmado afoito
encontra a redenção em bafientas
salas nas quais a noção do espaço
se deturpa com a leveza brutal,
inerente ao erro crasso
de me afogar na embriaguez superficial
de não querer ponderar o que faço...
(Aqui, num recanto teu, secular Alcântara,
tirito no gelo duma mal oxigenada câmara)

Contudo isto não tem de ser assim,
talvez um dia encontre a sorte ao te ver.
Todas as estradas têm um fim,
quem sabe se, num imprevisto amanhecer,
estarás lá para me receber.
Mas olha hoje para mim,
esgotado pela noite traída,
pelas meias palavras insignificantes -
se algo mudar a minha vida,
por acaso tinha uma antes?

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Crise existencial documentada #10 (ou "Cartas do Amadora-Sintra")

Era uma vez algo.
Era uma vez uma criança,
aquela que em mim trago
corporização da ingenuidade
que arrebatadamente me lança
para os braços dum destino
retorcido pela crueldade
de tentar ser
um ensaio cinematográfico
digno dum Tarantino,
apesar de nunca o merecer,
de não passar dum sarcástico
esforço para tornar imprevisível
um anunciado e vulgar final
novo apenas para a inconcebível
incapacidade de reconhecer o trivial.

Projecto a insensatez
numa escuridão sonhada
onde tropeço uma e outra vez
nas pedras da calçada,
a relva fria e cinzenta
das ruas do meu descontentamento,
coberta pela geada que aumenta
proporcionalmente ao tormento
que me gela o sangue
em cubos esculpidos a bisel
pela perfeição matemática
duma subjectividade exangue,
somente possível
graças à demência errática
de negar o sentir,
de continuar a tingir
o tórrido e derretido alcatrão
que atapeta o chão
dum solitário Julho
com os doentios tons
do funeral do meu orgulho,
caído no sufoco do calor
duma tarde despida de sons,
calados os gemidos de dor
das árvores ressequidas,
do pranto de folhas deprimidas,
guardiãs de épocas esquecidas.

Mas uma sirene persistente
chama-me à realidade
e ergo o olhar morto
para a fachada reluzente
alvo duma antecipada saudade,
embalada no conforto
de ser banhada pelo sol virgem
de mais uma alvorada
que me cura da vertigem
de reaprender em cada passada
esta estranha e bizarra sensação
de anelar, de desesperar
por um novo lar,
templo de solidão,
cemitério da insegurança,
altar do meu êxtase,
da calma que amansa
os espectros que me assombram
com frases preenchidas pelo ênfase
de milhares de reticências
que para sempre prolongam
a incerteza das reminiscências.

Entro na minha nova vida,
enterro a história sofrida...
e estugo o passo
ao longo dos corredores,
oiço o eco do colapso
das incontáveis flores
amordaçadas sob os azulejos
que traduzem o desenho
dos ténues beijos
que hoje desdenho
na ânsia de me libertar.
Não tenho mais questões,
não quero pensar...
suplico por mais injecções
de viciante adrenalina,
pelo soporífero egoísta
que torne a noite suportável,
pela dose que assassina,
com hipocrisia nunca antes vista,
a insónia intratável.

Não vês como estou nervoso?
Não face ao vermelho espalhado
na imaculada bata.
Não face ao toque rugoso
do fim anunciado
que nenhuma droga trata.
Não face às tremuras
duma brutal abstinência,
marca das amarguras
da repetida inconsequência
de desperdiçar uma vida.
Não face à boca descaída,
face às pupilas vazias
duma alma que já partiu.
Não face às faces frias
cujo futuro traiu
qualquer réstia de expectativa.
Não face à carne viva
que espreita por linhas abertas
em telas outrora belas...
Mas sim face às raivas encobertas
por uma frágil mortalha de linho,
transparente às sequelas
do recalcamento freudiano
com o qual caminho
vergado pelo peso decano
dos anos órfãos de carinho...
Mas sim face ao terminar
das horas que se esgotam
na loucura do tempo sem vagar
para a necessidade de obliterar
os receios que me garrotam.

E é nesta sala dum etéreo branco,
palco da miséria humana
onde do meu peito arranco
o luto que inevitavelmente emana
perante o sofrimento condensado
na urgência que nunca termina,
sem hipóteses para o ânimo quebrado,
pois há sempre mais um frasco de morfina,
há sempre algo que pode ser tentado,
mesmo que não exista a possibilidade
de evitar a morte
num local onde a surrealidade
não se separa da cega sorte.

Um ocaso ocre e laranja
de raios inclementes que apontam
para o nada que se rearranja
nas sombras que se alongam,
prenúncio dos cansaços,
fósforos no negrume
onde vêm acender o lume
da luta pelos teus braços,
que contrastam com a doçura
da fadiga que me tolhe o corpo,
que apaga a memória da tortura
ao me enlevar num limbo torpo...
E tento lavar o suor
que se confunde com a mágoa
estampada no meu rosto,
com uma torrente de água
esforço fútil contra o terror
de enfrentar um serão de desgosto,
de descanso inquieto,
de voltas de desassossego
nos lençóis onde ofego
pelo desligar do intelecto
que me queima com a morbidez
de dissecar tudo o que fez
e tudo o que deixou por fazer...
Por favor, deixa-me adormecer...

Era uma vez eu
imerso numa prece de ateu,
à qual me agarro
na companhia derradeira
do vigésimo cigarro,
sentado na beira dum degrau,
olhando uma vista sobranceira
directamente para o abismo,
alucinação de anónimo grau,
enquanto medito no fatalismo
do meu irresolúvel enigma
que pelos vistos faz jus
à fama de se tornar num estigma
paralisante nos seus traços crus,
carrasco da auto-estima...
e assim,
nesta intrincada fronteira de ar,
no rescaldo dum motim,
tombo perante os murmúrios insones
que não consigo silenciar
com a violência dos meus headphones...
atiro-me para o chão
e choro as lágrimas que nunca cairão,
choro a dor desprovida de emoção,
choro o último suspiro do coração
num pranto simplesmente insignificante
perante a vil decrepitude
que me asfixia na névoa agoniante
da descrença em toda a sua plenitude.
Porém talvez receba sorrisos de gratidão,
talvez veja a alegria duma criança,
um amor unido por uma aliança,
uma vitória a romper a imensidão
da impotência perante a condição
de ser apenas mais uma peça
num puzzle onde nada interessa.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Crise existencial documentada #9 (ou "Cartas do Bairro Alto")

Os estores escancarados
são fraca barreira
contra os raios desgarrados
da inevitabilidade soalheira
duma manhã de verão,
rescaldo da desgraça
da fraqueza que me ameaça,
dotada duma incandescência
que exacerba a indisposição,
consequência óbvia da ciência
delicada e exacta
dos vapores alcoólicos
das chamas inebriantes
duma alquimia ingrata,
religião dos melancólicos,
vício dos errantes.
Vomito estas palavras
na aflição de delas me libertar
de curar patologias macabras
que destroem o acreditar,
se é que alguma vez existiu
algures entre a crença
e a sombra imensa
que no amanhã me engoliu.

São nove e dezanove,
as lanternas anciãs
derramam uma luz que me move
através de ruas pseudo-irmãs,
anónimas nas placas trepidantes,
íntimas nos contornos cortantes,
pelas quais deslizo
elevado por uma alegria
desprovida de juízo,
em que todo o corpo recria
a despreocupação infantil
dos anos esquecidos,
enterrados pelo ardil
de modernos sonhos caídos...
Esgotado por esta dor de pensar,
não tenho forças para procurar
o alívio pelo qual o meu ser almeja,
escondido na espuma duma cerveja.

Batem as doze badaladas,
num longínquo antro,
trazendo cada uma vozes abafadas
pelo vago e etéreo manto
que paira sobre a frigidez
da calçada pintada com o rímel
de sombras desenhadas pela altivez
de agarrar com a mão falível
uma garrafa destinada ao esquecimento,
uma noite na qual recuso
a lógica que continuamente rebento
com a irracionalidade de ser obtuso...
Oiço o murmúrio fadista
(Não ouves o mundo a adormecer?)
que desconhecia possuir,
que acentua o esgar fatalista
de quem viu mais do que tinha para ver,
de quem já não sabe para onde ir.

Olho para o relógio em busca dum rumo,
é uma e meia, desfocada
pelas cinzas do fumo
que se ergue na minha derrocada,
que docemente me deita no chão
à espera dum falso milagre
que me ressuscite da maldição
de não tirar este gosto acre
da boca queimada pelo arrependimento
de tomar por garantido
o êxtase do imaturo alento,
ganho ao encontrar um refúgio
para o tormento empedernido
pela segurança do subterfúgio
de tudo conseguir camuflar...
Nos estilhaços dum copo partido,
nas rotações dum disco de vinil,
(Não ouves o mundo a suspirar?)
nas costuras duma velha capa,
empoeirada pela atitude senil
de traçar o futuro num mapa
apenas para o deixar voar
nas ondas dum intempestivo mar.

O que cuspo sem pensar
pela minha boca embriagada,
no incógnito tempo da madrugada
donde já não sei regressar,
são as frases que não consigo
guardar na decrépita arrecadação
da desarrumada vida em que prossigo
a gradual rota da auto-destruição...
Não distingues o ultraje
de ser um infeliz actor
sem arte para envergar
a artificialidade dum traje
que me ensine como quebrar
este silêncio constrangedor?

Esta é uma cruel carta,
registo escrito da ironia farta,
da paranóica marca indelével
de escutar a solidão muda
da distância terrível
que tento ultrapassar
com a futilidade desnuda
de mediocremente condensar,
num estranho código morse
que nem eu próprio sei ler,
o medo que distorce
a tentativa de não desfalecer
perante o esforço eremita
de simplesmente não querer saber
e fechar as pálpebras, de me abstrair
do presente que não evita
a evocação dum passado
a que já não sei resistir,
mesmo que seja errado
cobrir o meu olhar receoso
com o discurso inebriado
de quem se senta nos degraus encardidos
deste ridículo beco andrajoso,
cemitério de cigarros seduzidos...
Aqui, neste local, o meu espírito fuma,
reflecte sobre a sua arrogância,
pois mais duro do que viver na ignorância,
apenas vogar na ténue bruma
que lhe recorda a ternura do teu sorriso distante,
luz que ilumina o caminho em que me perco,
fogo que arde no coração petulante,
preso no peito que rudemente cerco
com a mágoa dum soluçar arquejante.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

"Soneto" da Fuga

Senta-te a meu lado
apenas por um momento -
abandona-te ao esquecimento
do que é certo ou errado.

Eu sei que te vais embora,
que num instante me vais esquecer -
dá-me um segundo do teu ser,
deixa-me sentir algo agora.

Como é doce a imaginação
dum miserável sem juízo
nem esperança no coração...

Pois é triste o que idealizo -
não há barcos gregos com a compaixão
de me levar p'ra longe do teu sorriso.

"Soneto" da Depressão

O leve frio nocturno
é dominado pelo brilho do luar
reflectido na indefinição do olhar
que acentua o desespero soturno.

Não sei se contrarie a razão,
ou se vire as costas para fugir,
se te tente fazer sorrir
ou se caia inanimado no chão.

Assim, observo com amargura
como é alvo dum total desprezo
os traços duma triste figura...

Apaga-se o que esteve aceso.
Perco a esperança numa cura.
Reduzo-me ao cru menosprezo.

"Soneto" da Prisão

A marca em altivos ramos
do brilho da lua cheia...
A brisa fresca que nos rodeia
enquanto no ar nos encontramos....

Os rostos sem nome da plateia
que assiste à peça que protagonizamos...
Os momentos nos quais desesperamos
com o controlo duma subtil teia...

Uma teia que teima em me prender,
em me cortar a respiração,
em me mergulhar na doçura de sofrer.

Uma teia urdida com fios de solidão
que torna cada fibra do meu ser
ansiosa pelo toque da tua mão.

Desabafo sem sentido

A noite cai lentamente como um lençol de negrume, lançado sobre o mundo apenas para cobrir, esconder o desespero que enruga mil rostos sem nome, sem rumo, sem história...
Recosto-me no cadeirão da minha indiferença, olhando angustiado o enterro de mais um dia banal, sublinhado pelo fogo-de-artifício rubro e flamejante que me enleva nos braços dos uivos do vento para longe daqui, para longe de tudo, para lá da realidade, onde relembro cada instante, cada momento - onde sinto a doçura dos suspiros perdidos, a beleza dos olhares suspensos, a memória das notas comuns pertencente a músicas intemporais partilhadas no desconhecimento mútuo.
O mundo prossegue a sua marcha lenta, numa fuga para frente infindável, na tentativa de fugir de um passado ao qual me agarro teimosamente, na vã esperança de reviver oportunidades falhadas... É triste quando tudo o que temos na nossa mente são as meras reminiscências do que já teve significado no nosso íntimo, mas que para os outros não são mais do que vírgulas sem particular relevância.
Abro os olhos para a realidade do meu quarto, surrealmente normal, apercebendo-me do tempo desperdiçado em divagações fúteis, em esperanças destinadas ao desespero... O vento atira-se contra a janela insistentemente, o relógio prossegue o seu compasso imperecível, o silêncio ensurdece-me, a alma foge do meu controlo, o coração bate desenfreadamente numa taquicardia crescente, o medo do amanhã que chegará gela-me, paralisa-me num pânico sem precedentes - mas quem sabe o que ele reserva... Talvez a felicidade, talvez o abismo... Talvez...

sábado, 12 de junho de 2010

Crise existencial documentada #8 (ou "Cartas do Oriente")

Vê o céu cinzento,
este tom melancólico
com o qual alimento
o desespero melódico
duma manhã insípida
em que observo com desprezo
as páginas da renhida
luta entre o ódio aceso
e a obrigação de p'ra elas olhar,
mesmo se molhadas pelas gotas
que escavam no meu semblante
a angústia de esperar,
de me prender nas reflexões rotas,
traços indeléveis da inquietante
falta absoluta de significado
da lenta marcha dos ponteiros
num ritmo perfeitamente sincronizado
com os tremores brutais
que me conquistam, grosseiros,
até eu não aguentar mais.

Vê as grossas bátegas
que se precipitam das nuvens escuras,
violentas, ávidas, sôfregas,
setas que apagam as puras
memórias que guardo na mão,
que se esvaem como areia
numa corrente contínua, sem direcção,
(Ritmo funerário da minha respiração)
num tormento sem panaceia...
Cheiro a revolta
de não resistir
a este sufoco que volta
e continua a sorrir
duma incompreensível
e dilacerante impaciência,
dum esforço risível
para não entrar em falência.

Anelo pelos passos
dados na curta espera
pelas cruéis carruagens,
aglomerados de ferros e aços,
arautos da cega e sincera
raiva contra as margens
deste rio de metal e madeira
onde planeio a última resistência
contra a inevitabilidade da despedida,
contra a tristeza duma terça-feira
enlutada pela senescência
da minha reanimada vida
(Perdoa-me mais um clichet,
a inspiração abandonou-me, não se lê?)

Adivinho no vento de oriente
o toque dos teus lábios,
refúgios da minha alma doente,
desenhos doces e sábios
feitos com a mestria
do longínquo dia
em que a própria perfeição
caminhou entre os mortais
p'ra criar algo para o qual não
estava preparado...
Caminho inconsciente junto ao cais,
piso o passeio empedrado
na indiferença dum suspiro alheado,
e ligo o piloto automático,
só assim sei ser pragmático
o suficiente para encarar
o aumento exponencial
da distância inexorável
(Costelas partidas p'ra não gritar)
que me esmurra num real
e terrível despertar
para um destino intratável,
para um fado caprichoso,
com um propósito que tento entender
mas que apenas se revela tortuoso
(Lágrimas caídas p'ra não morrer).

Onde estás?
Para lá dos montes,
quiçá onde jaz
o meu espírito,
afogado nas fontes
onde futilmente evito
as saudades
que por ti sinto,
imerso nas atrocidades
da insegurança senil
de encher mais um copo com
a leveza duma bruma febril
onde não se ouve um som,
onde não me reconheço,
onde fico preso,
pés colados ao chão...
Um inebriado sonâmbulo
desassombrado na especulação
onde somente deambulo,
adivinhando o preâmbulo
do calor que engulo
p'ra evitar a hipotermia
duma lancinante tristeza
que me impede de relembrar
o rosto que me sorria,
a minha última defesa
contra sonhos que não posso sonhar,
contra pensamentos a que não posso ceder...
Desculpa, disse demais, talvez sem querer,
talvez simplesmente por não o ter,
se é que existe alguém
que possa dizer que o tem -
de certeza que não é quem
tudo aposta nas cinzas duma nuvem.

domingo, 30 de maio de 2010

Crise existencial documentada #7 (ou "Cartas de Lisboa")

Num compasso lento
subo as escadarias
pelas quais tento
escapar das masmorras ébrias
que minam as ruas que percorro,
que abrigam as carruagens cruéis
onde há muito grito por socorro
com os lábios selados e insensíveis,
com a garganta apertada
por um terrível nó,
com a pele gelada
pela solidão de estar só,
longe da confusão esfumada
dos rostos incógnitos na palidez
que marcam a minha frustrada
tentativa de decifrar os porquês,
de poder iludir o nada.

Sei que a noite terá a doçura
do hábito tóxico e crónico
de procurar uma cura
em profundezas de gin tónico,
reflexo do luar dum negro puro
que me cobre num manto
tecido com linhas que seguro,
mesmo quando tomado pelo quebranto
da constante lembrança
de te ter nos meus braços,
numa estática dança
onde aprendemos os passos
que nos deixem escapar à vida,
nos deixem encontrar a saída
deste intrincado labirinto,
no qual já não sei o que sinto,
ou o que o amanhã trará -
apenas sei que já
não sei bem onde estou,
não sei bem quem sou...

A desorientação digna dum louco
toma conta da minha razão
e sinto o ego oco,
o silêncio da respiração
que deixou de existir
perante o teu sorriso
tão próximo que juraria impossível,
imaginado num filme que realizo,
contigo como actriz principal,
e comigo no papel nada credível
de não ser mais uma amostra banal
da vulgaridade inerente
a um mundo demasiado ciente
das limitações que impõe
a uma alma irrequieta
na irreverência de quem compõe
uma sinfonia que afecta
o discernimento de viver no realismo
que absorve a capacidade de aspirar,
a vontade de divagar
por uma gota de romantismo.

Parados, juntos, unidos
afogados num só olhar,
exalando o mesmo ar...
Damos as mãos, feridos
pelo êxtase partilhado,
assinado pelo suave toque
do carinho delicado
distinguido na tua voz -
explode, num ritmo rock,
a pulsação, até agora débil,
que oiço numa perfeita sintonia
através da camisola frágil
com que vesti tudo o que calaria
caso não estivesses aqui
para me esconder da fria
sombra que foge de ti.

Estes são pedaços de sonhos revoltados
que se adivinham nos dedos entrelaçados
na fútil e idílica musicalidade
silenciada no rasgo impaciente
de gravar para sempre nos muros da cidade
o instante em que tudo parou
(Desculpa, já não alinho uma frase decente)
em que tudo se dissolveu numa mera
brisa que me ergueu, me elevou
para lá da inalcançável quimera
de atingir a lucidez no vapor
do álcool com que trato a minha dor.

A noite cai, o entardecer
abate-se sobre o adormecimento
a que me tentei prender
na ânsia de agarrar o momento -
pois o que mais há para dizer
sem ser este murmúrio rouco,
(Prova do timbre prestes a morrer)
que te pede: "Só mais um pouco..."

Contudo o tempo é escasso
para verbalizar todas as palavras,
queimadas com o meio maço
com o qual escrevi parte de mim,
os capítulos que espero que abras
ao ler o intrigante livro sem fim,
testemunho duma vertigem nada sã
de quem, sem querer, subiu aos céus
nas asas duma estranha ruptura,
deste beijo que perdura...
Diz-me até amanhã,
nunca me recebas com um adeus.

domingo, 23 de maio de 2010

Crise existencial documentada #6 (ou "Cartas de Coimbra")

Quando o expoente máximo da imprevisibilidade
não passa do shuffle do teu iPod
abstrai-te do ar artificial da cidade
e deixa que o vento forte que te sacode
disperse as brumas que respiras,
te arrefeça o rosto, te acorde
o fogo das eternas piras
ateadas pela angústia que te morde
o coração com uma rede de mentiras.

Vem comigo caminhar por estas ruas
num jeito levemente cambaleante
que deixa as minhas angústias nuas
a flutuar no ar viciante
de mais um cigarro partilhado
por entre copos de vinho
que afogam o inevitável fado
de me arrastar sozinho.

Não sei se estás ao meu lado
mas sei que sou perseguido
pelo meu olhar raiado
por um vermelho ferido
próprio de quem, no negrume,
esquece tudo o que foi,
abandonando-se a um perfume
que por dentro o corrói.

Vejo o caminho estreito,
talvez alterado pelo ar vaporoso,
entortar-se num trejeito
propositadamente malicioso,
curvando-se num sorriso
que sigo isolado do mundo,
enquanto traço e idealizo
cada passo que darei até ao fundo
recôndito do amanhã
onde se adivinha difícil
a procura vã
pela recordação do míssil
que me deixou neste estado...
Pois que outra explicação
terá o aspecto arruinado
dos escombros do meu coração?

Abraçado pelas margens do Mondego,
vislumbro a corrente calma
que me aperta a alma
com a noção de que não chego,
de que nunca chegarei,
a ser mais do que um pedinte
a viver das tuas esmolas, às quais terei
de me agarrar p'ra não perecer antes dos 20.

Dá-me mais um gole de Porto,
quero esquecer...
Já que tudo está morto,
mais vale adormecer
o desgosto de existir
enterrado numa multidão
que me convida a desistir -
porém prendes-me com a tua mão...

Num sonho traçado de preto
ficamos aqui, cada um meio acordado,
com o som de fundo obsoleto
a sublinhar o real imaginado -
este sou eu, incapaz de lidar
com uma desconhecida felicidade,
a abandonar-me à simplicidade
de parar de pensar...

E numa névoa de absinto
que mescla a verdade com o falso,
perco-me em ti e pinto
um retrato no qual realço
o paradoxo duma vida
incompleta até este momento...
Só peço ao tempo para ser mais lento,
para prolongar a resistência caída.
(Até quando aguento?...
O que é isto de ter uma recaída
por algo que não existia,
por um olhar que me vicia,
por uma chama que não me feria?)

Ilumina-nos a alvorada,
admiro-a com os olhos inchados
pela insone madrugada...
A noite acaba, sinto os dedos gelados
que desesperadamente tento aquecer,
agarrando-me a eles com a loucura
de lhes pedir para não esquecer,
para guardarem a doçura
com a qual escondeste o receio
de poderes enganar toda a amargura
que no teu rosto leio,
enquanto tristemente revejo
os fantasmas duma alma perdida,
mil martírios só meus...
Este é o beijo
mais longo da minha vida...
Bom dia e adeus...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

"Soneto"da Noite Alta

A paisagem da minha vida
estende-se diante de mim
contemplo-a numa insónia sem fim
dedico-lhe uma noite perdida.

As horas escuras da penumbra
são como séculos de sofrimento
nos quais perco a noção do momento
numa indiferença que me deslumbra.

Sinto nos olhos o ardor
do sono que teima em não vir
preso no meu mundo de rancor.

Um mundo do qual não consigo sair
pois não tenho mais forças para pôr
no esforço de não desistir.

"Soneto" da Melancolia

Um leve novelo cinzento
ergue-se diante do meu olhar
perdido no simples acto de sonhar
enquanto o tempo se arrasta lento.

Em nada demoro o pensamento,
no nada me consigo perder,
preso na incapacidade de poder,
de querer libertar-me deste momento.

Sinto a alma afundar-se na melancolia
de te ver e não te ter,
noite após noite, dia após dia.

Volto ao mundo sem querer
e exalo o fumo da minha alegria
para no ar acabar por desaparecer.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Crise existencial documentada #5 (ou "Cartas do Campo Grande")

No refúgio da minha varanda
olho para o horizonte
sem ver o que por lá anda,
sinto só o sol na fronte
enrugada pelas preocupações
que me absorvem a alegria,
que anulam as emoções -
coveiras de cada novo dia
cuja campa selam
com risos de hipocrisia
vindos do alto da sabedoria
erguida na certeza de que revelam
o lado negro e escuro
dos labirínticos becos da minha mente,
nos quais me sinto inseguro,
humilhado por um sofrer inconsequente.

Relembro as memórias
do que deixei por dizer
nas tentativas inglórias
de, por um instante, te merecer.
Recordo a noite cerrada
embotada pelo vapor
da mistificação criada
pelo alívio da dor
que me deprime
enquanto viajo na decrepitude
dum autocarro rude,
ensombrado pelo crime
(comprovativo legal da falta de atitude)
que espero conseguir lavar,
pressionando delete
com o desespero de acreditar...
Vá lá, ri-te,
tem uma certa piada -
esta postura perdida
com a qual encaro o nada
duma multidão esbatida.

O calor sufocante,
corpos suados,
o esgar arrogante
de copos esmagados.
O som ensurdecedor
deixa-me num transe
que abraço com fervor
induzido pela repetição
(mais um pouco, talvez me canse),
sem a mínima noção
de movimentos atabalhoados
e de notas sempre iguais,
de cigarros queimados
e de cervejas frugais...
Tudo se conjuga na névoa surreal
onde o tempo deixa de o ser,
onde o corpo se torna imaterial,
pedaço do sonho no qual quero viver.

Até que chegaste
com um sorriso desarmante,
com o olhar que pousaste
nos retalhos da titubeante
manta que me protege
do meu pior receio:
o de perder o rumo que rege
a tristeza que leio e releio
nas linhas dum futuro
sem réstia de esperança...
Sinto-me a chocar contra um muro,
uma chama que mais ninguém alcança,
uma luz na escuridão
da qual desconhecia a existência...
Apaga o espectro do mundo cão
onde sou consciente da inconsciência
de guardar um laivo de clarividência
numa noite de monotonia e solidão.

À distância do passado,
acarinho estupidamente
o toque delicado
da tua suave mão,
a insuportável ternura
dos olhos que não me salvarão
da eterna amargura
que nutro por mim próprio.
Hoje aqui fico, paralisado
pelo raciocínio sóbrio
de quem sabe estar errado
e quer persistir na ilusão
construída por ecos retorcidos
que tacteiam na confusão
de murmúrios esquecidos,
de carícias inesquecíveis,
de prazeres terríveis.

Como esquecer o desejo
de te ter junto a mim,
quando, num snobismo entediado,
apenas suspiro e bocejo
perante um dia desperdiçado
que nunca mais chega ao fim?
Sabes que só penso em voltar
para lá de montes e vales,
e contigo afogar
os meus incapacitantes males?

quinta-feira, 8 de abril de 2010

"Soneto" da Ciência

É embriagante a poesia
duma flor a desabrochar
numa explosão molecular
que dissipa a noite fria.

Enquanto um Inverno desesperado
se dissocia em mil novas reacções,
cai sob o peso das convulsões
da renovação pura dum mero prado.

Porém a inevitabilidade
do mundo voltar a adormecer
remete-me para a incapacidade...

Incapacidade de compreender
um só átomo da tua superioridade -
que me afunda na patologia emocional do sofrer.

Divagação num passado presente

Um subtil entorpecimento
que tolda a visão,
mesclada de aborrecimento
e de mágoa no coração,
embala-me nos braços
duma melodia entediante,
revelando estímulos escassos
para uma mera mente errante,
que viaja para lá das paredes,
dos incontáveis nódulos de madeira
que me enclausuram em mil redes:
mesmo que o corpo não o queira,
mesmo que se forme um grito no peito,
se sobressaltem todos os nervos do ser
numa ânsia que não aceito,
imerso na impossibilidade de poder.
Porque continuo a tentar?
Porque insisto na teimosia?
A insignificância não me deixa desesperar,
logo persisto num fútil alegria
oca de significado,
ígnara fachada
dum triste passado,
duma alma aprisionada...

Levanto-me. Caio...
Mas rio-me da vida,
não é a primeira porta por onde saio
que simplesmente já não tem saída -
o hábito de discernir
que a vida é uma reles p***
que teima em nos seduzir
e que depois nos refuta,
quando nos deixa sem nada,
sem felicidade, sem esperança,
apenas com a mera lembrança
da sorte que nos foi arrancada.

"Soneto" do Despertar

O frio matinal, gélido, brutal
fustiga um rosto mal acordado,
um olhar caído, desanimado,
morto pelo sono frugal.

Os passos guiam-me na inconsciência
de apenas seguir em frente,
mesmo esperando a insónia demente
que me conduz para uma eterna falência.

Pouco tenho para me agarrar,
a névoa envolve-me sem escapatória,
entra-me no peito um vicioso ar

E escondo-me nos becos duma história
onde descubro a minha teimosia em errar,
em guardar a doçura da tua memória.

"Soneto" da Procura

Suave claridade do luar
reflectido nas curvas do teu perfil,
premonição de desgostos mil,
sinal de naufrágio em revolto mar.

Teimo em subir para mergulhar
nas alturas de becos e esquinas,
ruelas onde te peço que definas
um rumo para eu tomar.

Deixo o olhar ébrio correr
cada alma prostrada
pelo fumo que vejo tudo desvanecer...

A toldar a lenta noite desesperada
em que persisto na luta de te ver
antes de cair na nuvem do nada.

domingo, 21 de março de 2010

Madrugada

É estranho este sentimento,
uma presença constante
num panorama cada vez mais lento
de quem rema ruma ao montante
dum rio infindável, indomável,
feroz na luta contra os obstáculos,
rasgos de inspiração louvável
da natureza traduzida nos vernáculos
que esvaziam de significado
as palavras que te digo
na cegueira dum condenado
a perseguir a sombra que contigo
caminha a qualquer hora
destes dias que se arrastam
e nos quais se demora
o plano que desgastam
mil espíritos perdidos,
mil prazeres fingidos -
sinais de que sou mais um,
de que sou um idiota,
um viúvo morto num
massacre a leste do paraíso...
Deixo as cinzas da alegria que se esgota
apesar do esforço que eternizo
para a guardar só para ti, com fervor,
só para o fogo que arde imperecível,
imortal no seu esplendor rubro,
objecto da minha análise insensível,
da retórica ridícula com que cubro
as nuances que coloquei à tua disposição,
mesmo que para tal me reduza
a uma insignificante amostra da razão
obsoleta que já ninguém usa:
só eu, na incontinência verbal
com que te aborreço,
com que disfarço o nervosismo,
numa atitude coloquial
que te grita: "Não te mereço,
até se transpirar optimismo,
até se aguentar de pedra e cal,
ajoelhado diante do teu trono real."

sábado, 20 de março de 2010

Crise existencial documentada #4 (ou "Cartas do Santa Maria")

Ando como um sonâmbulo,
cruzo-me com fantasmas petrosos,
plano sobre degraus andrajosos
neste que é apenas o preâmbulo
de mais um capítulo escrito
pela criatividade cansada.
Assim, restrinjo-me ao que cito,
ao que roubo da literatura iluminada.

Atravesso minimalistas corredores,
ao ritmo de tosses e lamentos,
murmúrios de incógnitos temores,
de espectros virulentos...
Recebo uma lufada de ar
nas encovadas olheiras -
ao longe, oiço o cacarejar
de velhas hipocondríacas,
sussurros de provinciais feiras,
de queixas sobre caídas macieiras
ou maridos com insuficiências cardíacas.

Desenho na face um esgar snob,
e com gestos ensaiados
ergo a cabeça para o sol que sobe
(mais uma manhã dos mal-amados)
e acendo o isqueiro
com o qual inflamo
o desprezo pela Humanidade,
a rejeição de tudo o que amo,
o aperto da saudade.

Entro no teatro dos meus medos
apavorado por um niilismo
que torna todos os enredos
insignificantes amostras de masoquismo,
apagadas com pastilhas de mentol,
com injecções de cafeína
com anestésicos à base de etanol -
tudo esforços inúteis para esquecer
a dúvida que, por dentro, mina
qualquer estratégia para não a ter.

Isolo-me numa íntima comunhão
com o volume máximo do meu mp3.
Preguiçosamente, perscruto a multidão,
movimento repetido pela enésima vez -
porém, paraliso perante a súbita visão
dos traços delicados do teu rosto perfeito,
que me batem tão forte
como uma pedrada na cabeça,
(joelhada no estômago, murro no peito).
Praguejo contra a sorte
que faz com que me esqueça
da retorcida tortura
que há anos perdura.

Quero saber o teu nome,
pois o último que viveu em mim,
mesmo esquecido, deixou-me
a boca adormecida pelo fel...
Espero que o teu não seja assim,
mais uma colher de envenenado mel.
Mas não consigo, não posso...
De mim próprio troço -
sei que, no meu íntimo, roço
o estupidamente interessante,
com esta bizarria paradoxal
de não escrever uma rima decente,
de não manter um intelecto pedante,
sem estar mergulhado no deprimente,
se for minimamente normal,
se sentir, por um segundo que seja,
a felicidade que qualquer um inveja...
A principal inimiga da inspiração,
assassina de qualquer criação.

A intensidade do querer
desarma-me a veia irónica,
deixa-me inútil, sem ver
nada para lá duma leveza magnífica
que inebria os sentidos,
que me quebra a vontade
em inúmeros pedaços perdidos.
Não tenho refúgio para a tempestade
que se revolta face à estagnação,
ao sedentarismo ultrajante,
caídos como castelos de cartão
perante esta rajada de vento cortante
constituída só por um olhar
por dois desconhecidos trocado,
um cansado de desesperar,
o outro distante, inatingível
no pedestal imediatamente criado
pelo romantismo incorrigível
alimentado por absurdos clichets
(plano de fundo - caras inanimadas;
primeiro plano - as memórias do que lês
aprendidas em neblinas alcoolizadas)

Será que me salvarás
desta terrível tendência,
desta maldição assaz
insultuosa para uma consciência
imersa na auto-comiseração
da qual me quero libertar,
sinal duma rota para a destruição -
sei que inevitavelmente a vou tomar,
só te peço, só queria...
Envolve-me com o teu olhar,
adia a minha queda para outro dia.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Crise existencial documentada #3 (ou "Cartas de um autocarro")

A perfeita imagem do adeus
sofre um contínuo escrutínio
pelos rumores vindos dos céus,
testemunhas do assassínio
que marcou a minha fuga
da realidade, apressado
pelo aprofundar daquela ruga,
escavada na face amargurada,
vislumbrada numa janela
anónima neste autocarro,
lado a lado com a bela
recordação que com as mãos agarro
num movimento só possível
numa deturpada visão,
distorcida e insensível -
porque desprezas a compaixão?

Esta inconveniente trepidação,
este calor sufocante,
acompanha a rítmica palpitação
que rosna dentro dum arrogante
peito arruinado pelo ar viciado -
o dormente caminho vai-se fazendo,
sobre os metros do alcatrão desgastado
que atapeta os carreiros sinuosos
que percorro, furiosamente roendo
as entranhas com ódios tortuosos.

Rostos desconhecidos,
sinais de vidas distantes,
palavras de livros amarelecidos,
rastos de misérias gritantes...
São tudo o que vejo
nestes bancos mal almofadados,
merecedores apenas dum esgar
que materializa o desejo
de os ver vazios, abandonados,
dos ver cheios dum punhado de ar
(tórax rasgado na 201,
boca a salivar por um copo de rum).

A cabeça (demasiado pesada)
pende contra o plástico duro,
a moldura da paisagem amaldiçoada
por imponentes árvores de betão,
memoriais do local escuro
p'ra onde os meus passos me trarão
mesmo que tudo o resto se dissipe
na total e completa obnubilação
de reduzir tudo a um ficheiro zip
ou a uma página caída no chão,
coberta por milhares de rascunhos
de um projecto, duma quimera,
o sonho pelo qual a minha alma espera,
encostada, numa pose descontraída,
a arcaicos postes de iluminação -
mas há muito que chegou à conclusão
de que, muito provavelmente,
o estoicismo de ter paciência
será silenciado pelas buzinas estridentes,
cego pelas luzes que piscam intermitentes
a indicar a próxima paragem,
com a qual este devaneio
(não mais do que um instinto selvagem)
morre... Até porque creio
que o mate esta suave aragem,
com um beijo na fronte ferida,
paliativo para a dor sofrida
neste percurso que resume uma vida.

sábado, 13 de março de 2010

O lado cinzento

É curioso, não é? A forma como o mundo parece chorar, como o céu parece cobrir-se de luto quando vislumbramos o negrume das nuvens que carregam o horizonte, um horizonte de desespero, de angústia. A amargura de um dia arrastado pelas lágrimas que escorrem vagarosamente, que escorregam como lentos e ininterruptos rios que sulcam a barba que começa a cobrir a pele levemente enrugada pela tristeza que parece inundar uma cara solitária na multidão, tal como a água que cai incessantemente parece inundar as cinzentas ruas de uma cidade que aparenta fechar-se sobre nós, sufocar-nos, apertar-nos os pulmões com as tenazes do fumo que teima em entrar em nós, quer queiramos, quer não...

É interessante, não é? O modo como tudo nos surge diante dos olhos como garantido, como algo que estará lá sempre, como algo que nunca terminará – e nós confiamos cegamente na imutabilidade do nosso pequeno mundo, tão minúsculo... A nossa ingenuidade torna-nos obtusos, não temos consciência do quão efémera é a nossa vida – a noção que temos da realidade acaba por não nos deixar compreender que hoje, amanhã, no próximo mês, podemos ser os próximos a partir, a embarcar numa ida sem volta, na mais longa viagem da nossa existência...

É triste, não é? O mundo chora, e nós, sem dar por nada, choramos com ele, encostamos a cabeça para descansar, cerramos os olhos e abandonamos – nem que seja por um instante – tudo o que o destino insiste em nos atirar... E como o mundo chora a nossa alma, negra como uma noite sem luar, inconformada com tudo o que a afunda cada vez mais num poço sem fundo... e com o mundo chora o nosso coração, acelerado pelo turbilhão de emoções que teima em nos rasgar o interior, em nos rasgar cada traço pessoal, em nos magoar cada centímetro do nosso corpo, em nos toldar o discernimento, em nos enlouquecer de dor...

É irritante, não é? A maneira como toda a raiva, toda a fúria acaba por se diluir no nosso insignificante mundo materialista, que julgamos girar somente em nosso redor e que exacerba constantemente o nosso desejo irreal de sermos egoístas, de pensarmos apenas em nós e nunca nos outros. O fim aproxima-se de nós, gradualmente, inevitavelmente – e nós caminhamos alegremente para ele, imersos em vidas rotineiras, monótonas, viciosas. Todos nós, de olhos fechados, com a mente preguiçosa e com os hábitos odiosos da nossa sociedade moderna entranhados em nós como o pó que se ergue do chão no dia mais quente do ano, caminhamos para o nosso final, o último capítulo, para o nosso The End particular, que é, e será sempre, ignorado pelo resto do mundo, demasiado concentrado nos seus próprios passos que o leva até ao seu desenlace.

Teoria do ser

A amargura da vida
é uma constante definida
pela recusa de ser feliz
cruelmente deduzida
do arrependimento do que não fiz.

És a soma dos quadrados
nos quais tropeço
até ver os joelhos ensanguentados
na teimosia, a roçar o excesso,
de desvendar os intrincados
labirintos do teu sorriso –
uma bela e misteriosa equação,
com a incógnita que em mim eternizo
na infindável procura da tua solução.

Os erros de outrora
escondem-se no vão
das escadas que subo agora
mergulhado na escuridão
de quem perdeu o rumo
algures na miserável solidão
desfocada pela nuvem de fumo
que me enegrece a visão.

E espero com paciência
por uma chama de esperança e lucidez
que lance luz sobre a triste ciência
de sobreviver a um dia de cada vez.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Abstracção de tudo

Tudo o que oiço em mim
é o bater do coração
num ritmo próximo do fim
anunciado pela negação.

Tudo o que sinto
é o sufoco do meu peito,
a dor sobre a qual minto
num sonho analgésico sem efeito.

Tudo o que vejo
é o teu olhar
contido num desejo
que nunca vou alcançar.

Tudo me faz lembrar de ti.
O mundo une-se p'ra me prender
numa cela da qual já fugi
mas que não consigo esquecer.

Em todos os rostos te procuro
numa vã busca por conforto
enquanto nas minhas mãos seguro
o meu espírito morto.

Alvorada

Abandona-me à solidão
dos recantos do meu ser
enegrecidos pela negação do viver
que se espalha pelo chão
estendido diante dos passos
que dou na madrugada fria
sentado diante dos maços,
marcas da fuga duma alegria
perdida no eterno jogo
criado por ti para me queimar
nas chamas dum fogo
que me impede de escapar
ao emaranhado emocional
da complexidade do nada
em que imagino o surreal
desta história já dilacerada.

Mas apareço perante ti,
na doçura do sofrimento
partilhado com o mundo que ri,
enquanto me sento
vergado pelo teu olhar
que me deixa a alma nua,
que me tira todo o ar,
que me confronta com a crua
dor da gélida realidade,
encarada com a louca euforia
de pensar poder inventar
a minha própria verdade -
de poder apagar
a triste memória
dos erros duma inconsciente idade.

"Soneto" da Frustração

Desce daí e deixa-te ficar
na eufemística subtileza
de não saber como rasgar
a folha da tua tristeza.

Entrelaça-me no teu encanto.
Prende-me nas teias do teu carinho,
nas lágrimas do teu pranto
que lavam as ruas em que caminho.

Enquanto me sinto a cair
na miséria da existência,
sem local para onde ir...

Para esconder a indecência
de me dignar a sorrir
da própria inconsciência.

[Uma loucura de quem não quer saber
dos erros que cometeu e volta a cometer]

Suspiro outonal

Vim do nada
e o nada veio de mim
liberto na madrugada
em que no nada me perdi.

E tudo vi
no todo que é o mundo
de erros sem fim
em que me afundo.

Assim me rio,
desprezando a suposição
dum final cor-de-rosa,
imerso no frio
da procura em vão
pela tua boca ansiosa.

"Soneto" da Memória

Deixo a louca visão divagar
nas asas duma lenta nuvem,
dum vagar de quem não tem
ninguém para a governar.

Olho e não vejo
a linha do horizonte que se esfuma
no caos ordenado de mais uma
manhã que me sufoca de desejo.

E sinto erguer-se no ar
o fantasma cinzento morto
da memória que me vem atormentar.

E recebo-o com um sorriso torto,
reflexo da ousadia de desprezar
cego pela imaginação em que fico absorto.

sábado, 6 de março de 2010

Crise existencial documentada #2 (ou "Cartas da Travessa da Água da Flor")

As nuvens choram a uma só voz
unidas numa só doença atroz.
Mas não me importo realmente
com as gotas que o meu rosto sente.
A estação fria e soturna
é o primeiro ponto de paragem
duma busca baseada numa miragem
e logicamente terminada na urna
selada pelo teu doce desprezo...
(humidade no ar, gelo no nariz)
Tenho um fogo que tem de ser aceso
p'ra apagar a lembrança do que não fiz.

Portas decrépitas e envelhecidas
sorriem-me enquanto os meus passos,
autónomos na ânsia de sarar as feridas,
guiam-me na missão de gastar os escassos
trocos que sobrevivem na carteira...
Não por muito tempo, obviamente,
chama-os uma dança com o balcão de madeira
onde se transfiguram numa corrente
de pequenos incêndios líquidos :
anestésicos de qualquer resquício de vontade
que me deixam a pairar sobre os sonhos lidos
na melodia duma casa de saudade.

Finalmente já tropeço nas pedras da calçada -
quando já só penso no agora,
quando estupidez é sinónimo de risada -
e continuo a subir, a subir
até chegar às portas do inferno,
um clandestino sem necessidade de fugir
da sombra dum permanente Inverno
cobrindo todos os recantos duma alma
que clama por mais uma dose de gin
p'ra alimentar o alheamento que acalma
o medo da previsibilidade do fim.

Porque está tudo desfocado?
Tenho algumas vagas ideias,
talvez pense nelas daqui a bocado
quando não tiver tanto álcool nas veias...
"A sério? Ouves música indie?
Então de quem é esta canção?"
No nada vejo uma boca que ri,
quem sabe uma simples alucinação
numa reles tentativa de aproximação.
Estranho... mas normal...
(peito preenchido pelo ego aumentado)
Entro em mais um jogo banal
antes que não passe dum devaneio molhado
pela chuva que persiste em cair
como uma música lounge duvidosa
que ainda assim marca o compasso
dum pas-de-deux em que o par já goza
o travo característico da antecipação.
O olhar foge-me para as meias de ligas,
com um fogo desprovido de paixão,
cujos rasgos sensuais e provocantes
denunciam as quedas inevitavelmente amigas
das cervejas que engoliu em golos ofegantes.
A culpa perdeu-se há algumas ruas atrás,
ficou num beco sem nome, nojento,
por isso recosto-me à parede,
sentado no passeio onde jaz
toda a complexidade do pensamento
corporizado no cadáver da minha sede.
Condeno a minha noite à morte
e sinto no meu sangue o fumo
que me deixa sem noção do norte,
que me retira dum indefinido rumo,
que me afunda num delírio soft-porn
no qual somente o corpo raciocina,
desejando que não ceda e me torne
um fantasma que para si vaticina
um terno encosto na inconsciência...
Não é preciso grande ciência,
só deixar-me levar
e continuar a respirar,
sorver o viciado ar
através da boca entorpecida
à qual dedico a raiva traída
que é o meu suporte de vida.
E esqueço, esqueço, esqueço
já nada interessa... Adormeço
neste sono acordado
de quem não quer ser curado.

São seis e meia da manhã,
o sol rompe timidamente o nevoeiro
caminho com uma tosse nada sã
que me verga o corpo inteiro.
Ah, tudo o que ontem fazia sentido
a luz da ressaca torna pervertido...
A noite passada é um mero borrão
(cabeça baixa, olhos no chão)
subtilmente definido pela lucidez
cuja memória está colada
à roupa que tresanda
ao cheiro da sua nudez
sóbria e brutal, envergonhada
pelo que esta loucura que anda
de mão dada com a embriaguez
nos levou a fazer...
Mas já estou na estação,
ainda com aquela leveza
de quem afogou o coração
em águas opacas de tristeza...

Repara no quão deprimente
é este destino inconsequente
fomentado por um terror
que mais ninguém sente...
Peço a esta carruagem refulgente
(espera um pouco, o metro, já?)
que leve com ela a incomportável dor -
quiçá o amanhã será melhor, quiçá...