Deixei de me reger pelas horas
e sim por intervalos de 3 minutos,
um tempo sem espaço para demoras
nem para tédios torpes e irresolutos.
Habito um inebriado e adimensional alheamento,
sintomática impreterível da privação de sono,
na qual a cafeína e a lógica são o sustento
duma luta perdida, sem esperança nem abono.Tenho os olhos irritados
pelas baforadas incessantes que solto
em vagas de fervores revigorados
pela inquietude dum revolto
assobio longo e estridente,
sinal sonoro do inconfundível
fecho das cortinas para quem mente
para camuflar o profundo desnível
escavado até ao dobrar do vazio
de observar o mundo e não o ver,
não querer ver, gastar a força no cio
de não ver apenas para sentir o prazer
de quem já descurou racionalizações,
de quem abdicou do seu direito de ser...
Adivinho no meu corpo os vergões
que sei provocados pelos sorrisos insinuantes
com os quais me capturas a reles e vil
inspiração, espicaçada pelos infinitos levantes
condensados na tua candidez frágil,
bela e frágil - nota as dores excruciantes
que impregnas no âmago emocional
de quem sempre renegou o romantismo
a favor da metálica frieza cerebral
de se guiar pelos protocolos do voyeurismo.
Estou na noite que se segue ao dia,
na demência dum conto de vinho,
sentindo na tua dor o que de mim faria
um monstro indomável, sozinho
na manhã que começa a aquecer,
ávido por mais uma chávena de café,
que lhe peja as artérias insones de querer,
ensopado num suor salgado e sem fé,
melancólico no seu delírio maniqueísta,
levando-o a chorar a tua graça aflitiva
nas linhas duma imaginada lista
dos versos que te dedicava
se tivesse ainda a argúcia viva,
encerrada num elevador que já não trava.
Vem aí o amanhecer, ansioso por iluminar a ruína
do desenho traçado em tons de ternura e carícias
numa simples tela que o preto agora domina,
na sofreguidão que devora efémeras delícias -
tento resolver as intrincadas subtracções e somas
inerentes ao simples facto de estares aqui,
névoa dum sonho acordado, coberto com redomas
de vidro, estilhaçadas sobre o sofá onde caí,
o corpo coberto de hematomas,
agredido pelas pedras de granizo
que escorregaram do gelo do teu coração,
mascarado pelos ténues sorrisos
a que retribuo em vão...
Para onde vais?
Que caminho é o teu?
A remar por inominados canais
em busca do que ninguém te deu -
suponho que nunca na tua fugaz vida
presenciaste um tal estado disfórico,
reflectido no sorriso onde concentras a desmedida
ironia de observar o esforço alegórico
de alguém a desvendar a alma corroída...
Percorro no reflexo do teu rosto os caminhos
traçados pelas rugas do fim do conto de fadas
duma história que é rosa cheia de espinhos,
dum olhar que é casa com janelas fechadas.
E sobre o futuro perante mim cai a escuridão
como um indesejado e perpétuo anoitecer
dum negro que ilumina a crua constatação
de que a inocência é sonho impossível de rever
Larga-me, solta-me a mão! Quero cair...
Prefiro ficar aqui a não saber para onde ir,
a não saber onde ficou o que já não tenho,
ficar aqui, na sombra para onde venho
quando quero ver o que perdi,
ficar aqui, onde com o espírito cego vi,
vi,
vi,
vi,
vi a alegria da desconstrução etérea
de quem já desconhece a infância,
embotada pela cinza duma bruma venérea
que ergueu sobre alicerces de arrogância.