domingo, 17 de abril de 2011

Folha Solta #6

A vida é uma puta, que nos sorri, que cola o seu corpo ao nosso, que nos beija enquanto nos rouba a carteira e desembainha o punhal para o enterrar nas nossas costas.

Tarde

Ofende-me esta tarde soalheira
cujo calor não me aquece por dentro,
mais uma entediante sexta-feira
a vaguear errante em círculos sem centro.
Permaneço à tua espera
aqui onde o rio beija o mar,
qual triste e encurralada fera
e ainda assim incapaz de virar
costas à rua que te traria
a levitar sobre um prado de sangue
incomodado constantemente pela raiva da maresia
que reduz a minha voz ao murmúrio exangue
de quem não tem arte nem engenho
para as acrobacias e malabarismos
que tu merecias... Contudo, venho,
por entre condescendentes paternalismos,
contar-te uma eloquente história
de morte e violência,
de como sou apenas a escória,
de como se destrói uma existência
atirada contras as rochas duma falésia,
tombada e espezinhada na espuma irascível,
oculta, por uma mera questão de conveniência,
pela branca escuridão da amnésia -
reviver o ontem não é já exequível.

Contos de arcaica glória,
recitados numa incomodativa ladainha,
violentados e enterrados na memória
que não é minha, que nunca foi minha,
que perdi quando me negaste
com o sorriso cínico que me endereças
o direito a deixar de ser um traste
e a poder colocar no seu lugar as peças
que me tornariam completo,
que desembaraçariam este estado fragmentado,
um caos interior insuportavelmente irrequieto,
um cancro na alma impossível de ser curado.

Só que olho para ti, para o rosto
que me persegue dia após dia,
que me deixa na boca o gosto
que imagino ser aquele que teria
um inimaginável toque aveludado -
vísceras esmagadas por uma mó,
corpo arruinado a perecer só.

E na lente por onde vejo o mundo,
raiam-se de negro as asas
que não me salvaram das brasas
iridiscentes do poço sem fundo
no qual um mar de pessimismo -
não há sal que não me atribule -
torna a dor um eufemismo
e o sorriso uma hipérbole.