Sonho de olhos entreabertos.
Sonho sonhos entretecidos com fios de saudade.
Têm mil cores que se unem numa só, o cinzento da neblina que me
afoga a visão quando cerro os olhos e viajo no limbo de fadiga e antecipação.
Expectante. Ansioso pela tarde soalheira que há-de vir, com raios de tinta para
escrever as folhas brancas que se materializam no sonho sonhado, pacientemente
à espera das palavras de luz que as irão preencher.
Estendo a mão para um nada. Tacteio a parede informe, disforme.
Deforma-se e reforma-se. Metamorfoseada. Em linhas que se desenrolam diante do
meu imaginário. Que sonha. Que sonha o teu rosto, as curvas que o definem, as
memórias que se reavivam a si mesmas, em impulsos de feedback positivo movidos
pelo vício de lembrar. Lembrar tudo e esquecer a racionalização que sustenta a
frieza metálica de levar ao cúmulo o esforço mecânico de caminhar impérvio aos
sentimentos que me tentaram abraçar.
Caminhar em frente, prosseguir um qualquer caminho pré-definido,
formatado pela impessoalidade que um dia residiu na porta ao lado mas que foi
despejada pelo senhorio. Em boa hora deixou de pagar a renda. Assim foi
possível mudar o rumo, virar para o horizonte e sentir o sol quente no rosto.
Os cruzamentos deixaram de o ser, as placas e tabuletas que se confundiam, que
me confundiam, deixaram de ter caracteres ilegíveis, termos incompreensíveis,
deram lugar à ternura que envolve o desejo de ser nada.
Todavia, chove. Os céus abriram-se num pranto infindável que já
não me alcança. E dos caminhos que se aclararam à luz forte de um sol moribundo
guardo apenas a recordação vaga. Recordação da estrada que sigo. Recordação que
agora se afigura diferente. As letras das placas, das tabuletas, voltaram a fundir-se numa amálgama que já não consigo descodificar. Os cruzamentos voltaram a surgir da névoa,
materializaram-se como castelos reerguidos dos alicerces em ruínas, vindos do
cinzento sujo que renasce das sombras etéreas. Tresandam a vício, a fumo.
Nauseabundas. Corrompidas. Ébrias formas nascidas duma natureza-morta, própria
de quem se dedicou a matar-se lentamente.
Não somos mais do que naturezas-mortas. Tomara eu ser uma. Sedar-me
na obnubilação de ser uma sombra sem objecto. Uma sombra formada a partir do
nada. Uma materialização de algo que não existe, em que me crio com a presunção
de não ser mais do que um produto objectivo e pragmático de mim próprio. O que
seremos todos senão sombras? Sombras do que fomos. Do que viremos a ser.
Sombras onde encontraremos escritas, em escondidas letras de prata incapazes de
mentir, as palavras que nos definem. Letras reveladas somente pelo brilho de
uma lua nova numa noite de tempestade. Letras reveladas apenas aos olhos de
quem as consegue aprender a ler. Letras que guardarão a verdade sobre a sombra e que
inevitavelmente serão lidas. Hoje, amanhã, numa década, em mil anos – ninguém o
saberá. Contudo, é certo que serão lidas, soletradas, aprendidas e reaprendidas. E essas
letras, de uma prata refulgente, poderão então brilhar cobertas pelas lágrimas
que agora caem e que se imiscuem na chuva que teima em se precipitar sobre o rosto, sobre a sombra. Pudera eu gritar todas as minhas letras. Sei-as de cor e
de coração. Fui eu que as cravei no meu peito, a cinzel. Fui eu que as senti a
gravarem-se em mim, a ressuscitarem-me de dentro para fora, com o sangue a
ferver e com o mundo a rir-se dos meus esforços inócuos para me revoltar contra
o caminho que me estava destinado. Virei à direita. Não vi sombras. Mas senti o veneno impregnar-se na atmosfera,
e o ar toldou-se.
Deixei de distinguir o que quer que seja, sem ser a sombra da minha própria sombra. Sinto-me turbulento num marasmo amordaçado. Deixei de saber o caminho. Ando às cegas, tacteio à minha frente com dedos ávidos e descarnados pelas frieiras do gelo que me atormenta. Tacteio a realidade inventada que se metamorfoseia a cada passo que dou. Perco-me, andei sempre perdido. Abro os olhos e vejo cinza. O calor do sol substituiu-se pelo calor do fogo da pira onde ardo. As labaredas lambem-me o corpo cansado e velho, tronco apodrecido que viu mais uma Primavera antes de tombar. Abro os olhos e vejo o nada. Abro os olhos uma e outra e outra vez, não me resgato à inquestionável doçura de me mergulhar num mar de sonho adimensional. Sonho com o dissipar da sombra, com as letras com que escreverei esse capítulo, finalmente as letras de prata que guardo religiosamente. O maior e único tesouro que ainda protejo. Para abrir os olhos e não ver senão sombra. A tua, a minha, a de todos.
Quem sabe se ela veio para finalmente ficar, para sufocar a esperança, a ternura, o olhar doce, as palavras escritas pelo coração. Ou se se rói por dentro, na sua alma enevoada, pelo receio de se ver dissipada pelo sol que se esconde envergonhado da miséria e mesquinhez humana. Quem sabe...
Sonho de olhos fechados.
Sonho sonhos entretecidos com fios de sombra.
Those who dream by day are
cognizant of many things which escape those who dream only by night. In
their gray visions they obtain glimpses of eternity...