domingo, 29 de setembro de 2013

Ensaio sobre a sombra

Sonho de olhos entreabertos.

Sonho sonhos entretecidos com fios de saudade.

Têm mil cores que se unem numa só, o cinzento da neblina que me afoga a visão quando cerro os olhos e viajo no limbo de fadiga e antecipação. Expectante. Ansioso pela tarde soalheira que há-de vir, com raios de tinta para escrever as folhas brancas que se materializam no sonho sonhado, pacientemente à espera das palavras de luz que as irão preencher.

Estendo a mão para um nada. Tacteio a parede informe, disforme. Deforma-se e reforma-se. Metamorfoseada. Em linhas que se desenrolam diante do meu imaginário. Que sonha. Que sonha o teu rosto, as curvas que o definem, as memórias que se reavivam a si mesmas, em impulsos de feedback positivo movidos pelo vício de lembrar. Lembrar tudo e esquecer a racionalização que sustenta a frieza metálica de levar ao cúmulo o esforço mecânico de caminhar impérvio aos sentimentos que me tentaram abraçar. 

Caminhar em frente, prosseguir um qualquer caminho pré-definido, formatado pela impessoalidade que um dia residiu na porta ao lado mas que foi despejada pelo senhorio. Em boa hora deixou de pagar a renda. Assim foi possível mudar o rumo, virar para o horizonte e sentir o sol quente no rosto. Os cruzamentos deixaram de o ser, as placas e tabuletas que se confundiam, que me confundiam, deixaram de ter caracteres ilegíveis, termos incompreensíveis, deram lugar à ternura que envolve o desejo de ser nada. 

Todavia, chove. Os céus abriram-se num pranto infindável que já não me alcança. E dos caminhos que se aclararam à luz forte de um sol moribundo guardo apenas a recordação vaga. Recordação da estrada que sigo. Recordação que agora se afigura diferente. As letras das placas, das tabuletas, voltaram a fundir-se numa amálgama que já não consigo descodificar. Os cruzamentos voltaram a surgir da névoa, materializaram-se como castelos reerguidos dos alicerces em ruínas, vindos do cinzento sujo que renasce das sombras etéreas. Tresandam a vício, a fumo. Nauseabundas. Corrompidas. Ébrias formas nascidas duma natureza-morta, própria de quem se dedicou a matar-se lentamente.

Não somos mais do que naturezas-mortas. Tomara eu ser uma. Sedar-me na obnubilação de ser uma sombra sem objecto. Uma sombra formada a partir do nada. Uma materialização de algo que não existe, em que me crio com a presunção de não ser mais do que um produto objectivo e pragmático de mim próprio. O que seremos todos senão sombras? Sombras do que fomos. Do que viremos a ser. Sombras onde encontraremos escritas, em escondidas letras de prata incapazes de mentir, as palavras que nos definem. Letras reveladas somente pelo brilho de uma lua nova numa noite de tempestade. Letras reveladas apenas aos olhos de quem as consegue aprender a ler. Letras que guardarão a verdade sobre a sombra e que inevitavelmente serão lidas. Hoje, amanhã, numa década, em mil anos – ninguém o saberá. Contudo, é certo que serão lidas, soletradas, aprendidas e reaprendidas. E essas letras, de uma prata refulgente, poderão então brilhar cobertas pelas lágrimas que agora caem e que se imiscuem na chuva que teima em se precipitar sobre o rosto, sobre a sombra. Pudera eu gritar todas as minhas letras. Sei-as de cor e de coração. Fui eu que as cravei no meu peito, a cinzel. Fui eu que as senti a gravarem-se em mim, a ressuscitarem-me de dentro para fora, com o sangue a ferver e com o mundo a rir-se dos meus esforços inócuos para me revoltar contra o caminho que me estava destinado. Virei à direita. Não vi sombras. Mas senti o veneno impregnar-se na atmosfera, e o ar toldou-se. 

Deixei de distinguir o que quer que seja, sem ser a sombra da minha própria sombra. Sinto-me turbulento num marasmo amordaçado. Deixei de saber o caminho. Ando às cegas, tacteio à minha frente com dedos ávidos e descarnados pelas frieiras do gelo que me atormenta. Tacteio a realidade inventada que se metamorfoseia a cada passo que dou. Perco-me, andei sempre perdido. Abro os olhos e vejo cinza. O calor do sol substituiu-se pelo calor do fogo da pira onde ardo. As labaredas lambem-me o corpo cansado e velho, tronco apodrecido que viu mais uma Primavera antes de tombar. Abro os olhos e vejo o nada. Abro os olhos uma e outra e outra vez, não me resgato à inquestionável doçura de me mergulhar num mar de sonho adimensional. Sonho com o dissipar da sombra, com as letras com que escreverei esse capítulo, finalmente as letras de prata que guardo religiosamente. O maior e único tesouro que ainda protejo. Para abrir os olhos e não ver senão sombra. A tua, a minha, a de todos. 

Quem sabe se ela veio para finalmente ficar, para sufocar a esperança, a ternura, o olhar doce, as palavras escritas pelo coração. Ou se se rói por dentro, na sua alma enevoada, pelo receio de se ver dissipada pelo sol que se esconde envergonhado da miséria e mesquinhez humana. Quem sabe... 

Sonho de olhos fechados.


Sonho sonhos entretecidos com fios de sombra.



Those who dream by day are cognizant of many things which escape those who dream only by night.  In their gray visions they obtain glimpses of eternity...


domingo, 15 de setembro de 2013

Ensaio sobre a escuridão

Era uma vez um morto. Que se havia esquecido de como o mundo podia ser bonito, pintado das cores que tingem o vibrar da vida pulsante à luz clara da manhã. Ele era escuridão, a escuridão que o engolia e a escuridão de que se rodeava para apagar as luzes que o ladeavam. O escuro, o negrume, o preto no qual morria e renascia. No qual se reinventava, no qual mudava. Somente para se deixar apagar novamente.

A penumbra do quarto deixa entrever a frescura putrefacta da decrepitude que abraça com gosto. É um cadáver datado, que há muito passou o prazo de validade. Que se refastela, nauseabundo, no ódio que lhe come as entranhas. Mesquinho. Asqueroso. O ridículo do que pronuncia a custo com a voz escanteada pela estupidez é apenas superado pela noção pérfida de se achar imortal, superior. Um morto imortal – chão e irónico pleonasmo que sublima a imbecilidade de ser senil sem ter idade para isso. Coração velho e pesado, razão púbere e egocêntrica.

Faltam-lhe as forças. E o sangue. Pudera – é um morto tombado na poça do próprio fel e bílis, que o roeu de dentro para fora até rebentar, implodir, deixando atrás de si um rasto de raiva vomitada, a raiva que guardou durante tanto e tanto tempo. Havia aprendido a custo a metodologia correcta para a esconder dos olhos do mundo. Mas a folha branca conheceu-a sempre, sempre. Única amiga. Sempre verdadeira na sua pureza, sem uma mentira a tingir-lhe de tinta a alvura original.

Aprendeu a sofrer. Finalmente, aprendeu a sofrer. Toda a culpa, todas as falhas, todos os momentos em que tomou decisões egoístas, todas as alegrias que apagou com a escuridão que o rodeava abatem-se sobre ele como uma chuva torrencial que lhe lava o esqueleto carcomido. Rebrilham sob a luz duma lâmpada fundida. As lágrimas tomam de assalto as órbitas encovadas, escavadas no crânio coberto das rugas que espelham os recalcamentos revelados agora que a máscara caiu. Agora que os muros que laboriosamente ergueu à sua volta foram reduzidos a pó. As cortinas estavam corridas, as janelas fechadas à chave. Abriram-se. Um vento leste entrou e destruiu tudo.

Abandonou-se a um erro que já tinha visto ser cometido. Demasiado perto, demasiadas vezes. Troçado em cada passo que deu quando se descuidou e se permitiu a si próprio sonhar, imaginar, acariciar com dedos hesitantes uma esperança que construiu sem querer. Não pensou. Por isso, agora é alvo de chacota, de riso, comentários dissimulados, olhares de comiseração. Ele não a merece. Ele é culpado. Um morto morreu. Não pode voltar a nascer. Não lhe é permitido. Se o fizer, a efemeridade dessa lascívia, dessa corrupção da ordem natural das coisas, é brutal e crua. Os vivos não o deixam esquecer.

O morto deita-se. Cansado. Vexado. Quis ser feliz, mas esqueceu-se de que não é já a sua hora. Regressou à escuridão, ao seu lar. Ele quer ter esperança. É a última a morrer. Todavia, o Inverno aproxima-se e a tampa do caixão fecha-se atrás de si. O breu absoluto, onde não chega um único fotão de luz. Suga tudo, sentimentos, sensações. Anestesiado. Embotado. Não sente os membros, não sente o corpo, não sente o coração, não sente nada. Sente apenas as fotografias, as memórias, as recordações, que encerra na mão descarnada junto à caixa torácica. Dum tempo em que o morto julgou viver. Agora, talvez lhe reste só isso para o alumiar na noite de desespero em que se perde, demasiado sufocado pelo desgosto para conseguir respirar. À espera do dia em que sinta novamente o calor da luz, algo que se atreveu a procurar. Aguarda deitado, de voz embargada, racionalizando numa lógica ad eternum que só para ele é infalível. Quiçá o destino lhe traga esse dia.