domingo, 15 de setembro de 2013

Ensaio sobre a escuridão

Era uma vez um morto. Que se havia esquecido de como o mundo podia ser bonito, pintado das cores que tingem o vibrar da vida pulsante à luz clara da manhã. Ele era escuridão, a escuridão que o engolia e a escuridão de que se rodeava para apagar as luzes que o ladeavam. O escuro, o negrume, o preto no qual morria e renascia. No qual se reinventava, no qual mudava. Somente para se deixar apagar novamente.

A penumbra do quarto deixa entrever a frescura putrefacta da decrepitude que abraça com gosto. É um cadáver datado, que há muito passou o prazo de validade. Que se refastela, nauseabundo, no ódio que lhe come as entranhas. Mesquinho. Asqueroso. O ridículo do que pronuncia a custo com a voz escanteada pela estupidez é apenas superado pela noção pérfida de se achar imortal, superior. Um morto imortal – chão e irónico pleonasmo que sublima a imbecilidade de ser senil sem ter idade para isso. Coração velho e pesado, razão púbere e egocêntrica.

Faltam-lhe as forças. E o sangue. Pudera – é um morto tombado na poça do próprio fel e bílis, que o roeu de dentro para fora até rebentar, implodir, deixando atrás de si um rasto de raiva vomitada, a raiva que guardou durante tanto e tanto tempo. Havia aprendido a custo a metodologia correcta para a esconder dos olhos do mundo. Mas a folha branca conheceu-a sempre, sempre. Única amiga. Sempre verdadeira na sua pureza, sem uma mentira a tingir-lhe de tinta a alvura original.

Aprendeu a sofrer. Finalmente, aprendeu a sofrer. Toda a culpa, todas as falhas, todos os momentos em que tomou decisões egoístas, todas as alegrias que apagou com a escuridão que o rodeava abatem-se sobre ele como uma chuva torrencial que lhe lava o esqueleto carcomido. Rebrilham sob a luz duma lâmpada fundida. As lágrimas tomam de assalto as órbitas encovadas, escavadas no crânio coberto das rugas que espelham os recalcamentos revelados agora que a máscara caiu. Agora que os muros que laboriosamente ergueu à sua volta foram reduzidos a pó. As cortinas estavam corridas, as janelas fechadas à chave. Abriram-se. Um vento leste entrou e destruiu tudo.

Abandonou-se a um erro que já tinha visto ser cometido. Demasiado perto, demasiadas vezes. Troçado em cada passo que deu quando se descuidou e se permitiu a si próprio sonhar, imaginar, acariciar com dedos hesitantes uma esperança que construiu sem querer. Não pensou. Por isso, agora é alvo de chacota, de riso, comentários dissimulados, olhares de comiseração. Ele não a merece. Ele é culpado. Um morto morreu. Não pode voltar a nascer. Não lhe é permitido. Se o fizer, a efemeridade dessa lascívia, dessa corrupção da ordem natural das coisas, é brutal e crua. Os vivos não o deixam esquecer.

O morto deita-se. Cansado. Vexado. Quis ser feliz, mas esqueceu-se de que não é já a sua hora. Regressou à escuridão, ao seu lar. Ele quer ter esperança. É a última a morrer. Todavia, o Inverno aproxima-se e a tampa do caixão fecha-se atrás de si. O breu absoluto, onde não chega um único fotão de luz. Suga tudo, sentimentos, sensações. Anestesiado. Embotado. Não sente os membros, não sente o corpo, não sente o coração, não sente nada. Sente apenas as fotografias, as memórias, as recordações, que encerra na mão descarnada junto à caixa torácica. Dum tempo em que o morto julgou viver. Agora, talvez lhe reste só isso para o alumiar na noite de desespero em que se perde, demasiado sufocado pelo desgosto para conseguir respirar. À espera do dia em que sinta novamente o calor da luz, algo que se atreveu a procurar. Aguarda deitado, de voz embargada, racionalizando numa lógica ad eternum que só para ele é infalível. Quiçá o destino lhe traga esse dia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário