Era uma vez um morto. Que se
havia esquecido de como o mundo podia ser bonito, pintado das cores que tingem
o vibrar da vida pulsante à luz clara da manhã. Ele era escuridão, a escuridão
que o engolia e a escuridão de que se rodeava para apagar as luzes que o
ladeavam. O escuro, o negrume, o preto no qual morria e renascia. No qual se
reinventava, no qual mudava. Somente para se deixar apagar novamente.
A penumbra do quarto deixa
entrever a frescura putrefacta da decrepitude que abraça com gosto. É um
cadáver datado, que há muito passou o prazo de validade. Que se refastela,
nauseabundo, no ódio que lhe come as entranhas. Mesquinho. Asqueroso. O
ridículo do que pronuncia a custo com a voz escanteada pela estupidez é apenas
superado pela noção pérfida de se achar imortal, superior. Um morto imortal –
chão e irónico pleonasmo que sublima a imbecilidade de ser senil sem ter idade
para isso. Coração velho e pesado, razão púbere e egocêntrica.
Faltam-lhe as forças. E o sangue.
Pudera – é um morto tombado na poça do próprio fel e bílis, que o roeu de
dentro para fora até rebentar, implodir, deixando atrás de si um rasto de raiva
vomitada, a raiva que guardou durante tanto e tanto tempo. Havia aprendido a
custo a metodologia correcta para a esconder dos olhos do mundo. Mas a folha
branca conheceu-a sempre, sempre. Única amiga. Sempre verdadeira na sua pureza,
sem uma mentira a tingir-lhe de tinta a alvura original.
Aprendeu a sofrer. Finalmente,
aprendeu a sofrer. Toda a culpa, todas as falhas, todos os momentos em que
tomou decisões egoístas, todas as alegrias que apagou com a escuridão que o
rodeava abatem-se sobre ele como uma chuva torrencial que lhe lava o esqueleto
carcomido. Rebrilham sob a luz duma lâmpada fundida. As lágrimas tomam de
assalto as órbitas encovadas, escavadas no crânio coberto das rugas que
espelham os recalcamentos revelados agora que a máscara caiu. Agora que os
muros que laboriosamente ergueu à sua volta foram reduzidos a pó. As cortinas
estavam corridas, as janelas fechadas à chave. Abriram-se. Um vento leste
entrou e destruiu tudo.
Abandonou-se a um erro que já
tinha visto ser cometido. Demasiado perto, demasiadas vezes. Troçado em cada
passo que deu quando se descuidou e se permitiu a si próprio sonhar, imaginar,
acariciar com dedos hesitantes uma esperança que construiu sem querer. Não
pensou. Por isso, agora é alvo de chacota, de riso, comentários dissimulados,
olhares de comiseração. Ele não a merece. Ele é culpado. Um morto morreu. Não
pode voltar a nascer. Não lhe é permitido. Se o fizer, a efemeridade dessa
lascívia, dessa corrupção da ordem natural das coisas, é brutal e crua. Os
vivos não o deixam esquecer.
O morto deita-se. Cansado.
Vexado. Quis ser feliz, mas esqueceu-se de que não é já a sua hora. Regressou à
escuridão, ao seu lar. Ele quer ter esperança. É a última a morrer. Todavia, o
Inverno aproxima-se e a tampa do caixão fecha-se atrás
de si. O breu absoluto, onde não chega um único fotão de luz. Suga tudo,
sentimentos, sensações. Anestesiado. Embotado. Não sente os membros, não sente
o corpo, não sente o coração, não sente nada. Sente apenas as fotografias, as
memórias, as recordações, que encerra na mão descarnada junto à caixa torácica.
Dum tempo em que o morto julgou viver. Agora, talvez lhe reste só isso para o
alumiar na noite de desespero em que se perde, demasiado sufocado pelo desgosto
para conseguir respirar. À espera do dia em que sinta novamente o calor da luz,
algo que se atreveu a procurar. Aguarda deitado, de voz embargada, racionalizando
numa lógica ad eternum que só para ele
é infalível. Quiçá o destino lhe traga esse dia.
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