sábado, 30 de novembro de 2013

Folha Solta #10

O sonho é uma droga potente - embala-nos na obnubilação crente, embota-nos docemente os sentidos, prende-nos num abraço reconfortante ao qual deixamos de saber fugir. A realidade é o antídoto que nos acorda violentamente.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Ensaio sobre a vida

A noite beija o dia numa explosão de sensualidade, apenas possível graças ao véu molhado que cobre a indefinição em que ambos se abraçam. O mundo está parado, num momento raro de contemplação. Parado numa profunda inspiração antes dum inevitável mergulho, que se antevê desesperado e sem retorno.

Permitam-me a veleidade de pousar o olhar numa figura indistinta ao longe... Aproximemo-nos, pé ante pé, desta sombra prostrada pelo cansaço da realidade, num esforço retórico para se manter acordado. O céu veste-se num tom de cinzento carregado, inusitada escolha para um dia perdido nos meados de Novembro, altura curiosa, dado que nunca se percebe muito bem em que ritmo louco anda o tempo. Nunca se percebe muito bem se hoje é hoje ou se já é amanhã. Nunca se percebe muito bem qual o dia da semana em que estamos - mas também, para quê? Não somos escravos das datas, das horas, dos minutos, durante os longos meses de exílio, enclausurados, oprimidos pelas obrigações que nos extraem quaisquer réstias de inspiração, nos chupam até ao tutano com a raiva de nos submeter à sua vontade? Afinal o que somos para lá daquilo que fazemos? Ao fim ao cabo, só podemos conhecer alguém através das suas acções, no sentido lato da palavra - o que diz, o que faz, o que escreve... Só a partir daí podemos deduzir o que alguém pensa, o que sente, o que sufoca dentro de si.

Daí que dedique a minha atenção a este ser, isolado na varanda do seu desassossego, algures numa outra dimensão ou então apenas num recanto qualquer do nosso pequeno vasto mundo. Num óbvio sinal de delírio, ou simplesmente de egocentrismo, vou arrogantemente mascarar-me de omnisciente e tentar desvendar o que ele (pois é dum ele que se trata) resguarda dentro de si do vento frio e cortante que agora se levanta e do sono que se apodera dele, paulatinamente, obedecendo ao compasso das gotas de água que, numa cadência repetitiva, o embalam num entorpecimento assaz estranho e agradável.

Ele é um vulto dum passado recente, ele é alguém que se perde nos pensamentos que o afundam num pânico sem precedentes. Ele é um pobre desgarrado, ele é alguém que se deixa confundir pelos labirínticos pântanos onde é obrigado a tentar encontrar um caminho, um trilho para a promessa que se esconde na bruma que domina o seu horizonte. O que é ele? O que está aqui a fazer? Nem ele sabe. Duvido que alguém saiba.

Olho pelos olhos dele, partilho a sua visão deturpada pelo progressivo cerrar das pálpebras. Vejo as gotas de água num equilíbrio de ballet sobre as folhas dum limoeiro, retorcido pelas intempéries, desfigurado pelos nós da madeira velha e ainda assim resistente. Vejo um regato a precipitar-se, numa pressa eterna, por entre os seixos que os anos tornaram lisos e polidos, obras de joalharia engendradas pelo líquido cristalino que com ele traz um rumor da pureza das nascentes que brotam dum seio de granito. Vejo montes imponentes, sob um capuz de anciãs árvores numa paz inquebrável, enquanto farrapos de névoa tacteante se retiram para o refúgio da atmosfera. Vejo o balir das ovelhas que pastam, inocentes e desdenhosas do universo de carros, máquinas, fumo - só os tufos de erva viçosa e tenra lhes interessam, descobertos por entre as colunas de pedra que sustentam vinhas plantadas pelos avós dos avós dos donos, colunas que se erguem como memoriais da simbiose entre a Natureza e o Homem. Vejo uma rara alegria, uma alegria que aquece uma alma enregelada pelos cuidados, pelas preocupações, pelo cansaço de não viver, uma alegria que não via há muito tempo, há demasiado tempo. Vejo a cristalina e quase infantil alegria de sarar a fadiga com duas inspirações profundas dum ar com um indelével sabor a pinheiros e eucaliptos, de lavar os olhos com um instante de uma natural sublimação, de uma verdura extasiante, de um orgasmo contemplativo.

Vejo o sorriso que nasce nos teus olhos. Vejo a esperança, no coração dele, de poder ver, um dia, esse sorriso ser enriquecido pelo doce curvar dos teus lábios. Vejo o anelo que sente, mitigado num refúgio que sabe que terá de terminar - não há curas definitivas, apenas um adiar do inadiável.



"What is this life if, full of care,
we have no time to stand and stare?"



Uma vida assim não é nada, é um vazio, um vácuo que nos engole e nos expurga de todo o desejo de felicidade. A vida seria roubada da sua riqueza se não tivéssemos o tempo para olhar para o mundo em nosso redor, para as maravilhas que temos a sorte de poder apreciar. Contudo, qual o sentido de viver uma vida pobre, se apenas temos direito a uma? Uma vida pobre é um eufemismo, é o mesmo que não ter nenhuma...

domingo, 17 de novembro de 2013

A Flor

Era uma flor triste e seca. Triste pelo abandono a que tinha sido votada pelas suas irmãs. Seca pelo estio do ar gélido e cortante duma tarde vazia, perdida nos meandros dum Outono esquecido, um ano qualquer, um século não classificado, uma terra inominada. Triste e seca pela teimosia de se agarrar ao seu palmo de terra, saturada pelas primeiras chuvas, pela teimosia em ser a última memória duma Primavera que há muito se havia despedido.

O sol tímido ascendia sobre uma manhã fria. Mais uma manhã que fazia jus à promessa de nela guardar o sopro do Inverno que se aproximava com passos certos. Certos da sua inevitabilidade. Certos de que neles guardam o gelo que vem paralisar os movimentos, o coração, a alma.

A flor chorava. Talvez fosse só orvalho da noite que beijava as suas pétalas. Talvez fossem as lágrimas de solidão que se instalara nela. Só. Só num prado de caules secos e tombados. Uma flor duma brancura virgem. Pureza. Intocada e intocável. Para além de tudo, de toda a mágoa, de toda a dor, apenas bela na sua solidão. Um raio de luz alva num descampado castanho da terra revolvida pelas bátegas de chuva que teimosamente se precipitaram em longos dias de escuridão.

Fossem o que fossem aquelas gotas de água, gelavam agora, formando uma fina camada de geada que se ia petrificando nas pétalas da flor. Tinha frio. Tentava aproveitar a brisa para afastar aquele gelo que dela se apoderava, todavia pouco podia fazer. Não tinha força, não tinha apoio. Todas as suas irmãs haviam fenecido, expurgadas da sua vitalidade pelo tempo inclemente. Ela agarrava-se, persistia, lutava. Não sabia até quando.

Estava ela perdida num pranto imaginado de auto-comiseração quando reparou nuns arbustos que se revolviam à sua frente, nos limites do descampado. Deles surgiu repentinamente um gaio, a abanar as asas para se libertar da água fria. Cambaleava de um lado para o outro, num passo tremido. A flor olhou insistentemente para ele, como que a chamá-lo. Finalmente, companhia, alguém com quem pudesse falar.

“Bom dia. Como te chamas?”

O gaio olhou confuso em volta, pois cria estar só no meio daquele descampado assolado pelo tempo. Percebeu quem o chamava com alguma surpresa, e começou a saltitar, incerto e ziguezagueante, na direcção da flor.

“Bom dia. O que faz uma flor tão bonita ainda por aqui?”

“As minhas irmãs partiram todas – para longe daqui ou para o seu descanso. Eu sou a última de nós, não sei para onde ir nem como ir”

“Está frio, demasiado frio para uma flor como tu. Não pertences aqui, devias partir”

A flor olhou para o gaio, esbaforido e com um ar apressado, e pensou no que ele havia dito. Estaria na hora de partir? Mas ela era nova, não conhecia outra paisagem que não a daquele descampado, onde brotara daquele chão que agora mal reconhecia. Não seria já o chão dela?

“Como é que o poderei fazer, querido gaio? Isto é, partir?"

O gaio abriu as asas, e a flor percebeu que uma delas estava magoada. Olhou com maior atenção para ele e percebeu que também tinha sangue na pata direita.

“Também eu estou a partir, para longe daqui e deste tempo. Estás só, nada está guardado para ti neste sítio apertado e pequeno. Está demasiado frio para uma flor como tu. Estás demasiado só e fechada neste sítio. Voa.”

“Mas eu não sei voar…”

“Claro que sabes. Deixa-te levar pelo vento, vogar nas asas que se adivinham nas tuas folhas. Livre de te elevares e de deixares que a tua sorte te conduza até ao horizonte. E para lá dele, para um lugar melhor. Anda, eu ajudo-te”

Enquanto falava, o gaio aproximou-se da flor com um olhar de comiseração e compaixão por aquela frágil e delicada flor que se via assim desorientada no mundo e, com cuidado, começou a arrancá-la da terra húmida com o bico. Num só movimento ascendente, a flor sentiu-se solta, leve, com a geada a derreter-se sobre as suas pétalas e derramar-se sobre o chão. Eleva-se no ar numa dança rodopiante, num riso melodioso, numa canção de cor e alegria numa manhã ominosa. Murmura um “Obrigado…” que o gaio, a afastar-se da visão da flor, adivinha no rumorejar das pétalas embaladas pelo vento.


Ela voa. Liberdade. Mudança. Sente-se o grito preso no caule, nas folhas, no coração a libertar-se finalmente, a ecoar pelos vales que agora sobrevoa. Um mundo inteiro a desfilar diante dos seus olhos. Florestas, cidades, rios, mares, mil e mais mil outras flores, presas ao chão. Ao mesmo chão que a prendia até há bem pouco tempo. Ela parte para uma nova vida, para um novo dia, para um novo tudo. Desígnio subtil e inovador para quem não sabia voar. O horizonte desenrola-se diante da flor. Do que ele esconde, nada sabe a flor. Contudo, sabe o que ele não esconde. Um novo descampado, pois esse ficou agora para trás, nas brumas do passado que rapidamente se desvanece na excitação do ser, na loucura eufórica que brota da alma da flor. Preenchida pela vontade ressuscitada, pela força de se ver autónoma, nas asas dum vento que a protege até ao momento em que irá aterrar num local onde o sol voltará a brilhar resplandescente. Onde o coração sentirá de novo o calor duma manhã de esperança. Onde a flor não estará só. A solidão dará lugar a um novo lar, no qual poderá voltar a florescer, a crescer, a cumprir a promessa de esplendor e beleza que a agora pequena flor nela encerra. A solidão não é imutável. O mundo guarda nele o futuro da flor. Ela sabe-o e guarda-lhe um sorriso, o mesmo que se começa a desenhar enquanto viaja na atmosfera cristalina, limpa pela água chorada pelas nuvens que se acotovelam atrás de si. O mundo guarda nele um novo mundo para a flor. Basta-lhe alcançá-lo e conquistá-lo. Com a memória das lágrimas encerrada nas suas pétalas.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

...

Este mar
que se afunda nele mesmo
sem uma palavra
sem um sopro de ar
olhas para o nada e vês-mo
escrito na dor que em mim lavra
nos acordes da guitarra
na raiva da bateria
barco sem amarra
a vogar na histeria
de menear sonhos mil
neste mar
revolto e turbulento,
deserto seco e pueril,
não o sei já navegar
perdi-me no tormento
deste mar
onde olho para o infinito,
para o horizonte a fugir,
para a jazida de granito
na qual a água vai cair.

Este mar

Sem uma palavra.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Febre

No Minho o mar é diferente.
Para além do nada, oiço.
Oiço os queixumes das gaivotas desterradas.
Oiço-me a mim a gritar-lhes de volta. Oiço.
Acima de tudo, oiço. Perdido na dor
de ver o sol a precipitar-se no horizonte
numa catástrofe pronunciada de laranja e vermelho.
Vermelho. Da cor do sangue que me corrói.
Decomposto coração, a este mar não volta,
partiu à vela para infinitos fins
que se consomem a si mesmos,
em si mesmos...
Como o sorriso que um dia me distorceu a face.
Oiço. Ouve. O rumorejar das ondas,
o pranto cantado da brisa salgada
pelas lágrimas que secaram no rosto
que se havia esquecido de sorrir.

Parto. Para longe de mim.
Para longe do nada.
Há um oceano entre o que sinto
e o que vejo espelhado nos olhos.
Ouve. Oiço. O último grito
da gaivota desesperada pelo porto
que lhe serviria de abrigo
para repousar...
Oiço a liberdade.
Um bater de asas.
Oiço-me. Ouve-te. Trespassados pelo ocaso
da promessa de não pensar em nada.
Oprimidos pelo nós. Pelo Eu.
As ondas do mar não mentem, nem o sabem fazer,
ouve-me agora, na imortalização do instante
onde demos as mãos
e elas aprenderam-se uma à outra,
onde nos olhámos
e nos descobrimos um ao outro.

Cru. Reles. Vil. Chão.
A parca lírica murmurada
que sai escorreita no papel
não faz jus ao sonho
partilhado no segredo dum vão de escada,
no calor dos lençóis amarrotados.
É a única que se derrama
da ponta da febril caneta
cujo som corta o anoitecer. Oiço.
Nunca estive tão ciente do escutar
como quando sinto os passo do destino
a aproximarem-se. Ouve. O que traz ele
ninguém sabe. Sorri-lhe. Não faz mal sorrir
um ensaiado sorriso nas nuvens
caiadas pela tua graça
imbuída na minha desgraça.

domingo, 29 de setembro de 2013

Ensaio sobre a sombra

Sonho de olhos entreabertos.

Sonho sonhos entretecidos com fios de saudade.

Têm mil cores que se unem numa só, o cinzento da neblina que me afoga a visão quando cerro os olhos e viajo no limbo de fadiga e antecipação. Expectante. Ansioso pela tarde soalheira que há-de vir, com raios de tinta para escrever as folhas brancas que se materializam no sonho sonhado, pacientemente à espera das palavras de luz que as irão preencher.

Estendo a mão para um nada. Tacteio a parede informe, disforme. Deforma-se e reforma-se. Metamorfoseada. Em linhas que se desenrolam diante do meu imaginário. Que sonha. Que sonha o teu rosto, as curvas que o definem, as memórias que se reavivam a si mesmas, em impulsos de feedback positivo movidos pelo vício de lembrar. Lembrar tudo e esquecer a racionalização que sustenta a frieza metálica de levar ao cúmulo o esforço mecânico de caminhar impérvio aos sentimentos que me tentaram abraçar. 

Caminhar em frente, prosseguir um qualquer caminho pré-definido, formatado pela impessoalidade que um dia residiu na porta ao lado mas que foi despejada pelo senhorio. Em boa hora deixou de pagar a renda. Assim foi possível mudar o rumo, virar para o horizonte e sentir o sol quente no rosto. Os cruzamentos deixaram de o ser, as placas e tabuletas que se confundiam, que me confundiam, deixaram de ter caracteres ilegíveis, termos incompreensíveis, deram lugar à ternura que envolve o desejo de ser nada. 

Todavia, chove. Os céus abriram-se num pranto infindável que já não me alcança. E dos caminhos que se aclararam à luz forte de um sol moribundo guardo apenas a recordação vaga. Recordação da estrada que sigo. Recordação que agora se afigura diferente. As letras das placas, das tabuletas, voltaram a fundir-se numa amálgama que já não consigo descodificar. Os cruzamentos voltaram a surgir da névoa, materializaram-se como castelos reerguidos dos alicerces em ruínas, vindos do cinzento sujo que renasce das sombras etéreas. Tresandam a vício, a fumo. Nauseabundas. Corrompidas. Ébrias formas nascidas duma natureza-morta, própria de quem se dedicou a matar-se lentamente.

Não somos mais do que naturezas-mortas. Tomara eu ser uma. Sedar-me na obnubilação de ser uma sombra sem objecto. Uma sombra formada a partir do nada. Uma materialização de algo que não existe, em que me crio com a presunção de não ser mais do que um produto objectivo e pragmático de mim próprio. O que seremos todos senão sombras? Sombras do que fomos. Do que viremos a ser. Sombras onde encontraremos escritas, em escondidas letras de prata incapazes de mentir, as palavras que nos definem. Letras reveladas somente pelo brilho de uma lua nova numa noite de tempestade. Letras reveladas apenas aos olhos de quem as consegue aprender a ler. Letras que guardarão a verdade sobre a sombra e que inevitavelmente serão lidas. Hoje, amanhã, numa década, em mil anos – ninguém o saberá. Contudo, é certo que serão lidas, soletradas, aprendidas e reaprendidas. E essas letras, de uma prata refulgente, poderão então brilhar cobertas pelas lágrimas que agora caem e que se imiscuem na chuva que teima em se precipitar sobre o rosto, sobre a sombra. Pudera eu gritar todas as minhas letras. Sei-as de cor e de coração. Fui eu que as cravei no meu peito, a cinzel. Fui eu que as senti a gravarem-se em mim, a ressuscitarem-me de dentro para fora, com o sangue a ferver e com o mundo a rir-se dos meus esforços inócuos para me revoltar contra o caminho que me estava destinado. Virei à direita. Não vi sombras. Mas senti o veneno impregnar-se na atmosfera, e o ar toldou-se. 

Deixei de distinguir o que quer que seja, sem ser a sombra da minha própria sombra. Sinto-me turbulento num marasmo amordaçado. Deixei de saber o caminho. Ando às cegas, tacteio à minha frente com dedos ávidos e descarnados pelas frieiras do gelo que me atormenta. Tacteio a realidade inventada que se metamorfoseia a cada passo que dou. Perco-me, andei sempre perdido. Abro os olhos e vejo cinza. O calor do sol substituiu-se pelo calor do fogo da pira onde ardo. As labaredas lambem-me o corpo cansado e velho, tronco apodrecido que viu mais uma Primavera antes de tombar. Abro os olhos e vejo o nada. Abro os olhos uma e outra e outra vez, não me resgato à inquestionável doçura de me mergulhar num mar de sonho adimensional. Sonho com o dissipar da sombra, com as letras com que escreverei esse capítulo, finalmente as letras de prata que guardo religiosamente. O maior e único tesouro que ainda protejo. Para abrir os olhos e não ver senão sombra. A tua, a minha, a de todos. 

Quem sabe se ela veio para finalmente ficar, para sufocar a esperança, a ternura, o olhar doce, as palavras escritas pelo coração. Ou se se rói por dentro, na sua alma enevoada, pelo receio de se ver dissipada pelo sol que se esconde envergonhado da miséria e mesquinhez humana. Quem sabe... 

Sonho de olhos fechados.


Sonho sonhos entretecidos com fios de sombra.



Those who dream by day are cognizant of many things which escape those who dream only by night.  In their gray visions they obtain glimpses of eternity...


domingo, 15 de setembro de 2013

Ensaio sobre a escuridão

Era uma vez um morto. Que se havia esquecido de como o mundo podia ser bonito, pintado das cores que tingem o vibrar da vida pulsante à luz clara da manhã. Ele era escuridão, a escuridão que o engolia e a escuridão de que se rodeava para apagar as luzes que o ladeavam. O escuro, o negrume, o preto no qual morria e renascia. No qual se reinventava, no qual mudava. Somente para se deixar apagar novamente.

A penumbra do quarto deixa entrever a frescura putrefacta da decrepitude que abraça com gosto. É um cadáver datado, que há muito passou o prazo de validade. Que se refastela, nauseabundo, no ódio que lhe come as entranhas. Mesquinho. Asqueroso. O ridículo do que pronuncia a custo com a voz escanteada pela estupidez é apenas superado pela noção pérfida de se achar imortal, superior. Um morto imortal – chão e irónico pleonasmo que sublima a imbecilidade de ser senil sem ter idade para isso. Coração velho e pesado, razão púbere e egocêntrica.

Faltam-lhe as forças. E o sangue. Pudera – é um morto tombado na poça do próprio fel e bílis, que o roeu de dentro para fora até rebentar, implodir, deixando atrás de si um rasto de raiva vomitada, a raiva que guardou durante tanto e tanto tempo. Havia aprendido a custo a metodologia correcta para a esconder dos olhos do mundo. Mas a folha branca conheceu-a sempre, sempre. Única amiga. Sempre verdadeira na sua pureza, sem uma mentira a tingir-lhe de tinta a alvura original.

Aprendeu a sofrer. Finalmente, aprendeu a sofrer. Toda a culpa, todas as falhas, todos os momentos em que tomou decisões egoístas, todas as alegrias que apagou com a escuridão que o rodeava abatem-se sobre ele como uma chuva torrencial que lhe lava o esqueleto carcomido. Rebrilham sob a luz duma lâmpada fundida. As lágrimas tomam de assalto as órbitas encovadas, escavadas no crânio coberto das rugas que espelham os recalcamentos revelados agora que a máscara caiu. Agora que os muros que laboriosamente ergueu à sua volta foram reduzidos a pó. As cortinas estavam corridas, as janelas fechadas à chave. Abriram-se. Um vento leste entrou e destruiu tudo.

Abandonou-se a um erro que já tinha visto ser cometido. Demasiado perto, demasiadas vezes. Troçado em cada passo que deu quando se descuidou e se permitiu a si próprio sonhar, imaginar, acariciar com dedos hesitantes uma esperança que construiu sem querer. Não pensou. Por isso, agora é alvo de chacota, de riso, comentários dissimulados, olhares de comiseração. Ele não a merece. Ele é culpado. Um morto morreu. Não pode voltar a nascer. Não lhe é permitido. Se o fizer, a efemeridade dessa lascívia, dessa corrupção da ordem natural das coisas, é brutal e crua. Os vivos não o deixam esquecer.

O morto deita-se. Cansado. Vexado. Quis ser feliz, mas esqueceu-se de que não é já a sua hora. Regressou à escuridão, ao seu lar. Ele quer ter esperança. É a última a morrer. Todavia, o Inverno aproxima-se e a tampa do caixão fecha-se atrás de si. O breu absoluto, onde não chega um único fotão de luz. Suga tudo, sentimentos, sensações. Anestesiado. Embotado. Não sente os membros, não sente o corpo, não sente o coração, não sente nada. Sente apenas as fotografias, as memórias, as recordações, que encerra na mão descarnada junto à caixa torácica. Dum tempo em que o morto julgou viver. Agora, talvez lhe reste só isso para o alumiar na noite de desespero em que se perde, demasiado sufocado pelo desgosto para conseguir respirar. À espera do dia em que sinta novamente o calor da luz, algo que se atreveu a procurar. Aguarda deitado, de voz embargada, racionalizando numa lógica ad eternum que só para ele é infalível. Quiçá o destino lhe traga esse dia.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Folha Solta #9

A felicidade é como uma rosa. Pura, frágil, delicada, bela - ladeada de espinhos. A mão ensanguentada e o sal das lágrimas são o preço para a guardar no peito.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Ensaio sobre a morte

Hoje vi morrer um homem.

O mundo chora por ele. É um choro falso, uma vez que já é amplamente aceite a tese de que o mundo não chora por ninguém que não ele próprio, e mesmo quando se chora a si mesmo, fá-lo com lágrimas de sangue e vingança. Vingança contra quem contra ele é impotente, fraco, frágil como uma pétala de uma perdida rosa branca que só uma mão delicada pode proteger. Defender do que a espera longe do toque suave que guarda nele as memórias e recordações de uma outra vida, de uma outra existência, onde o momento ainda guardava em si a capacidade de traduzir felicidade. E não a miséria e a angústia com que se veste agora. Agora, sempre. Para sempre. Em tons de cinzento e preto. Que se misturam em sonhos partilhados.

Sai o vómito da alma, regurgitado sobre as lajes duma cidade parada. Ociosa. Paralisada por um calor sufocante. Paralisada pelo sufoco que me aperta a garganta, para não cuspir as mil palavras que guardo a sete chaves no meu peito. Infelizmente, face a várias e desafortunadas peripécias, esse mesmo peito não é mais do que um velho e carcomido baú de madeira a desfazer-se perante as intempéries do desespero que sopra no bafo quente que teima em se abater sobre as ruínas de quem um dia olhou com sobranceria. De quem um dia se julgou imortal, apenas para observar que cometia um erro crasso em assim se considerar. Pois entre o que se é e o que se considera ser existe uma considerável distância, tanta como a de um oceano. Que não se quebra. Que não se parte. Para partir, basta o coração, que parte tantas e tantas vezes para longe, tão longe que se transcende na sua própria materialidade. Até parar de bater.

Resta-se a si mesmo. Na hora da morte, resta-se a si mesmo. E ao copo a quem confiou os recantos mais escuros e mórbidos da sua alma. Pudera que eles morressem consigo e com o conteúdo do copo, engolido de um só trago para afogar o passado no tormento do seu próprio fel. Resta-se a si mesmo. E ao copo. E ao cigarro que deixa queimar lentamente enquanto sente a névoa a levá-lo para longe, a imiscuir-se nos pulmões decrépitos, assassinando-o por dentro, mas sem nunca o abandonar, sem nunca lhe virar as costas. Contudo, também ele parte. Porque não faz sentido ficar. Tristes daqueles que depositam uma vã esperança na inanimação do objecto, quando se esquecem que eles próprios se objectificam, a si e aos outros, num delírio racional de se recusar a sentir, de se negar a sentir. Até que o gelo aquece, e água escorre pelo rosto como um regato jovem que se lembra de brotar duma nascente que há muito havia sido seca pelo estio da mágoa e da dor.

Está numa sala. Uma sala cheia pelos gritos da solidão de ser o único no meio de mil anónimos. Anónimos do seu próprio anonimato, rostos incaracterísticos assim como o é o bafo duma noite quente e lenta. Lenta, lentificada, lentificante. Vagarosa na preguiça de apenas passar sem deixar vestígios atrás de si. Um vagar de quem se sabe certa do seu estatuto de noite, de negrume, dum preto que tudo engole na ânsia de ser ainda mais escuro do que aquilo que o define. Vai adiantada a hora... A sala está vazia. 


Hoje olhei-me ao espelho. E vi morrer um homem. Vi-lhe o olhar ofegante de desespero, caído, derrotado. Baço pela certeza da morte que se avizinha, pelo sopro de vida que se esvai pelas janelas entreabertas enquanto sussurra as mil recriminações que guardou. Certo do abismo que no seu reflexo se abre diante dele. Incerto do que o abismo lhe guarda – se as pedras frias e esfomeadas que receia, ansiosas por dar ao corpo um leito granítico e frio para repousar, se o sorriso efémero que sonha.

Death is just an illusion - a high wall. It is not the end. There is no such thing as 'the end'. It is the beginning.

domingo, 9 de junho de 2013

Ensaio sobre a nudez

Nu.

Vestido com as máscaras que nunca retirei, com a maquilhagem que nunca removi. E estou nu, sozinho no quarto dos meus temores, sitiado pelos sonhos que não concretizei, rodeado pelos fantasmas do passado. Pelos esqueletos que arrendaram a título eterno o meu armário, assentando lá sem data de despejo, apropriando-se da escassa alegria que me restava, devorando-a num banquete orgiástico e decadente. Gargalhadas. Risos. Artificialidades pueris de figuras de estilo que se materializam perante os olhos cansados em delírios piréticos.

Um piano imaginário faz das suas teclas eco dos passos errados que dei. Tantas vezes que virei nas encruzilhadas para o lado oposto àquele que devia seguir. Encontra resposta nas gotas de chuva que batem levemente no vidro da janela. Por onde escorrem as lágrimas que ninguém devia chorar. O cinzento apodera-se de mim, envolve-me nos braços frios, cai sobre a noite negra, apenas um cinzento torpe, lânguido, um cinzento que anestesia a dor de não saber o que fazer. A dor de sentir. A dor de pensar. A dor de fingir a própria dor até ao dia em que de facto a sente. Pungente. Cortante. Dilacerante. Como as cordas do violino que rejubila, salta, vibrante na sua leveza de objecto insensível a quem o ouve. 

O destino atarefa-se em apanhar quem ousa desafiá-lo. Com passos certos e persistentes, num ritmo imperturbável, estanque a manobras de diversão, a fait-divers. Aos enganos que o Homem insiste em eternizar na negação de pensar. Hoje dedico-me ao niilismo existencial - a vida não tem sentido nem propósito. Amanhã quem sabe se o futuro não guarda uma manhã soalheira que me reavive o calor no coração. Se lá for possível chegar. Cadáver retorcido, fibrosado, retalhado pelas cicatrizes que dele zombam. Cada uma com a recordação embutida do punhal que a fez. No cabo de cada uma dessas lâminas estão escritos os caracteres das letras com que desenho os nomes esquecidos, os sítios perdidos, os momentos que jazem sob um fogo amodorrado. Os sorrisos e as palavras que não serão levados pelas ondas que me tolhem os pés, dormentes e incapazes de ensaiar uma subtil e elegante fuga.

Encosto o meu cansaço à janela que revelei. A janela para o mundo. A janela para dentro de mim. O vidro embaciado já não esconde o sofrimento nem os segredos que ocultei a sete chaves no baú mais andrajoso do quarto mais recôndito. Chaves essas que esqueci e lembrei, chaves essas que agora trago na mão estendida, uma mão que procura o consolo de se saber em segurança, protegida. Uma mão que procura o olhar que a enclausurou. Uma mão que tacteia no escuro, na neblina dum fim sem princípio, dum princípio sem fim. Que tacteia pelo dia em que se poderá para sempre esconder dos pensamentos que não pode pensar, dos sonhos que não pode sonhar.

O violino continua o seu pas-de-deux com o violinista. O piano com a sua dança nos dedos do pianista. Eu continuo nu, gelado pelo vento que se enfurece contra a minha alma. Cubro-me com os meus falhanços, mas são uma manta mil vezes remendada, mil vezes esfarrapada.

A fragilidade das linhas
que traçam a perfeição em finos gestos
nas curvas jamais sozinhas,
para sempre acompanhadas pelos lestos
suspiros que te perseguem
pelas ruas que não atravessas,
pelos caminhos áridos que neguem
a oportunidade de juntar as peças
e construir-te uma estátua,
como devia ter feito antes
em vez de me perder nas divagações petulantes
de procurar só a esperança. Pois mato-a
uma e outra vez, repetidamente,
psicopata da própria existência
perseguido pelo sangue quente
que se imbui no corpo em decadência.

Não tenho mais nenhuma manta. Só mais uma quimera. Mais uma esperança egoísta. 

Mais uma mão estendida em frente, prefácio dum corpo nu e desorientado, à procura dum olhar em fuga. Voltará a deixar-se encontrar? Quem sabe... Eu não o sei. Quiçá alguém ouse lançar palpites sobre os intrincados desenganos do futuro. Eu não. Já me habituei a errar. Tenho de aprender a mudar. A acertar.

domingo, 12 de maio de 2013

Ensaio sobre auto-reflexão

São dez para as vinte e sete.

A varanda chama-me com a doce melodia de deixar passar o tempo num vagar amorfo, sem propósito nem sentido. Os passos pesados arrastam-se sobre o soalho gasto pelos raios de sol que de mim troçam, pela madeira outrora envernizada, agora mascarada pelos riscos dos anos de um andar para a frente e para trás, para trás e para a frente sem princípio nem fim. O princípio jaz longe, sob uma neblina viciosa. O fim, guarda-o o futuro. Ou então já por ele passei e não dei conta. Sou de más contas, triste sina de quem perdeu a arte de ser matemático nos cálculos que faz, de já não saber antecipar o que as incógnitas guardam, de já não saber ponderar as possibilidades e hipóteses.

- És uma criança.

Oiço a voz a ressoar na cave da minha mente. Reflexo arcaico de quem lá esconde tudo o que não quer ver a brilhar à luz do sol quente e provocador num Maio bafiento, empolado pelos medos que tacteiam no torpor de recostar o rosto contra o chão a ferver e perder a noção. A noção do quê? Nem sei bem, simplesmente a noção. De ser, de estar, de pensar, de sorrir, de chorar. Mil emoções num só vortex, num só buraco negro de não sentir.

Sou de facto uma criança. O meu ego pessoano vem à tona, vem respirar um pouco do fumo que me enche os pulmões carcomidos, vem beber um pouco das lágrimas que escorrem do copo virtuoso que é eternamente cheio.

- És uma criança. Adeus.

As palavras enrolam-se umas nas outras, como ramos entretecidos numa dança etérea. Atropelam-se, tropeçam no realismo cru, arrancam tinta de si no frenesim cronófago de saltar o tempo para a frente, num fast-forward improvisado, até deixarem de ser antes de se tornarem nas palavras com as quais me despedirei. Delapidadas numa laje de mármore branco, branco como o lençol que te cobre o coração, branco como a moldura da tua alma. Alva recordação de um dia sem horas nem tempo. Sem princípio nem fim, apenas um momento de felicidade.

Querer sempre o que não se tem. Eis a infeliz conclusão psicanalítica de quem se aperfeiçoou a lançar fogo às vísceras apenas pelo gozo. De quem passou toda a vida a perseguir quimeras, a coleccionar as fotografias dos desastres a que alegremente se dedicou, a rebentar o peito com amarguras fúteis para se tornar mestre na arte de o reconstruir. Vazio e arruinado por dentro, recorrentemente assolado por guerras perdidas. Empedernido pelas cicatrizes deixadas, tanto que, ironia das ironias, deixa escapar por entre os dedos a alegria escassa que descobre nas entrelinhas da vida. Como areia fugaz que é incapaz de agarrar.

Abro a varanda. Sinto no rosto o ar quente da noite estagnada. O sopro imaginado que me sussurra saudade, nos acordes duma canção inominada. O brilho do luar envergonhado, que se recorta como uma cama de rede pronta para me embalar para longe dos pensamentos que não quero ter, dos sonhos de que me quero esconder. Vejo-o através do meu olhar tolo e frágil, marejado pela escuridão que me sufoca. Tolhido pela esperança de que uma lanterna a rasgue, para me guiar para longe de mim próprio.

Hoje caí. Caí no doce enlevo de quem simplesmente não quer saber. Recuso-me a ceder ao instinto protector de me preocupar. Porque estou cansado. Essencialmente cansado, velho e envelhecido, triste tronco retorcido pelo tempo que se multiplica a si mesmo. A infinita potência elevada ao múltiplo da dor.

Ontem levantei-me da queda a que cedi hoje.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Ruína

Numa noite estrelada,
na febre da melancolia,
não, não, não, não, não
mais vale estar de boca fechada
isto um dia não é dia
sem sentir mais um pouco do coração
a apodrecer no vácuo da emoção..
 
Um falso feliz, e acenar
na artificialidade ensaiada
duma maquilhada varina
alheia na rapidez de condenar,
esquecida da disfarçada
vontade de se dar à ruína
de ser mais uma sombra fútil,
reles desculpa de pessoa,
segura na insegurança
de dar ao mundo um inútil
beijo no ar, aceno que voa
com a indiferença duma dança
que não é mais do que esmola,
ódio sob uma base de doçura,
rímel decalcado da sola
do salto do sapato que perfura
e rasga a máscara caída
nos labirintos riscados a baton
que formam a mentira
duma inocência corrompida -
ouve-se já ao fundo o som
da esperança que entretanto partira
do próprio funeral anunciado,
afinal não é de bem nem apropriado
assistir ao próprio adeus,
abandonar o desgosto ao enterro,
carpi-lo teatralmente junto dos seus
e reencontrá-lo num remissivo erro...
Não há suspiros meus
que te alcancem para lá do verniz
imaculado na perfeição enervante,
sei-o a estalar sob o peso leviano
das amarras que para mim quis,
nem para lá do asco do semblante
dourado por um brilho desumano, 
não há desencanto que não me acosse
nos ermos intrincados do pesadelo
onde me encurrala o plástico gloss,
me sufoca uma livre madeixa de cabelo.

Não, os suspiros não vão para lá do mar,
maré empenhada em me arrastar,
ondas de tonalidades cromáticas
que insisto em pintar de branco e preto
farto das reacções idiossincráticas,
mais vale pagar pelo crime que cometo
e rir-me no rosto da desgraça.
O que é que isso interessa?
Já não há um sonho que resista,
não há pureza que não se mostre devassa,
a inevitável ruína nela própria tropeça,
porque não esperá-la com um abraço pessimista?

Entretêm-me estes subterfúgios
ao morrer mais um minuto na tua memória
que me persegue até aos subúrbios
do meu pensamento, apagado na glória
de ter perdido a conta aos distúrbios
subsequentes à perdida revolução
de tentar remendar os buracos na minha razão,
desenho-te uma pétala de rosa
em descoordenados traços
para te mostrar o quão penosa
é a despedida no eco dos teus passos…

terça-feira, 12 de março de 2013

Solidão

A solidão e o medo...
do dia em que vou acordar
e ver que o engano a que acedo
decidiu deixar de me enganar,
resta-me assim um nada
que para mim é tudo,
uma terra queimada
onde sofro desnudo
das paredes de noite escura
que me protegem da candura
de ser ao mesmo tempo ingénuo e senil,
de cuspir estas palavras em estado febril...
Só, desmaio
num só movimento -
que se abata sobre mim um raio -,
ainda assim tento
acarinhar o rumor do mar
inventado dum só fragmento
do céu pintado num azul-cinzento
que impede o sonho de voar.

A solidão e a dor...
aperta a respiração,
paralisa-me neste torpor
de continuar em vão,
aura dum sonho psicadélico
que me cega de luz,
infinita no clarão bélico
da guerra que não faz jus
ao título pomposamente
atribuído no egocentrismo
de ser para sempre recorrente
no acto de não pensar,
de parar num raciocínio frenético
no qual sente a mente congelar,
no qual só lhe resta o esgar céptico
de quem já esqueceu o que era gostar.

A solidão e o grito...
vísceras rasgadas
pelo eterno mito
de mágoas desassossegadas
e de raivas sufocadas
no calor das lágrimas contidas,
na loucura de correr,
sem sentido, sem querer,
pernas latejantes com feridas,
abstracção do tempo e do espaço
e dos espinhos a ladear a calçada,
correr esquecido do cansaço,
correr para ti, para o nada.


sábado, 23 de fevereiro de 2013

Folha Solta #8

A esperança é um ciclo vicioso e viciado - todos os dias ergue-nos dos escombros do sono atormentado, todas as noites enleva-nos nas lágrimas da descrença racional.

Insónia

Quando as luzes se apagam
a tua imagem cega-me o sono,
mesmo que cuspa nas mãos que me afagam,
mesmo que espezinhe o caído trono...

E o tudo perde-se na quimera
de não saber com que cores
se pintará a si próprio o futuro
receoso do que o espera
a espreitar os seus temores
desenhados no desespero impuro
de quem tudo quer
e nada tem,
mesmo se tudo estiver
ao alcance de quem
se esqueceu de quem é
na loucura de confiar na fé,
de abdicar do racional,
de aguardar por uma sorte
que nunca veio nem nunca virá,
absorto na ilusão de ser imortal,
de beber mais um café forte
quando apenas com um tépido chá
engana os sentidos na decadência amoral.

Adormeço-me na insónia
de quem perdeu a memória
de ser feliz
e do tempo em que o quis,
caminha por entre rostos sem história,
prédios aflitivos pela banalidade,
sem rumo para lá da inglória
marcha forçada nos destroços sem idade
que relembram a ternura das mãos geladas
fugitivas na neblina do anteontem,
reclusa das palavras transtornadas,
afastam-se na incógnita saudade,
talvez um dia me contem
o porquê da descrença na verdade.

Entretido nas horas sem minutos,
na crueldade de se rever
no vácuo de prédios devolutos,
roídos mas incapazes de esquecer,
eis que o esplendor duma beleza terrível
ergue-se sobre a fria e triste manhã,
aquece a alma empedernida, insensível,
antes de arrefecer de vez na noite vã.