Era uma flor triste e seca.
Triste pelo abandono a que tinha sido votada pelas suas irmãs. Seca pelo estio
do ar gélido e cortante duma tarde vazia, perdida nos meandros dum Outono
esquecido, um ano qualquer, um século não classificado, uma terra inominada.
Triste e seca pela teimosia de se agarrar ao seu palmo de terra, saturada pelas
primeiras chuvas, pela teimosia em ser a última memória duma Primavera que há
muito se havia despedido.
O sol tímido ascendia sobre uma
manhã fria. Mais uma manhã que fazia jus à promessa de nela guardar o sopro do
Inverno que se aproximava com passos certos. Certos da sua inevitabilidade.
Certos de que neles guardam o gelo que vem paralisar os movimentos, o coração,
a alma.
A flor chorava. Talvez fosse só
orvalho da noite que beijava as suas pétalas. Talvez fossem as lágrimas de
solidão que se instalara nela. Só. Só num prado de caules secos e tombados. Uma
flor duma brancura virgem. Pureza. Intocada e intocável. Para além de tudo, de
toda a mágoa, de toda a dor, apenas bela na sua solidão. Um raio de luz alva
num descampado castanho da terra revolvida pelas bátegas de chuva que
teimosamente se precipitaram em longos dias de escuridão.
Fossem o que fossem aquelas gotas
de água, gelavam agora, formando uma fina camada de geada que se ia
petrificando nas pétalas da flor. Tinha frio. Tentava aproveitar a brisa para
afastar aquele gelo que dela se apoderava, todavia pouco podia fazer. Não tinha
força, não tinha apoio. Todas as suas irmãs haviam fenecido, expurgadas da sua
vitalidade pelo tempo inclemente. Ela agarrava-se, persistia, lutava. Não sabia
até quando.
Estava ela perdida num pranto imaginado
de auto-comiseração quando reparou nuns arbustos que se revolviam à sua frente,
nos limites do descampado. Deles surgiu repentinamente um gaio, a abanar as
asas para se libertar da água fria. Cambaleava de um lado para o outro, num
passo tremido. A flor olhou insistentemente para ele, como que a chamá-lo.
Finalmente, companhia, alguém com quem pudesse falar.
“Bom dia. Como te chamas?”
O gaio olhou confuso em volta,
pois cria estar só no meio daquele descampado assolado pelo tempo. Percebeu
quem o chamava com alguma surpresa, e começou a saltitar, incerto e
ziguezagueante, na direcção da flor.
“Bom dia. O que faz uma flor tão
bonita ainda por aqui?”
“As minhas irmãs partiram todas –
para longe daqui ou para o seu descanso. Eu sou a última de nós, não sei para
onde ir nem como ir”
“Está frio, demasiado frio para
uma flor como tu. Não pertences aqui, devias partir”
A flor olhou para o gaio,
esbaforido e com um ar apressado, e pensou no que ele havia dito. Estaria na
hora de partir? Mas ela era nova, não conhecia outra paisagem que não a daquele
descampado, onde brotara daquele chão que agora mal reconhecia. Não seria já o chão
dela?
“Como é que o poderei fazer,
querido gaio? Isto é, partir?"
O gaio abriu as asas, e a flor
percebeu que uma delas estava magoada. Olhou com maior atenção para ele e
percebeu que também tinha sangue na pata direita.
“Também eu estou a partir, para
longe daqui e deste tempo. Estás só, nada está guardado para ti neste sítio
apertado e pequeno. Está demasiado frio para uma flor como tu. Estás demasiado
só e fechada neste sítio. Voa.”
“Mas eu não sei voar…”
“Claro que sabes. Deixa-te levar pelo
vento, vogar nas asas que se adivinham nas tuas folhas. Livre de te elevares e
de deixares que a tua sorte te conduza até ao horizonte. E para lá dele, para
um lugar melhor. Anda, eu ajudo-te”
Enquanto falava, o gaio
aproximou-se da flor com um olhar de comiseração e compaixão por aquela frágil
e delicada flor que se via assim desorientada no mundo e, com cuidado, começou
a arrancá-la da terra húmida com o bico. Num só movimento ascendente, a flor
sentiu-se solta, leve, com a geada a derreter-se sobre as suas pétalas e
derramar-se sobre o chão. Eleva-se no ar numa dança rodopiante, num riso
melodioso, numa canção de cor e alegria numa manhã ominosa. Murmura um “Obrigado…”
que o gaio, a afastar-se da visão da flor, adivinha no rumorejar das pétalas
embaladas pelo vento.
Ela voa. Liberdade. Mudança.
Sente-se o grito preso no caule, nas folhas, no coração a libertar-se finalmente,
a ecoar pelos vales que agora sobrevoa. Um mundo inteiro a desfilar diante dos
seus olhos. Florestas, cidades, rios, mares, mil e mais mil outras flores,
presas ao chão. Ao mesmo chão que a prendia até há bem pouco tempo. Ela parte
para uma nova vida, para um novo dia, para um novo tudo. Desígnio subtil e
inovador para quem não sabia voar. O horizonte desenrola-se diante da flor. Do
que ele esconde, nada sabe a flor. Contudo, sabe o que ele não esconde. Um novo
descampado, pois esse ficou agora para trás, nas brumas do passado que
rapidamente se desvanece na excitação do ser, na loucura eufórica que brota da
alma da flor. Preenchida pela vontade ressuscitada, pela força de se ver
autónoma, nas asas dum vento que a protege até ao momento em que irá aterrar
num local onde o sol voltará a brilhar resplandescente. Onde o coração sentirá
de novo o calor duma manhã de esperança. Onde a flor não estará só. A solidão
dará lugar a um novo lar, no qual poderá voltar a florescer, a crescer, a
cumprir a promessa de esplendor e beleza que a agora pequena flor nela encerra.
A solidão não é imutável. O mundo guarda nele o futuro da flor. Ela sabe-o e
guarda-lhe um sorriso, o mesmo que se começa a desenhar enquanto viaja na
atmosfera cristalina, limpa pela água chorada pelas nuvens que se acotovelam
atrás de si. O mundo guarda nele um novo mundo para a flor. Basta-lhe alcançá-lo
e conquistá-lo. Com a memória das lágrimas encerrada nas suas pétalas.
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