domingo, 17 de novembro de 2013

A Flor

Era uma flor triste e seca. Triste pelo abandono a que tinha sido votada pelas suas irmãs. Seca pelo estio do ar gélido e cortante duma tarde vazia, perdida nos meandros dum Outono esquecido, um ano qualquer, um século não classificado, uma terra inominada. Triste e seca pela teimosia de se agarrar ao seu palmo de terra, saturada pelas primeiras chuvas, pela teimosia em ser a última memória duma Primavera que há muito se havia despedido.

O sol tímido ascendia sobre uma manhã fria. Mais uma manhã que fazia jus à promessa de nela guardar o sopro do Inverno que se aproximava com passos certos. Certos da sua inevitabilidade. Certos de que neles guardam o gelo que vem paralisar os movimentos, o coração, a alma.

A flor chorava. Talvez fosse só orvalho da noite que beijava as suas pétalas. Talvez fossem as lágrimas de solidão que se instalara nela. Só. Só num prado de caules secos e tombados. Uma flor duma brancura virgem. Pureza. Intocada e intocável. Para além de tudo, de toda a mágoa, de toda a dor, apenas bela na sua solidão. Um raio de luz alva num descampado castanho da terra revolvida pelas bátegas de chuva que teimosamente se precipitaram em longos dias de escuridão.

Fossem o que fossem aquelas gotas de água, gelavam agora, formando uma fina camada de geada que se ia petrificando nas pétalas da flor. Tinha frio. Tentava aproveitar a brisa para afastar aquele gelo que dela se apoderava, todavia pouco podia fazer. Não tinha força, não tinha apoio. Todas as suas irmãs haviam fenecido, expurgadas da sua vitalidade pelo tempo inclemente. Ela agarrava-se, persistia, lutava. Não sabia até quando.

Estava ela perdida num pranto imaginado de auto-comiseração quando reparou nuns arbustos que se revolviam à sua frente, nos limites do descampado. Deles surgiu repentinamente um gaio, a abanar as asas para se libertar da água fria. Cambaleava de um lado para o outro, num passo tremido. A flor olhou insistentemente para ele, como que a chamá-lo. Finalmente, companhia, alguém com quem pudesse falar.

“Bom dia. Como te chamas?”

O gaio olhou confuso em volta, pois cria estar só no meio daquele descampado assolado pelo tempo. Percebeu quem o chamava com alguma surpresa, e começou a saltitar, incerto e ziguezagueante, na direcção da flor.

“Bom dia. O que faz uma flor tão bonita ainda por aqui?”

“As minhas irmãs partiram todas – para longe daqui ou para o seu descanso. Eu sou a última de nós, não sei para onde ir nem como ir”

“Está frio, demasiado frio para uma flor como tu. Não pertences aqui, devias partir”

A flor olhou para o gaio, esbaforido e com um ar apressado, e pensou no que ele havia dito. Estaria na hora de partir? Mas ela era nova, não conhecia outra paisagem que não a daquele descampado, onde brotara daquele chão que agora mal reconhecia. Não seria já o chão dela?

“Como é que o poderei fazer, querido gaio? Isto é, partir?"

O gaio abriu as asas, e a flor percebeu que uma delas estava magoada. Olhou com maior atenção para ele e percebeu que também tinha sangue na pata direita.

“Também eu estou a partir, para longe daqui e deste tempo. Estás só, nada está guardado para ti neste sítio apertado e pequeno. Está demasiado frio para uma flor como tu. Estás demasiado só e fechada neste sítio. Voa.”

“Mas eu não sei voar…”

“Claro que sabes. Deixa-te levar pelo vento, vogar nas asas que se adivinham nas tuas folhas. Livre de te elevares e de deixares que a tua sorte te conduza até ao horizonte. E para lá dele, para um lugar melhor. Anda, eu ajudo-te”

Enquanto falava, o gaio aproximou-se da flor com um olhar de comiseração e compaixão por aquela frágil e delicada flor que se via assim desorientada no mundo e, com cuidado, começou a arrancá-la da terra húmida com o bico. Num só movimento ascendente, a flor sentiu-se solta, leve, com a geada a derreter-se sobre as suas pétalas e derramar-se sobre o chão. Eleva-se no ar numa dança rodopiante, num riso melodioso, numa canção de cor e alegria numa manhã ominosa. Murmura um “Obrigado…” que o gaio, a afastar-se da visão da flor, adivinha no rumorejar das pétalas embaladas pelo vento.


Ela voa. Liberdade. Mudança. Sente-se o grito preso no caule, nas folhas, no coração a libertar-se finalmente, a ecoar pelos vales que agora sobrevoa. Um mundo inteiro a desfilar diante dos seus olhos. Florestas, cidades, rios, mares, mil e mais mil outras flores, presas ao chão. Ao mesmo chão que a prendia até há bem pouco tempo. Ela parte para uma nova vida, para um novo dia, para um novo tudo. Desígnio subtil e inovador para quem não sabia voar. O horizonte desenrola-se diante da flor. Do que ele esconde, nada sabe a flor. Contudo, sabe o que ele não esconde. Um novo descampado, pois esse ficou agora para trás, nas brumas do passado que rapidamente se desvanece na excitação do ser, na loucura eufórica que brota da alma da flor. Preenchida pela vontade ressuscitada, pela força de se ver autónoma, nas asas dum vento que a protege até ao momento em que irá aterrar num local onde o sol voltará a brilhar resplandescente. Onde o coração sentirá de novo o calor duma manhã de esperança. Onde a flor não estará só. A solidão dará lugar a um novo lar, no qual poderá voltar a florescer, a crescer, a cumprir a promessa de esplendor e beleza que a agora pequena flor nela encerra. A solidão não é imutável. O mundo guarda nele o futuro da flor. Ela sabe-o e guarda-lhe um sorriso, o mesmo que se começa a desenhar enquanto viaja na atmosfera cristalina, limpa pela água chorada pelas nuvens que se acotovelam atrás de si. O mundo guarda nele um novo mundo para a flor. Basta-lhe alcançá-lo e conquistá-lo. Com a memória das lágrimas encerrada nas suas pétalas.

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