São dez para as vinte e sete.
A varanda chama-me com a doce melodia de deixar passar o tempo num vagar amorfo, sem propósito nem sentido. Os passos pesados arrastam-se sobre o soalho gasto pelos raios de sol que de mim troçam, pela madeira outrora envernizada, agora mascarada pelos riscos dos anos de um andar para a frente e para trás, para trás e para a frente sem princípio nem fim. O princípio jaz longe, sob uma neblina viciosa. O fim, guarda-o o futuro. Ou então já por ele passei e não dei conta. Sou de más contas, triste sina de quem perdeu a arte de ser matemático nos cálculos que faz, de já não saber antecipar o que as incógnitas guardam, de já não saber ponderar as possibilidades e hipóteses.
- És uma criança.
Oiço a voz a ressoar na cave da minha mente. Reflexo arcaico de quem lá esconde tudo o que não quer ver a brilhar à luz do sol quente e provocador num Maio bafiento, empolado pelos medos que tacteiam no torpor de recostar o rosto contra o chão a ferver e perder a noção. A noção do quê? Nem sei bem, simplesmente a noção. De ser, de estar, de pensar, de sorrir, de chorar. Mil emoções num só vortex, num só buraco negro de não sentir.
Sou de facto uma criança. O meu ego pessoano vem à tona, vem respirar um pouco do fumo que me enche os pulmões carcomidos, vem beber um pouco das lágrimas que escorrem do copo virtuoso que é eternamente cheio.
- És uma criança. Adeus.
As palavras enrolam-se umas nas outras, como ramos entretecidos numa dança etérea. Atropelam-se, tropeçam no realismo cru, arrancam tinta de si no frenesim cronófago de saltar o tempo para a frente, num fast-forward improvisado, até deixarem de ser antes de se tornarem nas palavras com as quais me despedirei. Delapidadas numa laje de mármore branco, branco como o lençol que te cobre o coração, branco como a moldura da tua alma. Alva recordação de um dia sem horas nem tempo. Sem princípio nem fim, apenas um momento de felicidade.
Querer sempre o que não se tem. Eis a infeliz conclusão psicanalítica de quem se aperfeiçoou a lançar fogo às vísceras apenas pelo gozo. De quem passou toda a vida a perseguir quimeras, a coleccionar as fotografias dos desastres a que alegremente se dedicou, a rebentar o peito com amarguras fúteis para se tornar mestre na arte de o reconstruir. Vazio e arruinado por dentro, recorrentemente assolado por guerras perdidas. Empedernido pelas cicatrizes deixadas, tanto que, ironia das ironias, deixa escapar por entre os dedos a alegria escassa que descobre nas entrelinhas da vida. Como areia fugaz que é incapaz de agarrar.
Abro a varanda. Sinto no rosto o ar quente da noite estagnada. O sopro imaginado que me sussurra saudade, nos acordes duma canção inominada. O brilho do luar envergonhado, que se recorta como uma cama de rede pronta para me embalar para longe dos pensamentos que não quero ter, dos sonhos de que me quero esconder. Vejo-o através do meu olhar tolo e frágil, marejado pela escuridão que me sufoca. Tolhido pela esperança de que uma lanterna a rasgue, para me guiar para longe de mim próprio.
Hoje caí. Caí no doce enlevo de quem simplesmente não quer saber. Recuso-me a ceder ao instinto protector de me preocupar. Porque estou cansado. Essencialmente cansado, velho e envelhecido, triste tronco retorcido pelo tempo que se multiplica a si mesmo. A infinita potência elevada ao múltiplo da dor.
Ontem levantei-me da queda a que cedi hoje.