terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Necessidade

Hoje caí no buraco do desespero.

Ontem fui morto vivo
anónimo rosto entre anónimos,
prisão sem paredes onde fui cativo
cativado pela anestesia robótica
de me anestesiar do que me torna humano.
Existência fibrótica,
lodo profano,
desorganizada negação do caos
que mata sem se sentir,
que mata pela omissão,
pela ausência do ir.
Afogo-me na estagnação.
Sinto o banal a penetrar os pulmões...

Preciso de ar.

Preciso de respirar.

Revolta, reinvenção, reiniciar.

Preciso de novo.
Recuso o fim para o qual me movo,
prefiro ver o desespero de existir
a ser vegetal preso à definição
alucinada duma realidade objectiva.
Antes desistir.
Antes deitar-me no chão.
Antes entregar-me à tendência auto-destrutiva
de quem apenas quer sentir.

Hoje acordei
e caí no buraco do desespero.
De olhos abertos.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Interlúdio

Não me arrogo a ser poeta,
arrisco tão só escrever a alma.
Desdita e dejecta,
desprovida de artifícios,
de recantos omissos.
Limpa na desproporção gráfica
da esterilidade dos esquissos.
Tenho-a na palma da mão
envolta numa pétala de rosa,
envolta no pranto do não;
na outra caneta branca
duma alvura que aleija
para afogar a noite manca,
arrancar da cegueira
os olhos que não viam.

Já vai adiantada a sexta-feira.
Talvez seja melhor ver.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Ensaio sobre a inocência

Por vezes pergunto-me, questiono-me como será a tua vida. Rebento precocemente gerado, precocemente desflorado. Precocemente estuprado, precocemente envelhecido. Rosto cujos traços ainda não perderam a inocência duma infância roubada. Cujos traços ainda não se afundaram sob o peso dos anos, o peso dos cuidados, dos desgostos e alegrias. Tão nova. Tanta dor numa sombra tão nova.
Pergunto-me como terás sido levada nesse desengano de alma despoletado pela vontade do corpo. Que circuitos neuronais se interligaram na decisão de mudares a tua existência. Já não és só tu. Já não és uma pessoa individual, una. Sangue do teu sangue, carne da tua carne. Agora fazes parte de um nós. Agora tens de cuidar de alguém quando ainda com idade para alguém cuidar de ti.
Vejo-te nos olhos a tristeza de seres prematuramente adulta. O teu corpo, desfigurado pela gestação, despojou-se do cheiro a suor das correrias desenfreadas em recreios inominados, do aroma a eucalipto e alfazema que imagino a ladearem o caminho entre a escola e o tugúrio que adivinho pelas roupas andrajosas e desbotadas. Despojou-se da graça ingénua dos saltos de jovem gamo, dos bilhetes trocados com as amigas, dos namoros da carteira vizinha, dos segredos sussurrados e imediatamente sucedidos por risinhos incontroláveis. Pergunto-me porquê enquanto uma maré cheia de mágoa me inunda o peito. Porquê?
Observo os gestos mal medidos e incertos, o modo desajeitado com que enfrentas os rotineiros desafios da maternidade. Com mãos demasiado pequenas para tal tarefa, com mãos que deviam segurar lápis, que deviam agarrar-se a manuais de matemáticas, ciências, línguas e não a essa trouxa cor-de-rosa que pousas insegura na alcova esterilizada e alva.
Alva, branca, incaracterística, como parece ser a tua mente neste momento. Olhos sem vida, janelas para uma casa abandonada, desprovida dos planos para um devir que não virá, para um amanhã que não irá amanhecer.
Por vezes pergunto-me, questiono-me em que pensavas há nove meses. Que sonhos tinhas, que ambições guardavas no teu punho cerrado. Se é que os tinhas. Se este vasto mundo para onde somos arremessados, meio cegos, meio desorientados, tinha para ti o apelo da descoberta, da aventura. Se no âmago da tua imaturidade natural equacionavas um futuro. Se olhavas o horizonte e te perguntavas se o podias alcançar, se as tuas passadas de menina algum dia te conduziriam a uma vida diferente da banalidade mórbida.
Divago. Provavelmente nunca tal conjuntura de reflexões se atreveu a cruzar os teus pensamentos. Provavelmente vivias na anestesia da ignorância, absolvida do ónus da decisão. Talvez assim seja melhor, não terás de te voltar e revoltar nos lençóis durante as longas noites de insónia, com a vista marejada pelo fel do passado. Noites que guardam sigilosamente as recriminações pelo que poderia ter sido e não foi.
Não obstante, sinto pena de ti. Quiçá sinta pena por ti. Nunca o saberei. No seio do meu inconformismo moderado compreendo a impossibilidade de alguma vez vir a saber que destino foi o teu, que vida será a tua. Alma de criança em corpo de mulher. Que não o deveria ser. Com uma faca trespassada nas suas esperanças. Pergunto-me, questiono-me se alguma vez a irás arrancar para dela te rires. Para limpares com os dedos mal tratados o olhar obnubilado, toldado pelo infortúnio e erguê-lo ao céu. Para reaprenderes a caminhar e reencontrar a estrada que se vedou. Ela continua no seu sítio, tranquilamente à espera de ser percorrida.

domingo, 5 de outubro de 2014

Elevador

Um elevador
que desce e sobe
na ânsia snob
de se resgatar à dor
e à mordaz gravidade
que teima em me prender ao chão
arrogante na sua veleidade
de recusar a ascensão,
de me mostrar a imperfeição.

Um elevador
que se retorce e distorce,
sussurrando em código morse,
como num mau filme de terror,
as palavras em cadência mecânica
que nunca disse à minha parede,
engolidas pela manhã tirânica
onde não sei bem se tenho sede
ou se simplesmente desejava tê-la
para me relembrar tenuemente
de que algo em mim ainda sente.

Um elevador
que deambula e vagueia
perdido numa vida meio cheia,
desorientado com arte e primor,
torpe caixa de metal
reflectida na sua própria frieza
ao não possuir já sinal
daquela efémera beleza
de bater um coração no interior,
de emanar um vestígio de calor,
não há nada tão doce como a ausência de sorte
quando respiras num mundo de razão,
mas com passos trôpegos num etéreo desnorte.
Esqueci-me de levantar os pés do chão.

domingo, 8 de junho de 2014

Varanda

O céu nocturno
é uma tela dum perdido Picasso
sem período, sem tempo, sem motivo
apenas um preto soturno
que reflecte o fracasso,
solene cessação de estar vivo
sem motivo
sem estar vivo
vivo nesta constante desilusão
de já não fazer sentido,
de suspirar na incompreensão
de estar completa e totalmente embrutecido
e de para tal não reconhecer razão
de antemão
ou no posfácio,
parece que fico a perder no rácio
entre os pensamentos plausíveis
e os delírios inconcebíveis.

Renego-me da minha sorte.
Abraço a perene morte
e odeio-a visceralmente,
enterro-me nos paradoxos
que entretenho para somente
julgá-los nos meandros pouco ortodoxos
da minha absoluta loucura,
todos os dias renovada à luz do social
"subscreva abaixo com a assinatura,
tem de a fazer sempre igual,
não faça nenhuma rasura".

Aprendi a dormir com a porta fechada
para não deixar fugir os sonhos
nem a minha sombra estropiada
que se aconchega com monstros medonhos
sussurrantes num doce timbre grave,
nutridos com o medo
que acarinho com o toque suave
das lágrimas que secaram
no sal do desenredo,
e que do rosto se lavaram
no freneseim da partida,
da poética destruição
que não guarda em si dor
mas sim a vontade reerguida
de reiniciar uma resolução
desenhada e planeada com primor.

Olha agora comigo o céu,
atreve-te a levantar o véu...
Tudo o que agora possuo é um meio luar,
uma nuvem onde me vejo desvanecer
e um copo de whisky com gelo,
é tudo o que me resta para amar,
é tudo onde posso florescer,
antes ser nada do que aspirar a sê-lo.


sábado, 30 de novembro de 2013

Folha Solta #10

O sonho é uma droga potente - embala-nos na obnubilação crente, embota-nos docemente os sentidos, prende-nos num abraço reconfortante ao qual deixamos de saber fugir. A realidade é o antídoto que nos acorda violentamente.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Ensaio sobre a vida

A noite beija o dia numa explosão de sensualidade, apenas possível graças ao véu molhado que cobre a indefinição em que ambos se abraçam. O mundo está parado, num momento raro de contemplação. Parado numa profunda inspiração antes dum inevitável mergulho, que se antevê desesperado e sem retorno.

Permitam-me a veleidade de pousar o olhar numa figura indistinta ao longe... Aproximemo-nos, pé ante pé, desta sombra prostrada pelo cansaço da realidade, num esforço retórico para se manter acordado. O céu veste-se num tom de cinzento carregado, inusitada escolha para um dia perdido nos meados de Novembro, altura curiosa, dado que nunca se percebe muito bem em que ritmo louco anda o tempo. Nunca se percebe muito bem se hoje é hoje ou se já é amanhã. Nunca se percebe muito bem qual o dia da semana em que estamos - mas também, para quê? Não somos escravos das datas, das horas, dos minutos, durante os longos meses de exílio, enclausurados, oprimidos pelas obrigações que nos extraem quaisquer réstias de inspiração, nos chupam até ao tutano com a raiva de nos submeter à sua vontade? Afinal o que somos para lá daquilo que fazemos? Ao fim ao cabo, só podemos conhecer alguém através das suas acções, no sentido lato da palavra - o que diz, o que faz, o que escreve... Só a partir daí podemos deduzir o que alguém pensa, o que sente, o que sufoca dentro de si.

Daí que dedique a minha atenção a este ser, isolado na varanda do seu desassossego, algures numa outra dimensão ou então apenas num recanto qualquer do nosso pequeno vasto mundo. Num óbvio sinal de delírio, ou simplesmente de egocentrismo, vou arrogantemente mascarar-me de omnisciente e tentar desvendar o que ele (pois é dum ele que se trata) resguarda dentro de si do vento frio e cortante que agora se levanta e do sono que se apodera dele, paulatinamente, obedecendo ao compasso das gotas de água que, numa cadência repetitiva, o embalam num entorpecimento assaz estranho e agradável.

Ele é um vulto dum passado recente, ele é alguém que se perde nos pensamentos que o afundam num pânico sem precedentes. Ele é um pobre desgarrado, ele é alguém que se deixa confundir pelos labirínticos pântanos onde é obrigado a tentar encontrar um caminho, um trilho para a promessa que se esconde na bruma que domina o seu horizonte. O que é ele? O que está aqui a fazer? Nem ele sabe. Duvido que alguém saiba.

Olho pelos olhos dele, partilho a sua visão deturpada pelo progressivo cerrar das pálpebras. Vejo as gotas de água num equilíbrio de ballet sobre as folhas dum limoeiro, retorcido pelas intempéries, desfigurado pelos nós da madeira velha e ainda assim resistente. Vejo um regato a precipitar-se, numa pressa eterna, por entre os seixos que os anos tornaram lisos e polidos, obras de joalharia engendradas pelo líquido cristalino que com ele traz um rumor da pureza das nascentes que brotam dum seio de granito. Vejo montes imponentes, sob um capuz de anciãs árvores numa paz inquebrável, enquanto farrapos de névoa tacteante se retiram para o refúgio da atmosfera. Vejo o balir das ovelhas que pastam, inocentes e desdenhosas do universo de carros, máquinas, fumo - só os tufos de erva viçosa e tenra lhes interessam, descobertos por entre as colunas de pedra que sustentam vinhas plantadas pelos avós dos avós dos donos, colunas que se erguem como memoriais da simbiose entre a Natureza e o Homem. Vejo uma rara alegria, uma alegria que aquece uma alma enregelada pelos cuidados, pelas preocupações, pelo cansaço de não viver, uma alegria que não via há muito tempo, há demasiado tempo. Vejo a cristalina e quase infantil alegria de sarar a fadiga com duas inspirações profundas dum ar com um indelével sabor a pinheiros e eucaliptos, de lavar os olhos com um instante de uma natural sublimação, de uma verdura extasiante, de um orgasmo contemplativo.

Vejo o sorriso que nasce nos teus olhos. Vejo a esperança, no coração dele, de poder ver, um dia, esse sorriso ser enriquecido pelo doce curvar dos teus lábios. Vejo o anelo que sente, mitigado num refúgio que sabe que terá de terminar - não há curas definitivas, apenas um adiar do inadiável.



"What is this life if, full of care,
we have no time to stand and stare?"



Uma vida assim não é nada, é um vazio, um vácuo que nos engole e nos expurga de todo o desejo de felicidade. A vida seria roubada da sua riqueza se não tivéssemos o tempo para olhar para o mundo em nosso redor, para as maravilhas que temos a sorte de poder apreciar. Contudo, qual o sentido de viver uma vida pobre, se apenas temos direito a uma? Uma vida pobre é um eufemismo, é o mesmo que não ter nenhuma...