De súbito, tudo termina
num ponto de interrogação,
que se ri num
esgar traquina,
como se adivinhasse o furacão
que me dilacera sem piedade,
lâminas intrínsecas e
rombas,
portadoras da crueldade
refinada com que arrombas
as infindáveis fechaduras
com que me tentei trancar
longe da
esquizofrenia de desesperar
na espera por esperanças futuras.
Sou acometido por uma cegueira
onde tacteio na tua luz,
onde nado num branco leitoso,
onde dou caneladas na cadeira
em cujas costas desenho uma cruz
com o sangue quente e viscoso
que jorra do meu coração
quando neste ofuscamento eterno
regresso ao brilho malicioso
do olhar transbordante de provocação...
Esta volta sem ida tem tanto de moderno
como de arcaico... É só o asqueroso
esboço do instinto deturpado
com o qual me recomponho
(ligaduras na caixa torácica,
cicatriz no ventrículo
cauterizado)
da fadiga mortal dum sonho
impregnado duma raiva clássica.
Ainda sem ver, oiço a ira do vento
num duelo pessoal com a minha janela,
prova cabal do péssimo temperamento.
Evoco no calor do passado o cheiro
morno e
aconchegante da canela,
antecipo o
inconfundível formigueiro
de membros na
reconquista da circulação,
afugentada por uma má posição.
No entanto, ainda não vejo,
só sei que cubro o rosto de água,
na enlutada vigília pelo beijo
capaz de me lavar a mágoa,
insensível ao ressequido sal
que brota duma fonte de cal.
Continuo sem descortinar nada,
de olhos abertos a ver tudo à volta...
Adeus inocência desprotegida,
frágil partícula arrebatada
pelo vento da revolta,
eco da noite
desconstruída,
sussurro duma frase
nahive,
morta pela recordação
mais preciosa que já tive,
à qual aplico
demão após
demãoduma pintura em preto-mate,
que
recorrentemente se
desmaterializapara deixar à vista o teu sorriso
(pungente e doce como chocolate,
demência que nenhum psiquiatra analisa) -
se aqui não comprovo a falta de juízo,
a sua absoluta e total ausência,
fala mais 5 minutos comigo,
já que eu não a tive, tem paciência,
e sente a aproximação do perigo
de te emaranhares nos
quid pro quo's
imperceptíveis duma alma infeliz
que só agora, nos dias breves e sós,
compreendeu o que sempre quis.
Contudo, tu és a perfeita inversão
de tudo o que eu sou,
talvez aí resida a razão
que inconscientemente me levou
a revisitar o que queria esquecer,
num golpe de pura melancolia,
que persiste em não esmorecer -
há muito que já não caía...
(sabes o que se costuma dizer,
se a esmola é muita, o pobre desconfia)
Porquê? Vá-se lá saber,
mas deixa-me tentar responder...
Porque na tua voz sem mácula
ouvi os motivos expectantes a florescer.
Porque me cobri com uma máscara ridícula,
estou certo de que nada ma remove.
Porque me escondi sob uma manta rota.
Porque já não aguento olhar-te.
E porque hoje chove.
E em cada gota
reflectem-se as lágrimas sem arte
nem engenho para molhar
a aridez do teu rosto,
para na tua alma reencontrar
a atracção do oposto.
Apanhado no início deste conto
que começa em media res,
sento-me no frio, meio tonto,
surpreendido pelo Outono rompante,
numa entrada que confere uma palidez
bem-vinda à luz que me cegou,
dissipada pela chuva cantante,
pela neblina do esquecimento
pela calma que finalmente chegou,
pela enxurrada que me arrasta para jusante
interpondo uma vida entre mim e o sofrimento.