quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Olhar

Sabes, ainda não percebi bem
dos teus olhos a cor,
a tonalidade que me tem
preso num insidioso rubor,
ascendente impulso eléctrico
que me sobe pela espinha acima
num trajecto em tudo assimétrico,
desde o toque que me reanima
até ao desprezo onde se extingue,
torpe argumento bilingue,
um escrito sonhado em inglês,
um atrito racionalizado em português.

Músculos retesados pelo stress,
postura rígida e tensa,
sem a verve que me aquece
a ironia outrora imensa,
agora rebento morto à nascença,
reles semente da descrença
em encontrar palavras para te dizer,
em me olhares com olhos de ver,
sentindo para lá do cadáver a estrebuchar
para se conseguir manter levemente vigil,
apesar de caído, esmagado no lancil
do passeio onde, pé ante pé, fui arranhar
o meu nome no jovem cimento fresco
apenas para ser cuspido pela petulância
incapaz de acreditar que sou o rocambolesco
resultado duma perene infância,
tão feliz que ainda hoje a vivo.
Num ápice apagar-se-ia a expressão altiva
nesta trip de açúcar onde sobrevivo...
Hellas, já deixei escapar a alternativa.

Nunca te li
os olhos tão perto de mim.
Será que vou parar aqui?
Recorda-me porque é que vim...
Obscureces-me o pensamento
e no auge da antecipação
eis que surge o momento
duma infinita inspiração
antes do mergulho para o vazio,
para a opacidade atrofiante
de lançares um desafio
às ruínas que talhaste em mim
com o punhal que agora afio,
na raiva digna dum inocente Caim
que com a voz já não cativas.
Estou esgotado pelas tentativas
ocas de enfiar o Rossio
numa pictórica rua da Betesga,
inundada pelo lodo do rio
donde bebo a inspiração,
fechado no caos, só com uma nesga
para observar em ti o reflexo da depressão.

Não há sorriso que derrube a muralha.
Não há esperança no fio da navalha
Não há droga que me valha.
Resta-me um olhar que falha.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Folha Solta #4

Fodo, não pelo prazer mórbido da concupiscência, mas sim com o propósito altruísta da continuação da espécie.

Nostalgia

Rompe
Rasga
Rói
Na penumbra dum vão de escada,
enrolo-me sobre mim mesmo,
fecho os olhos da alma mal alumiada,
escrevo o desespero e tu lês-mo,
tu sabes recitá-lo de cor,
desenhei-o com lágrimas salgadas
que se confundiam com o meu suor
num Verão de noites atraiçoadas
pela vontade de me perder,
de chorar o que nunca foi,
o que devia ter sido e não foi,
o que não foi e que quero rever.
Tu lês-mo pois secaste-me do rosto,
com os beijos que desejei, a água
que cravou a palavra desgosto
fundo, bem fundo. Olha, trago-a
ainda hoje comigo, gasto amuleto
que me recorda o que já não prometo.

Arranca
Arrasta
Agarra
Estou só, nu na escuridão,
o vulto dum miserável,
sem força para pousar a mão
e estancar a hemorragia incontrolável
violentamente aberta à tua passagem...
Filme recente, neo-realismo selvagem,
rodado num passado remoto,
há anos de sofrimento atrás,
memória cronológica que me traz
aos dedos uma amarelecida foto,
retrato da perdida luta
que rancorosamente emboto
com pinceladas de raiva bruta.

Renega
Retraça
Rejeita
Odeio o teu regresso,
amo o teu sorriso,
nos turnos em que me revezo
para suportar as insónias que profetizo
mal acordo dos sonhos turbulentos
em que subo degraus de madeira,
em que revisito pátios cinzentos,
em que sinto nas folhas a voz prazenteira
do fogo que julgara enterrado
e que ainda me suga a vida,
aquela que ardeu na tua mão distraída
e que deixaste cair como um fósforo queimado

Abraça
Acaricia
Acorda
O passado não descansa,
na melhor das hipóteses amansa,
até dele fugirmos, pondo de lado
o conceito de ser errado,
hábitos antigos,
velhos amigos
de não me lembro quando...
Contudo, no destino não mando
felizmente não possuo tal dom,
e acabaste por cortar o cabelo, apagar as pegadas
sem deixar um sinal, uma letra, um som
apenas as folhas desfeitas e cremadas
da poesia que agora recuso,
foste para nunca mais te ver outra vez,
foste para onde já não me vês.
Agora, num revivalismo caído em desuso,
procuro-te em cada carro que passa,
fugazes luzes numa paroxística estrada
destituída de direcção, que queres que faça,
fui eu quem a desenhei assim,
e de forma assaz despropositada
esqueci-me de onde era o fim...

Com música rebento os tímpanos,
com íntimos sonhos profanos
(estes fragmentos sem lógica nem ligação)
destruo cada fibra do meu coração,
são os últimos pregos do meu caixão.