dos teus olhos a cor,
a tonalidade que me tem
preso num insidioso rubor,
ascendente impulso eléctrico
que me sobe pela espinha acima
num trajecto em tudo assimétrico,
desde o toque que me reanima
até ao desprezo onde se extingue,
torpe argumento bilingue,
um escrito sonhado em inglês,
um atrito racionalizado em português.
Músculos retesados pelo stress,
postura rígida e tensa,
sem a verve que me aquece
a ironia outrora imensa,
agora rebento morto à nascença,
reles semente da descrença
em encontrar palavras para te dizer,
em me olhares com olhos de ver,
sentindo para lá do cadáver a estrebuchar
para se conseguir manter levemente vigil,
apesar de caído, esmagado no lancil
do passeio onde, pé ante pé, fui arranhar
o meu nome no jovem cimento fresco
apenas para ser cuspido pela petulância
incapaz de acreditar que sou o rocambolesco
resultado duma perene infância,
tão feliz que ainda hoje a vivo.
Num ápice apagar-se-ia a expressão altiva
nesta trip de açúcar onde sobrevivo...
Hellas, já deixei escapar a alternativa.
Nunca te li
os olhos tão perto de mim.
Será que vou parar aqui?
Recorda-me porque é que vim...
Obscureces-me o pensamento
e no auge da antecipação
eis que surge o momento
duma infinita inspiração
antes do mergulho para o vazio,
para a opacidade atrofiante
de lançares um desafio
às ruínas que talhaste em mim
com o punhal que agora afio,
na raiva digna dum inocente Caim
que com a voz já não cativas.
Estou esgotado pelas tentativas
ocas de enfiar o Rossio
numa pictórica rua da Betesga,
inundada pelo lodo do rio
donde bebo a inspiração,
fechado no caos, só com uma nesga
para observar em ti o reflexo da depressão.
Não há sorriso que derrube a muralha.
Não há esperança no fio da navalha
Não há droga que me valha.
Resta-me um olhar que falha.