A nostalgia é uma doce droga que nos enleva no viciante esquecimento da memória.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Crónica dum vampiro moderno
As portas abrem-se mais uma vez para abocanhar uma nova fornada de rostos anónimos, fechados, ensopados pela violenta chuva que veio atormentar um Novembro duma mansidão incomum. E como não há tempestade sem bonança, infere-se facilmente que não há bonança que não termine em tempestade. Ou pelo menos será algo do género o que passa pela mente das pessoas que agora entram, trazendo numa mão uma mala, uma pasta, um saco, uma segunda mão, e na outra as atribulações pessoais, momentaneamente remetidas para um plano de fundo demasiado presente pelo cansaço encharcado de quem tentou fintar as gotas de água para encontrar abrigo.
A trepidação regressa em força, o movimento avassalador para a frente soergue ligeiramente os pés dos mais incautos. Eis-nos a nós, em toda a magnificência duma banalidade compassada pelo ritmo contagiantemente repetitivo da capital, um pulsar regular de relógio suíço sempre atrasado.
O céu lá fora abre-se num dilúvio ímpar, atirando para a terra toda a sua animosidade bíblica. A cidade transborda de água, água que induz o vómito de todas as coisas inominadas que Lisboa guarda ciosamente nas suas entranhas, a mais terrível indubitavelmente o azedume dos seus habitantes. Repare-se naquele indivíduo que insulta silenciosamente com o olhar a mulher sentada à sua esquerda que, meio tolhida pela água que lhe inutiliza o casaco, meio atrapalhada pela inexperiência, batalha com o filho para que ele sossegue durante o tempo de duas estações.
A multidão atulhada, comprimida amaldiçoa em surdina o calor humano. “Ainda dizem que hoje em dia há falta de contacto físico entre as pessoas”, resmunga um indivíduo alto, soturno, sobretudo castanho, mala de cabedal puído na mão, cabelo a meio dum processo de ocupação indefinida pela brancura. Tanta raiva contida naquele murmúrio, tanto ardor num protesto insignificante. Vamos desculpá-lo, soube há um par de horas que tem cancro da próstata, está no seu pleno direito de ser desagradável. Contudo, é olhado com um esgarzinho de desaprovação por uma mulher, três cabeças à sua esquerda que, com uma capacidade auditiva aguçada, apanhou no ar o desabafo. Maquilhagem pesada, cabelo louro pintado. Talvez lhe fique bem abster-se daquela opinião muda, não convém lembrar que está já aflita para conseguir chegar antes do marido a casa. O adultério tem destes inconvenientes, como o ter de cumprir horários ou o tentar não ser vista a esgueirar-se dum motel com um aspecto, no mínimo, duvidoso na Almirante Reis.
A multidão espremida até ao limiar da consciência respira a um só tempo, partilha fraternamente o desejo de sair dali, movimenta-se sincronizadamente em passos de dança mal ensaiados. Não vê, não ouve, mas sente o ribombar dos trovões à superfície, numa transmissão telepática incoerente com as leis da Física. Assim, teme por antecipação, sabe que este é um refúgio temporário com prazo de validade marcado, onde já se viu ficar no metro só para não andar alguns metros envolto por um brutal lençol de água, que nos abraça e beija o corpo com lábios de gelo?
Vamos serpenteando por entre as pessoas, como folhas a planar sobre o desespero do tédio, em busca de algo, carruagem após carruagem. Encontramos o algo. Alguém talvez seja um termo mais apropriado. Ou então, o quê, visto só distinguirmos uma amálgama preta de roupa grossa a cobrir o que deduzimos ser um corpo, com o cabelo castanho revolto e sujo a espreitar por entre as camadas de tecido andrajoso, amontoado de modo absolutamente aleatório. Dorme. Dorme com afinco, imerso no único mundo que é só dele, longe dos olhos que o observam com preconceito, que o perscrutam de alto a baixo, que o julgam com um grunhido de irritação, como se a sua mera presença representasse uma ofensa pessoal e irreparável. Dorme não o sono dos justos, pois esse há muito que já não é dormido, mas sim um sono de pura exaustão.
Segue sem destino, é a quarta vez que passa pelo Campo Pequeno, num vaivém constante que atravessa Lisboa apenas para chegar ao mesmo sítio de onde partiu, apenas para encetar uma nova viagem de regresso, uma volta intrinsecamente imbuída na ida. Entreabre os olhos a medo, atordoado pela interrupção súbita do sono inquieto. Boceja ostensivamente, revelando a profundidade das rugas escavadas no rosto, profundas marcas dum desgosto gravado em relevo.
O anonimato de um único rosto num oceano de desconhecidos parece irrisório, uma nota de rodapé num artigo monocórdico, escrita em letras diminutas, do tamanho da insignificância do individual quando camuflado no colectivo. Só que este rosto destaca-se dos demais, não pela beleza ou pela fealdade, por uma qualquer deformação ostensiva ou artificial. Destaca-se pela mágoa que esconde, capaz de soltar as lágrimas de qualquer um que vencesse a natural repulsa provocada pelo exterior agredido, cuspido, arrastado pelo chão. Porque é que o encontramos aqui, hoje? Porque é que passamos por ele neste preciso momento, reparando nele, atraídos pelo desagradável, com um subtil masoquismo instalado no nosso olhar? O culpado óbvio seria o destino. Encaremos os factos: é uma justificação algo falível, em geral aplicada àquilo que não tem explicação. Mas não há outra melhor.
O trinado cantante da aproximação duma estação parece reanimar o rosto, masculino podemos assegurar com toda a certeza. Ergue um pouco o olhar, ainda só está em Picoas. “Porquê o ainda? Dormi durante quanto tempo?”, aqui está o que pensa, ainda toldado pelo vagar do adormecimento. O simples impulso eléctrico que percorre o cérebro ao materializar este pensamento rasga-lhe o véu de cinza que o separava do mundo. “Picoas? Porque não? Não era aqui que era suposto sair?”
A carruagem detém-se com um solavanco, ele levanta-se. Sai para a estação após atropelar meia dúzia de transeuntes inocente, dele despedindo-se com um vendaval de imprecações e comentários, num registo linguístico nada condizente com a aparência das fontes – é a mais cristalina das verdades o que o povo diz, quem vê caras não vê corações. E, perdoem-me a extrapolação, também não vê a educação.
Já sobe as escadas, passa pelas portas automáticas com um pequeno som agudo e uma luz verde a conceder autorização, levita sobre mais meia dúzia de degraus. Notem, é intrigante o espaço que abre por entre as pessoas que com ele saíram. Um espaço cavado pelo nojo que impõe uma distância de segurança entre aqueles que prezam a sua normalidade e aquele que é diferente, aquele cujo aspecto não augura nada de bom, um leproso do século XXI. Encontramo-nos sob o jugo duma ditadura inescapável, programada nas profundezas do subconsciente, obrigando-nos a rejeitar à partida tudo o que se encontra para lá das fronteiras do pequeno mundo que adjectivamos de seguro e de nosso.
Ele pouco se importa. Tanto melhor, pelo menos anda à vontade, sem sofrer os encostos e tropeços costumeiros neste contexto. Passa por debaixo duma espécie de portal para o mundo exterior, um portal de ferro torcido, decalcado dum filme dos anos 20, antigo, talvez obsoleto, mas com um certo lirismo imprimido nas letras floreadas que se conjugam para formar uma palavra – METROPOLITANO – caída em desuso e já ostracizada, aqui a relembrar a pompa de uma época onde era maravilhoso um comboio trespassar as vísceras duma cidade. Só que a pressa com que estuga o passo impede-o de reparar neste pormenor. Aliás, impede-o de reparar no que quer que seja, cresce nele uma ansiedade arrebatadora, um impulso autónomo que embota a tela de cimento e alcatrão que se vai montando diante de si.
Pára. Mesmo naquele passo de trote disfarçado é detido por um vislumbre duma mancha dum laranja pálido e doentio. Corresponde a um prédio à sua esquerda, uma enorme torre de vidro e betão. A que se deve esta paragem? Nos olhos castanhos, estranhamente perspicazes, desenha-se uma expressão de profunda nostalgia, uma recordação que ascende das criptas fechadas a cadeado da sua memória, escrita só para nós na emoção inesperada que aquece um olhar até há poucos minutos frio.
•
Não se passaram muitos anos, mas sente-os como pesados séculos em cada fibra do seu ser. Num pequeno quadrado de relva ressequida, nas traseiras daquele edifício, era um jovem despreocupado, com a vida pela frente – o típico clichet do egocentrismo púbere. Numa altura em que ainda vestia roupas limpas, em que ainda não considerava um duche um bem raro, um produto de sonhos. Deitado, a sentir nas costas o toque áspero do solo seco e no rosto o calor do sol, a embalá-lo num voo através duma torrente de divagações do seu hemisfério cerebral direito. Esperava algo. Com um pequeno esforço, relembra o encontro que tinha marcado para o final dessa tarde soalheira. Talvez ainda desse para ir a casa. Não, não vale a pena o incómodo, se bem que sejam apenas cinco ou dez minutos até ao Rato… Mas o sol entorpece-lhe os membros, embriaga-lhe o raciocínio. Prefere fechar os olhos de vez e afundar os auriculares do iPod nos ouvidos, agredindo os tímpanos com ondas contínuas de vibrações sonoras, vários decibéis acima do que seria recomendável. O sol afunda-se por detrás dos tectos informes e o firmamento pinta-se de negro, com as pinceladas duma gigante mão invisível a aplicarem demão após demão. Um negro de fumo, que engole a luz das estrelas e a sua inocência. Ela chega, esbaforida. Mais um dia de aulas, em rigor sem nenhum proveito. Magra, frágil, com uns olhos castanho-avelã deliciosamente profundos e doces. Afugenta com um gesto fluido da mão uma madeixa teimosa que caíra e que prontamente regressa ao seu local predestinado no conjunto impecavelmente penteado. Não sopra uma brisa de vento, não se ouve um som próximo deles. Estão sós numa cidade cheia. “Trouxeste?”, pergunta ele preguiçosamente, acordado pelo anúncio da chegada que se fizera ouvir no bolso direito das calças, corporizado na vibração do telemóvel. “Claro que trouxe, desta vez custou dez euros, vai ter que ser racionado” lamuria-se ela, ainda mantendo o meio-sorriso de provocação que lhe recorta junto à boca duas adoráveis covas. Um desejo lancinante percorre a espinha do rapaz, ao passo que ela prossegue a sua missão, indiferente ao intenso olhar dele. Com uma calma metódica, os dedos ensinados dissolvem uma minúscula massa disforme e castanha, pairando instantaneamente um odor forte e intoxicante que atrai ainda mais os dois corpos. Traçando movimentos precisos e seguros, os tais dedos delicados desenterram da mala uma mortalha amarrotada, a mortalha dum enterro prematuro, e formam um cigarro perfeito. A luz do isqueiro acende-se na escuridão da noite que os encerra num globo de cristal opaco, inundado pelo fumo que as bocas ainda sós exalam à vez. “O que é que estamos a fazer?”, soa uma voz. “Não sei, precisamos mesmo de saber?”, interroga a outra, em tom provocador. De quem são, pouco importa, a memória obnubila-se à medida que a lucidez foge por entre os dedos que seguram o cigarro manufacturado, que seguram os dedos do outro, que se perdem nos cabelos do outro, em carícias sobre as quais não têm poder de discernimento. O arrebatamento do beijo é o seguimento previsível após o arremesso da beata consumida para o exterior deste porto de abrigo, oculto por uma ténue neblina. A união dos dois contra o chão duro é o próximo passo numa sequência que tudo indica lógica. Onde está agora a lógica? Fugiu, fugiu com o sangue que nele se precipitou, caótico e desordenado, da cabeça para o púbis, materializando-se numa corrente quente, próxima da explosão, ansiosa por se libertar, em sintonia com a pele nua incapaz de permanecer mais tempo na prisão da roupa… Queria-se lembrar do resto, queria-se lembrar dela, mas tudo se perde no fogo em que tem ardido lentamente. Este fora o primeiro passo para o abismo. E ele recorda agora como mal conseguia esperar por dá-lo.
•
Regressa ao sítio do qual nunca saiu. O desespero fá-lo voltar, o corpo chama a mente que escapara por breves momentos para um tempo onde conhecera a felicidade. Sabe hoje que então era feliz, só hoje quando não conhece outra realidade diferente da miséria.
Acaba de descer a rua. Vira à direita, galga mais uma rua, vira outra vez, e outra vez, e mais outra. Atravessa cruzamentos sem entrada nem saída, pelo menos para ele, apenas um ir em frente cada vez mais forte. Depara-se com um beco, onde as pedras da calçada são indistinguíveis da sujidade que chuva nenhuma consegue lavar. É este o seu destino, alcançado quase sem querer, com passos independentes da sua vontade, que encontraram sozinhos o caminho já trilhado demasiadas vezes.
Uma das portas atrai-lhe a atenção. Lascada, riscada, deformada, adivinham-se nela os restos mortais da tinta de um verde lamacento, vítima dos anos descuidados. A porta atrai-o irresistivelmente, o batente de metal sussurra-lhe docemente um encantamento para o qual não tem a retórica necessária para contrariar. Bate uma vez. Silêncio. Bate segunda vez, com uma ânsia que continua a surgir não sabe donde. Talvez eu e o leitor partilhemos já uma vaga ideia, ao fim ao cabo ele é denunciado pelo suor que começa a brotar das têmporas, pelos tiques nervosos que não o deixam estar quieto mais de dois segundos, pela irritabilidade que se vem acumulando nas mãos que se contorcem no fundo dos bolsos.
A porta range ao abrir. Não podemos deixar de pasmar com a recorrência deste facto nas estórias e na história, pelos vistos nunca ninguém tem dinheiro, tempo ou mesmo paciência para colocar três gotas de óleo nas dobradiças. Surge no vão da porta uma figura curiosa, maçãs do rosto salientes, face encovada, olheiras carregadas, a roçar um perigoso ponto onde se confundiriam facilmente com rímel.
“Tu outra vez?” Que é que queres?” cospe com voz agressiva, prepotente, insinuando ser esta uma interrupção oportuna, passe claro a subjectividade inerente ao facto de ser um traficante a categorizar este momento como inoportuno, é-nos impossível descortinar que factores poderão entrar em jogo no emprego deste adjectivo. “Ouve, não me consegues arranjar mais uma dose?”
“O que é que te disse da última vez? Esta merda não é a Santa Casa da Misericórdia, só quando me pagares o que deves”, acompanha a frase a menção de fechar a porta, mas é interrompido pela surpresa de ver a sombra de homem à sua frente prostrar-se numa súplica, com os joelhos mergulhados na sarjeta. Siderado e com medo, pois só Deus sabe o que o desespero leva o ser humano a fazer, toma a única atitude que se lhe afigura racional. Arranca o revólver do seu poiso, entalado no cinto das calças, e aponta-o firmemente à massa de carne carpideira em que se transfigurara a figura obscurecida. “Ouviste-me à primeira, agora desaparece, não estou com disposição para aturar drogados”, estranha afirmação esta de quem paga as suas contas precisamente com a contribuição monetária dos visados. É certo e sabido que as relações neste estrato social não são propriamente pautadas pela ética e cordialidade.
Ele – o outro, o morto-vivo, para quê nomear seres condenados a uma existência clandestina – ergue o olhar lacrimejante para o cano da arma, para o buraco negro que se prepara para lhe sugar a vida, com o poder de dar asas à sua alma. Ele olha e ri, um riso não de coragem, mas sim de alívio, perante uma morte que seria bem-vinda, encarada de frente e abraçada como um amigo regressado após anos de exílio. Será agora a sua hora? Seria análogo à sua vida um final assim, num beco perdido no coração de Lisboa, a sua casa e a sua pátria, para o bem e para o mal.
O riso sobe uma oitava, torna-se irascível, mesmo psicótico. O traficante dá um passo atrás e fecha por fim a porta, com um estrondo que se revela insuficiente para abafar o grito que ecoa no beco. “Podes ter o meu corpo, mas não terás a minha alma”, um desafio poético reflectido nas paredes dos velhos prédios que começam a sufocá-los, apesar de ignorarem sobranceiramente a sua presença. Foi um berro atirado no último esforço dos pulmões podres e cansados, saído duma última réstia de melodramatismo duma mente que só quer uma coisa – ar fresco, sair deste buraco.
Todavia, a euforia da sorte é fugaz, dispersando-se no vento que se levanta para saudar o ocaso, brincando na sua fúria com folhas de jornal e lenços de papel, dispersos pelo chão como despojos duma sangrenta batalha, somente mais um dia na guerra quotidiana entre os homens e um mundo que aspira a ser asseado.
O que resta é um simples vogar ao sabor deste vento, uma perene deambulação, vaguear por entre rios preenchidos pelas luzes paroxísticas dos carros que passam indiferentes. Seguir os postes de iluminação entretecidos nos passeios, como se buscasse um rasto de faróis que o levem para lado nenhum.
O breu duma noite de mal-amados abate-se sobre a cidade, afasta da vista a vergonha que infecta os cantos que preferia não ter. Torna tudo igual, numa expressão utópica de democracia que confunde a pobreza e o luxo, o horrível e o belo, o apetecível e o aviltante num só quadro pintado a tinta preta. O ar seco e gélido, limpo pela chuva, é inclemente com os sem-abrigo amontoados nos passeios. Protegem-se precariamente com caixas de cartão esventradas e jornais com duas semanas, ostentando notícias já digeridas e afastadas para o esquecimento a que estão votadas.
No negrume reencontramos um vulto que já reconhecemos pelo andar arrastado e pela pronunciada curvatura das costas, Atlas moderno com um peso sobre os ombros que só ele conhece, ainda a caminhar sem destino. A respiração arquejante é denunciada pelas pequenas nuvens de ar quente, expelidas de forma intermitente e enfraquecida. A marcha forçada a que se dedicou levou-o pelo Marquês de Pombal e fê-lo subir até ao Largo do Rato. Não lhe mereceu mais do que um sorriso sardónico e um suspiro melancólico. É demasiado tarde para encontrar a redenção numa infância esquecida, numa família violada nos seus princípios e na sua honra. “Não roubarás.” Que outra hipótese tinha para suportar um vício dispendioso, a exigir cada vez mais de si? Era só mais uma dose, era sempre só mais uma dose, a última. A última antes da próxima.
Ele continuou a subir, deparamo-nos com ele a tropeçar pela rua do Sol ao Rato. Uma ascensão aos céus ou uma queda para o inferno, desconhece-se ainda qual será o desenlace. Claro que dependerá da direcção que irá tomar. A subida é trabalhosa, um sacrifício a esta hora tardia. No entanto, ele pouco sente para além da aflição e raiva da ressaca, do clamor físico do corpo por algo. Incapaz de pensar, procura uma solução de recurso alinhavada sob pressão, uma última tentativa. Uma força que não vem de si, vem do vício, sobrepondo-se ao medo e ao cansaço.
À medida que se aproxima da meta, o desassossego adquire dimensões monstruosas. Campo de Ourique não é mais do que uma mancha de ruas perpendiculares e de edifícios e moradias, elementos banais dos quais só se adivinha a forma. Chega ao fim do caminho, penetra afogueado na Maria Pia. Antigos prédios baixos, degradados no aspecto e nas memórias que guardam. Apodrecidos por dentro, uma podridão que alastra para os passeios que os delimitam.
O coração carcomido falha um batimento e desfaz-se com violência quando se atira num galope desenfreado contra a caixa torácica
A rua está vazia da colecção habitual de mortos-vivos que dela fazem a sua residência permanente. Não existe nem um dos olhares cadavéricos cujo brilho mortiço se entrevê nas portadas das janelas sem vidros. Tudo o que encontra são três carros azuis, lavados, imaculados, com um orgulho ali invulgar, contraste violento com o ambiente que os rodeia. Os carros têm, de lado, o desenho de caracteres brancos, onde o luar se reflecte. Aproxima-se e lê-os. Polícia. Uma rusga. Não… Não… Hoje não irá ter sorte, a derradeira esperança esfuma-se numa fracção de segundo, onde se condensam dias e dias dum crescendo de inquietude que culmina numa desilusão com proporções cataclísmicas. Aturdido, afasta-se a cambalear, curvado por um tremendo soco no estômago.
O mundo desaba, os alicerces desfazem-se com um trovejar audível só pelos seus ouvidos. A cabeça lateja num ritmo alucinante, a visão afunila-se num túnel desfocado. Um tremor descontrolado ateia-se nos seus membros e consome-o com uma voracidade pirética. Em delírio, amaldiçoa o Deus em que nunca acreditou, amaldiçoa a vida que lhe passou ao lado, amaldiçoa o gato preto que eriça o pelo quando passa por ele, arrogante no desprezo felino com o qual o presenteia. Um, dois passos. Encosta-se contra uma parede de pedra húmida. A força esvai-se dos músculos atrofiados. Deixa-se cair na calçada molhada, o seu leito por uma noite.
Há muito que não pensa. Que doença esta, que flagelo este que lhe rói até aos ossos a carne viciada. Isto é o niilismo absoluto, o nada onde se afunda, que o cobre como a tampa do caixão dum espírito que está pior que morto. Ao longe, batem as persianas duma qualquer janela com um estalido sonoro. É o som do fecho do caixão.
Há muito que se apagou a luz da racionalidade na sua mente, abafada pela exigência interior por alimento. Ele é um vampiro urbano. Um vampiro que se alimenta ao perfurar as próprias veias. Há muito que deixou de pensar, daí que observemos com um interesse mórbido o que se prepara para fazer. As mãos trementes e escorregadias retiram uma seringa usada e amarelada do bolso direito. Com a outra mão segura um velho atacador e envolve com ele o braço esquerdo. Aperta com força, até que se eleva na pele um padrão em M azulado, pontilhado por cicatrizes feias e mal cicatrizadas. Debruça-se sobre uma poça de água, conspurcada pelo inominável vómito da Lisboa que preferimos não conhecer, virando-lhe a cara para ver antes a sua irmã gémea falsa, singela e maquilhada, sintética e fútil.
A pele é corrompida. Uma etérea nuvem vermelha imiscui-se na seringa com a água turva, num padrão de dança líquida. Os dedos sujos empurram o êmbolo, para que o corpo receba aquela agressão suprema, uma auto-violação inexplicável. Não, desta vez não seria o destino uma justificação plausível. Estamos antes a visualizar a descida ao inferno, a quebra dum equilíbrio frágil, despedaçado pela urgência de sentir o que quer que seja.
E ele sente, mas não a descarga de sensações que pretendia, possibilitando a subida às alturas onde preferia viver sempre, sem nunca ter de tombar desse pedestal. Chora. Chora as lágrimas que nunca caíram, chora a dor desprovida de emoção, chora o seu último suspiro, num pranto fúnebre pela conclusão irreversível dum futuro anunciado mas jamais concretizado. Chora para beber o sal que lhe arde nos lábios feridos, até sentir dor é agradável quando receamos não ser capazes de sentir nada.
Subitamente algo muda, note-se a fúria que emana dos olhos raiados de sangue. Levanta-se num salto e lança um clamor sobre-humano para que o vento o leve e o espalhe por toda a atmosfera, elevando-se acima da poluição que assombra constantemente sobre a cidade: “Já chega! Bati no fundo!” E sorri tresloucadamente. Está fora de si, ainda mais do que antes nos parecera. Uma descarga de adrenalina, desprovida de qualquer motivo biológico, alastra-se pelo seu corpo, provoca um movimento irreflectido e exuberante, a tentar afastar a imundície que se cola ao seu corpo. Atira ao ar uma boa parte dos trapos que precariamente se seguravam sobre ele, num claro desafio à gravidade. Lança-se numa corrida desvairada, sem aviso prévio, descendo a Maria Pia selvaticamente, um animal selvagem perseguido pela própria cauda. De que foge ele? Dele próprio. Do seu passado. Do que fez para chegar a este ponto. De quem magoou, de quem feriu duma maneira tão atroz que não existe em nenhuma língua o vocabulário para o descrever. De tudo, e nada mais.
Para nossa estupefacção, chega a Alcântara sem uma única queda. Porém, não pára. Só o faz nas margens da avenida de Ceuta. Na sua mente lemos apenas a vontade irreprimível de encontrar ajuda, um hospital, uma clínica de reabilitação, ir à segurança social, qualquer coisa. Eis que emerge uma ideia no seio da sua loucura. Quiçá este não seja um caso perdido. Vê do outro lado da rua uma paragem de autocarro. Remexe os bolsos, tacteia o fundo gasto com dedos tacteantes, e neles encontra um punhado de moedas perdidas, as esmolas condescendentes de condutores aliviados por encontrarem um lugar de estacionamento e não por precisarem de indicações para lá colocar o carro. Precipita-se para atravessar a estrada, quem sabe se não é este o primeiro passo do início dum novo capítulo, ainda com as páginas alvas e virgens à espera de serem preenchidas por novas palavras, diferentes das que tem repetido nos últimos anos…
•
A noite lisboeta é a ébria personificação do descobrimento das sensações hedonistas. Viver rápido, à velocidade do bater das teclas dum computador, é a lei que vigora. Copos ardentes, esvaziados dum trago, na ânsia de sentir no sangue a leveza do álcool. Toques, beijos, grupos de pessoas iguais a cruzarem-se, piropos a pairar. Os acordes primitivos da música a ribombam como trovões acompanhados por luzes de mil cores, trovões multiplicados vezes sem conta sem que ninguém de facto se preocupe com isso. É mais uma noite que, desde o âmago da sua conceptualização, não tem espaço para preocupações terrenas. Tudo o que importa é o momento, o agora, o sentir, o experimentar, o tentar, o arriscar.
Bares de portas escancaradas, centenas de pessoas num movimento em dois sentidos, enchendo as ruas com um engarrafamento que não aborrece praticamente ninguém. Ninguém, excepto dois rapazes, com vinte e poucos anos. Um vocifera, espalhando a sua saliva por toda uma área diante de si. O outro exibe um semblante carregado, tentando acalmar o amigo com palavras brandas. Provavelmente uma disputa por uma namorada, uma dívida por pagar, uma rivalidade reacendida pelo calor do vinho. Inumeráveis razões para este retrato que se destaca da restante festa colectiva.
“Vá, já chega, vamos embora, não vale a pena chateares-te com isto”, o rapaz calmo conduz agora a situação para uma resolução segura e longe de eventuais decisões que certamente provocariam um profundo arrependimento à luz da manhã. O outro anui com um aceno de cabeça, ainda com os olhos enraivecidos e com a voz embargada quer pelas bebidas espirituosas ingeridas, quer pela força agressiva que ameaça rebentar dentro do seu peito.
Descem com calma, num ritmo falho, caracterizado por um ziguezague que denuncia uma alcoolemia superior ao desejável. As luzes artificiais dos candeeiros de metal derramam-se para iluminar as pedras onde pousam os pés, oferecendo-lhes a possibilidade de darem atenção ao caminho que seguem, possibilidade essa que recusam sem sequer pensar duas vezes, um ainda a remoer o fel que lhe sobe à cabeça, o outro a rezar a todos os santos para que o amigo não se volte de repente para trás e regresse para resolver a questão que o atribula recorrendo a argumentos físicos. É assim que, por entre dilemas interiores, alcançam o Cais do Sodré. A triste estátua no centro do cruzamento olha o negro cerrado do rio Tejo, evitando reparar no que se passa a seus pés. Antes não ver nada do que ver o que não se quer ver.
Dirigem-se para um carro. Novo, apenas com alguns meses, os cromados ainda reluzentes à luz tremida da luz do poste de iluminação solitário que guarda a pequena rua escondida entre armazéns pré-fabricados, dispostos numa sucessão de gémeos siameses. O rugir das águas do rio revolto prenuncia mais uma noite de mau tempo. “Despacha-te, daqui a nada começa a chover. Consegues conduzir?” a voz calma corta o silêncio que se instalara entre eles, desta vez sem o efeito apaziguador que se pretendia, dado que lhe responde um grunhido bastante maldisposto e aziago “Sim, claro. Se pensas que vais tu a conduzir, estás bem enganado. Isto foi a prenda do meu pai, não te vou agora deixar brincar com ele”. A provocação não tem resposta, o outro está já saturado e só quer chegar a casa, pouco lhe importa se forem parados pela polícia, não é ele que paga a multa. Nem tão pouco será o outro, triste sina a do mundo que pertencerá aos filhos de pais ricos sem a disposição para serem ricos pais.
A chave roda na ignição, o motor começa a trabalhar. O carro segue para a 24 de Julho, percorrendo-a sem qualquer problema digno de referência. Desfila perante ele o encerrar de mais uma noite, o lixo no chão, as bancas de fast-food, os restaurantes abertos toda a noite que anunciam em grandes letreiros luminosos caldo-verde e pão com chouriço. No final da avenida, viram à esquerda. Na viagem para Telheiras passarão ainda pela avenida de Ceuta. “Vá, vamos ver como é que isto anda” o condutor parece mais animado, o simples acto de conduzir afasta-lhe da mente as outras preocupações, é um prazer com que se deleita. 70 quilómetros por hora, 80, 90… Até que surge do nada um vulto que se atarefa a atravessar a estrada sem qualquer precaução. Travagem violenta. Os travões guincham e queimam-se com a violência do atrito. O carro não pára, ia demasiado rápido. Com um som surdo, sentem o impacto e um solavanco. Finalmente, o veículo detém a sua marcha, cem metros à frente. Cem metros de atraso que evitariam o atropelamento. “Calma, fica aqui, eu vou ver” murmura, extremamente nervoso, o rapaz que anteriormente aparentara uma calma absoluta. Demora alguns minutos, regressa em pânico “O gajo está morto, o gajo está morto” “E agora? Eu bebi meia garrafa de whisky, se faço o teste do balão ainda vou para a prisão” “Não vais nada… Fazemos assim: vamos embora, isto nunca aconteceu. O tipo é um drogado, não vale nada, ninguém vai dar pela falta dele. Não deve haver uma investigação decente nem nada do género. Se formos agora à polícia ou ficarmos aqui é que arranjamos problemas. Confia em mim, não estou em Direito para nada. Anda, arranca lá.” O motor ganha novamente vida, cuspindo vapores tossidos pelo tubo de escape. O carro arranca e acabar por ser engolido pela noite onde só vemos os contornos distantes do colossal aqueduto.
•
Ali está ele, esqueleto quebrado, pulmões vazios do pouco ar que ainda conseguiam conter, sangue a fugir por buracos maiores do que aqueles aos quais se acostumara. Observem bem leitores, analisem objectivamente este que é o mais perfeito retrato da decadência humana, exacerbada pela noite que tudo apaga, potenciada pelos defeitos que fazem de nós, de todos nós animais racionais que, ocasionalmente, sucumbem aos desejos inconscientes. A visão obnubila-se suavemente, a luz começa a fugir-lhe dos olhos e da alma. Finalmente, a morte chegou, inesperada como sempre. Reza, mas já se esquecera de como o fazer. Já é tarde para se virar para o céu, espera-o apenas o nada. Desconfia que a absolvição não era o seu destino. Por outro lado, talvez não tivesse destino, foi ele quem escolheu o seu caminho, foi ele quem escreveu a sua história, com letras de sangue e de heroína. Descansará agora, sim, poderá reencontrar o espírito que se perdera há uma vida atrás. Cerra as pálpebras da alma, adormece no doce enlevo das horas sem futuro nem propósito, na ofegante respiração do peito apertado... Ergue os olhos para o nada, e traça no céu negro a infantil e ingénua esperança criada por um sorriso perdido, por um encontro fortuito, pela quimera que quisera encontrar mas que não conhecia, pela ilusão dum estranho e irreal olhar imaginado. Às vezes julgara que o mundo inteiro não era mais do que uma enorme floresta, cheia de caminhos traiçoeiros, de encruzilhadas, de recantos obscuros, de reencontros imprevistos. O desafio era escolher o trilho certo. E talvez, com um pouco de sorte, encontrar novamente um laivo de felicidade, tropeçando na beleza dum rosto, descoberto e perdido por entre fugidios relances. Talvez o vislumbre para lá da névoa que o intoxica, para lá das sombras que o engolem. Talvez no final da estrada o encontre, do mesmo modo que o encontrara no início deste capítulo. Talvez por entre o cheiro do éter e os salpicos de sangue que lhe mancham a roupa oiça uma vez mais uma voz idealizada. Talvez...