Por vezes pergunto-me, questiono-me como será a tua vida. Rebento precocemente gerado, precocemente desflorado. Precocemente estuprado, precocemente envelhecido. Rosto cujos traços ainda não perderam a inocência duma infância roubada. Cujos traços ainda não se afundaram sob o peso dos anos, o peso dos cuidados, dos desgostos e alegrias. Tão nova. Tanta dor numa sombra tão nova.
Pergunto-me como terás sido levada nesse desengano de alma despoletado pela vontade do corpo. Que circuitos neuronais se interligaram na decisão de mudares a tua existência. Já não és só tu. Já não és uma pessoa individual, una. Sangue do teu sangue, carne da tua carne. Agora fazes parte de um nós. Agora tens de cuidar de alguém quando ainda com idade para alguém cuidar de ti.
Vejo-te nos olhos a tristeza de seres prematuramente adulta. O teu corpo, desfigurado pela gestação, despojou-se do cheiro a suor das correrias desenfreadas em recreios inominados, do aroma a eucalipto e alfazema que imagino a ladearem o caminho entre a escola e o tugúrio que adivinho pelas roupas andrajosas e desbotadas. Despojou-se da graça ingénua dos saltos de jovem gamo, dos bilhetes trocados com as amigas, dos namoros da carteira vizinha, dos segredos sussurrados e imediatamente sucedidos por risinhos incontroláveis. Pergunto-me porquê enquanto uma maré cheia de mágoa me inunda o peito. Porquê?
Observo os gestos mal medidos e incertos, o modo desajeitado com que enfrentas os rotineiros desafios da maternidade. Com mãos demasiado pequenas para tal tarefa, com mãos que deviam segurar lápis, que deviam agarrar-se a manuais de matemáticas, ciências, línguas e não a essa trouxa cor-de-rosa que pousas insegura na alcova esterilizada e alva.
Alva, branca, incaracterística, como parece ser a tua mente neste momento. Olhos sem vida, janelas para uma casa abandonada, desprovida dos planos para um devir que não virá, para um amanhã que não irá amanhecer.
Por vezes pergunto-me, questiono-me em que pensavas há nove meses. Que sonhos tinhas, que ambições guardavas no teu punho cerrado. Se é que os tinhas. Se este vasto mundo para onde somos arremessados, meio cegos, meio desorientados, tinha para ti o apelo da descoberta, da aventura. Se no âmago da tua imaturidade natural equacionavas um futuro. Se olhavas o horizonte e te perguntavas se o podias alcançar, se as tuas passadas de menina algum dia te conduziriam a uma vida diferente da banalidade mórbida.
Divago. Provavelmente nunca tal conjuntura de reflexões se atreveu a cruzar os teus pensamentos. Provavelmente vivias na anestesia da ignorância, absolvida do ónus da decisão. Talvez assim seja melhor, não terás de te voltar e revoltar nos lençóis durante as longas noites de insónia, com a vista marejada pelo fel do passado. Noites que guardam sigilosamente as recriminações pelo que poderia ter sido e não foi.
Não obstante, sinto pena de ti. Quiçá sinta pena por ti. Nunca o saberei. No seio do meu inconformismo moderado compreendo a impossibilidade de alguma vez vir a saber que destino foi o teu, que vida será a tua. Alma de criança em corpo de mulher. Que não o deveria ser. Com uma faca trespassada nas suas esperanças. Pergunto-me, questiono-me se alguma vez a irás arrancar para dela te rires. Para limpares com os dedos mal tratados o olhar obnubilado, toldado pelo infortúnio e erguê-lo ao céu. Para reaprenderes a caminhar e reencontrar a estrada que se vedou. Ela continua no seu sítio, tranquilamente à espera de ser percorrida.