domingo, 28 de fevereiro de 2010
Desarmonia poética
ressoa constantemente nos meus ouvidos,
reflecte-se nas águas da raiva contida
onde vejo os teus murmúrios perdidos.
Sou uma mera folha de papel,
a vogar ao sabor das marés,
aguardando pelo vento cruel...
Imerso nos devaneios hiperactivos,
provocados por infinitos cafés
engolidos num só trago
apenas p'ra manter os sentidos vivos,
apenas p'ra não me afogar no lago
sem fundo que criei na loucura
de me agarrar à miragem
formada pelo fumo que se enovela
diante do teu olhar de censura,
pronto para me levar numa viagem...
Um fumo que projecto na cancela
que fecha a solitária e triste
metaforização do ser
que a cada instante persiste
na mui nobre missão
de espezinhar e enterrar
os restos da parca razão
que ainda flutuam no meu mar.
Sinto o amargo travo
do próximo beijo
algures entre o desejo
e a mágoa com que lavo
as lágrimas caídas na dor
de longos anos de oco rancor,
nos quais sonhei contigo,
sem conhecer o rosto que persigo,
o ideal que talvez nunca alcance
pois talvez já não exista romance.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Nascer em solo estéril
O pó abrasador e agressivo apodera-se da cidade, das ruas, das parcas pessoas que procuram desesperadamente um abrigo, um recanto nos escombros onde consigam salvar o único bem que lhes resta, a vida.
Rostos sem nome não passam de manchas sujas e carregadas de dor, nódoas de sangue seco são banais nas roupas, na pele de tez fortemente morena, queimada pelo sol impiedoso neste canto amaldiçoado do globo.
Somente se ouvem gemidos e orações atiradas para o céu por vozes carregadas de rancor, de recriminação contra um Allah que parece desviar o olhar para longe – quem sabe se hoje estará mais interessado em benzer os petrodólares do Golfo Pérsico... -, sons que são engolidos pelo constante trovejar das bombas, que teimam em castigar esta cidade feita em ruínas.
Subitamente, algo se move. Observamos com curiosidade um vulto perdido na poeira, que se precipita por uma rua anónima. É um jovem, aparenta pouco mais de 20 anos, semelhante a tantos outros que, como ele, têm o azar de viver na Faixa de Gaza, de serem muçulmanos, de terem de seguir o sonho (ou pesadelo...) de um estado palestiniano... Porém, este é diferente. Não está armado. Não está ferido. Não está embriagado por delírios fundamentalistas. Apenas foge, tentando evitar as bombas, que caem do céu como gotas de água num dia de chuva. Por isso, por esta peculiaridade, sabemos o nome dele. Mehmet – órfão de mãe e filho de um humilde curtidor de peles, ou assim o fora o seu pai antes de um engenho israelita destruir o mercado onde pacatamente trabalhava, há duas semanas, se tanto... Realmente, é incrível como a vida de alguém pode mudar tanto em tão pouco tempo.
Mas Mehmet não luta contra os judeus, não lança rockets para o outro lado da fronteira. Limita-se a sobreviver, tarefa árdua nos dias que correm, e aguarda por um futuro melhor, recusando-se a culpar cegamente um inimigo imposto e a entrar numa Intifada alimentada pela raiva e não pela fé. Mehmet é um indivíduo que sabe o que quer – viver – e que tenta alcançar o seu objectivo pensando racionalmente – o que, parecendo que não, é algo cada vez mais escasso no mundo actual.
Vamos segui-lo. Num passo de corrida, salta por cima das pedras do edifício destroçado que se ergue a seu lado e abriga-se por trás de um monte de mobília, tijolo e metal, de memórias de uma qualquer família que, quem sabe, já ali fora feliz.
O que irás fazer, Mehmet? Nem ele o sabe, qualquer plano é demasiado frágil perante a incerteza de um conflito armado, da violência e ódio humanos, da ameaça iminente de morte que paira sobre as milhares de almas encurraladas numa faixa de terra árida flagelada dia após dia, ano após ano.
Inspira. Expira. Acalma-se o espírito e o corpo. Mehmet encosta a cabeça e raciocina no passo seguinte a dar, pondera prós e contras e conclui que continuar a fugir como um animal acossado, à imagem do que tem feito ao longo das duas últimas semanas, não é solução.
E o que o poderá ser? Jamais se irá alistar no braço armado do Hamas, uma opção para ele descabida e eliminada à nascença – esta guerra é demasiado incompreensível para merecer o seu sacrifício. A família está morta ou em parte incerta – logo, não é plausível tentar uma busca cega por cidades e aldeias a ferro e fogo. As portas parecem estar todas fechadas, quem sabe se rezar terá algum efeito...
O cascalho que cobre o chão refulge em tons laranjas, ocres e dourados, inflamado pelo sol que se põe magnificamente, banhando a miséria humana com os últimos raios de luz do dia. O astro finalmente mergulha no horizonte, indiferente a tudo o que sucede neste pequeno planeta, insignificante na vastidão do firmamento.
A Cidade de Gaza é varrida por um vento de Leste, que traz consigo os murmúrios longínquos do silêncio do Deserto de Negev, das suas escarpas montanhosas e das suas planícies de marga. A aragem impiedosa estica os seus dedos tacteantes por entre becos e ruelas, pelas frestas das portas desfeitas, pelos buracos que cobrem as paredes. Mehmet acorda, em sobressalto. Havia adormecido de cansaço, extenuado pelo esforço constante de não morrer e pela fome que lhe atormentava o estômago e a mente. Ainda assim, sentia-se estranhamente com mais forças, revigorado pela decisão que o sono tomara por ele. Ergue-se, estica os membros e saiu do seu refúgio improvisado – vai procurar comida, água e, quiçá, um futuro.
Enquanto a luminosidade de mais um longo dia se esgota, Mehmet estuga o passo ao descer aquilo que outrora fora uma avenida. Já não passa de um vulto na penumbra, como podemos constatar na noite que caiu repentinamente, cobrindo as ruas da cidade com um véu negro, com uma mortalha enlutada.
Não nos podemos distrair, caso contrário perderemos de vista o jovem palestiniano. Lá está ele, ali à frente, facilmente reconhecível pelas roupagens esfarrapadas que lhe cobrem o corpo, pelo ar andrajoso que apresenta, pela pressa de quem tem o mundo inteiro a persegui-lo – reflectindo bem, talvez não seja assim tão singular, tão inconfundível na escuridão: Mehmet representa um povo, representa os oprimidos, representa aqueles que não passam de números nos manuais de História.
Todavia, ao olharmos atentamente para a sua expressão, vislumbramos um brilho nos olhos, reflexo da perseverança, da teimosia de viver, do facto de ter escolhido o seu destino, uma escolha que ganha força a cada passada. Nada o prende a Gaza, logo irá, esquecerá, enterrará o passado – recomeçar de novo, longe da guerra, é a aspiração que o impele a sair dali. Primeiro, a Jordânia – depois, quem sabe, o mundo é vasto, até mesmo para quem gosta de o apelidar de pequeno...
Um assobio prolongado, crescente, corta a noite, rasga o silêncio. Mehmet, imerso nos seus pensamentos, esqueceu-se de que ainda estava onde não devia estar – e a surpresa chocante provocada por aquele som anti-natura acelera-lhe o batimento cardíaco, cria uma camada de suor frio que lhe cobre a pele. Refúgio. Algo. Agora... Uma explosão. Estilhaços. Pedras soltas. Calma... Novo assobio, nova explosão, mas mais distante. Um suspiro de alívio escapa-lhe do peito, ainda não foi desta...
Olhando o céu estrelado, Mehmet encosta-se ao pedaço de parede atrás do qual se protegera, enquanto respira profunda e compassadamente – nisto, ouve um gemido, um lamento choroso, um murmúrio abafado de dor e de raiva.
Ele ergue-se lentamente e segue aquele som débil, com grandes cautelas. Desviando-se de vigas de ferro e de pedaços de madeira disformes, sente cada vez mais perto a presença de alguém. Entra no que se assemelhava a uma diminuta arrecadação, agora desprovida de tecto e de grande parte das paredes, e estuda o local por breves instantes – visto que, imediatamente, identifica a fonte do som, um pequeno aglomerado de trapos escuros que se denuncia através de um choro débil e dos movimentos involuntários de soluços repletos de desespero.
Aproximando-se pé ante pé, sem brusquidão, Mehmet chega junto dos farrapos e toca-lhes ao de leve. Um olhar responde ao gesto, através da abertura de uma burka suja e rasgada – e ambos, desconhecidos, perdidos no desastre humanitário de Gaza, encontram-se com aquele olhar trocado, um olhar que lança uma faísca incendiária em dois corações sós. Mehmet sente o estômago a afundar-se, o peito a apertar-se, a alma fulminada – e tudo por causa daqueles olhos verdes cor-de-azeitona que descobre no meio do fim do seu mundo.
“Como te chamas?” - não consegue verbalizar mais nada e só a custo os seus lábios formam a pergunta.
“Pashirwa” - a voz dela soa fraca, como se viajasse desde as entranhas da terra – contudo, é clara, melodiosa, cristalina como um regato virgem a brotar numa serra verdejante. É um som com o poder de destruir muralhas, mover montanhas, deter rios – e de aprisionar corações incautos, como o de Mehmet
Com dedos trémulos, ele esquece a guerra, a morte, o Islão, todas as regras e protocolos que haviam controlado cada momento da sua existência, e retira cuidadosamente a burka dela. Ela não oferece resistência, não por estar demasiado fraca ou indignada, não por se conformar ou rebaixar diante de uma figura masculina, mas sim por também ela se deixar enlevar no encantamento que lhe suscita aquele jovem alto, surgido do fumo e do negrume, e que aparenta ser um profeta, enviado por Allah para lhe mostrar o caminho para a salvação, protegendo-a do mal que parece caminhar lado a lado com os homens em Gaza.
Mehmet sente uma vertigem, o chão a fugir-lhe de debaixo dos pés, a paixão a apoderar-se dos seus sentidos – nada pensa. Nada é racional. Nada existe, apenas aquele incontrolável instinto que o incita a aproximar, gradualmente, como o encher de uma maré que se apodera das areias da ilha isolada que ele é, o seu rosto do dela, a admirar cada fino traço da sua pele na flor da juventude, a experimentar cada movimento da sua respiração acelerada pela emoção, a beijar os lábios doces e ternos numa explosão de euforia e amor, a prender o seu corpo novamente aquecido por aquela torrente de sentimentos estranhamente recíprocos...
Olham-se no âmago um do outro quando se soltam e compreendem o quão intrínseca é a natureza daquela paixão súbita. Vêem a alma um do outro inflamada por um ardor tão inacreditável como natural.
“Foge comigo. Vem. A Jordânia não fica longe, e é mais seguro do que isto.”
“Não sei quem és, nem de onde vens. Mas irei, nada me prende aqui.”
E beijam-se outra vez, desta feita tomados pela certeza de que cumpriam um destino que lhes fora traçado, seguindo um desígnio perfeito que unira duas almas gémeas naquele ermo recôndito, absorvendo-se na ânsia de viverem, sentirem, aproveitando cada átomo daquela felicidade pura.
Foi assim que 10 soldados israelitas os encontraram. Ludibriados pela noite de lua nova que tudo ocultava e cegos pelas ordens e instruções de Tel-Aviv, impessoais e orientadas por meros boatos. Foi assim que aqueles cruzados do século XXI entraram no que pensaram ser o esconderijo da entrada de um dos bunkers terroristas. Foi assim que penetraram sorrateiramente naquela minúscula despensa e dispararam mal Mehmet, arrancando-se dos braços de Pashirwa, se levantou de um torpor de gozo absoluto e tentou perguntar-lhes o que queriam – desafortunadamente em árabe...
Foi assim que Mehmet sentiu as balas a entrarem-lhe no corpo. Foi assim que ele experimentou a frieza cruel do metal a abrir caminho no seu peito – ainda há momentos atrás cheio de esperança, agora vazio de ar, de sangue...de vida. Foi assim que ele a sentiu fugir-lhe, virar-lhe as costas. Foi assim que ele viu a Morte a aproximar-se irresistivelmente, inequivocamente.
“Não!” - Pashirwa grita toda a sua dor naquele instante, cara inundada por lágrimas, mente afogada na loucura. Mas Mehmet tomba, enquanto repousa o olhar já exangue nos olhos verdes dela. Os tiros já pararam, sustidos pela noção do erro irremediável, pela compreensão do horror do que fora feito, pela consciência que agora carrega o peso do assassinato de um inocente.
Nada disso interessa já a Mehmet – ele sabe que o fim está próximo, demasiado próximo. Um último pensamento rasga-lhe a mente - “Pelo menos ela não morreu” - e pousa a cabeça no chão ensopado de sangue, preparado para descansar de uma curta vida de provações, reanimada e destruída num intervalo de segundos. Ah, mas foram os melhores da vida dele. “Amo-te” - escapam-se-lhe dos lábios as suas últimas palavras, ainda ciente de ter salvo a vida a Pashirwa ao ter chamado a si as atenções das armas. Finalmente, por entre a cascata de lágrimas que lhe banha a face, Mehmet lança o último sopro de ar.
Delírio ébrio
É só isso que te peço.
Em cada palavra friso
a queda na qual por nada
me prendo, me interesso,
o significado que não mereço,
a dor de estar à tua frente
e saber que não te esqueço,
a dor de me sentar dormente
na cama dos meus medos
envolta pelos segredos
que enlutam cada reflexão,
que mancham a inspiração,
que abrandam o compasso
dum decrépito coração...
Já não sei o que faço...
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Mais uma manhã fria
como no meio da multidão.
A garganta bloqueada por um nó
que me rouba a respiração,
que me deixa sem ar
imerso no isolamento
de quem se deixa ficar,
de quem já não é capaz de levantar
a voz num sussurrado lamento.
Tremo na hipotermia
que me causa a tua ausência,
perseguido pelas sombras que temia
acordar nos cantos da inconsciência.
Vejo a noite após o dia
cobrir-me o coração de geada,
apertado pela névoa fria
duma esperança cheia de nada.
Ah,
Que vida é a minha?
Que dura realidade...
Que dura mágoa que caminha
de mão dada com a sobriedade...
Tudo esquecer, tudo perder,
deixar o vento levar
a dor de não te ver,
a revolta de não te beijar.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
"Soneto" do Sono Desperdiçado
da queda displiscente
provocada pelo ar demente
desta frígida cidade
Ergo o olhar para longe,
para lá do fogo rubro
do enterro do dia em que descubro
a morte no hábito dum monge.
Mil rostos passam por mim
enquanto a tristeza me inunda,
numa maré sem fim
Sentado numa rua imunda
penso no nada e rio-me do sim
que espero na noite moribunda.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Tantas vezes
Todas as vezes que sorris,
Que iluminas o mundo,
Tornando-o um pouco mais feliz,
Nem que seja por um segundo
Todas as vezes que rasgas a escuridão
Duma noite infindável
Apenas com o toque da tua mão
Numa ternura insuportável.
Todas as vezes que mostras o caminho
Com o brilho do teu olhar
Com um clarão que me deixa sozinho,
Sem forças para andar.
Todas as vezes que te ouço acariciar,
Com o simples tom da tua voz
A incapacidade crónica de respirar,
De me desembaraçar destes nós.
Todas as vezes que te vejo desinteressada,
Com aquela leveza na alma
De quem não pode ser tocada
De quem nunca perde a calma
Todas as vezes,
Aquela vez...
Merda, caí outra vez
na reles estupidez...
Será que a vês?
Pois, mais ninguém o fez...
Aquela vez...
Todas as vezes…
E todas, sem excepção,
Deixam no coração
Uma marca inapagável,
Um fardo incomportável,
Uma vã memória,
Uma triste história,
Sem um final feliz previsível,
Apenas o fantasma invisível
Do sonho acordado
De reescrever o passado,
De o reviver no presente
Apenas para satisfazer
O desejo dormente
De me libertar
Da tendência para sofrer
E de arrancar
Do meu espírito ferido
A fútil melancolia…
… do que já devia ter sido esquecido
Daquilo de que tento fugir
Somente para, numa triste ironia,
Num novo abismo cair.
Mundo tudo menos perfeito
O sopro da tua alma
é tudo o que eu preciso.
A respiração calma.
A doçura de um sorriso
partilhado num olhar
de pesar e tristeza...
Ah, como me libertar
da prisão da tua beleza,
como sair deste sonho
demasiado irreal, surreal,
onde mesmo assim ponho
a esperança em algo ideal.
Porém, o mundo chama -
a realidade é irresistível,
nela me enterro na lama
da miséria humana e risível,
do caos sem nexo
que nos orienta a mente,
ordena cada acto reflexo
do nosso espírito demente.
Dá-me lume.
Chega-te a mim.
Deixa o teu perfume
precipitar o meu fim.
E deixa que a leve intoxicação
de sentir no meu rosto
o toque quente da tua mão
me lave de todo o desgosto,
me cure da amargura
que teima em me adormecer
numa sociedade de clausura...
Quero gritar. Quero viver...
de me guardares junto do teu coração.]