terça-feira, 29 de junho de 2010

Crise existencial documentada #9 (ou "Cartas do Bairro Alto")

Os estores escancarados
são fraca barreira
contra os raios desgarrados
da inevitabilidade soalheira
duma manhã de verão,
rescaldo da desgraça
da fraqueza que me ameaça,
dotada duma incandescência
que exacerba a indisposição,
consequência óbvia da ciência
delicada e exacta
dos vapores alcoólicos
das chamas inebriantes
duma alquimia ingrata,
religião dos melancólicos,
vício dos errantes.
Vomito estas palavras
na aflição de delas me libertar
de curar patologias macabras
que destroem o acreditar,
se é que alguma vez existiu
algures entre a crença
e a sombra imensa
que no amanhã me engoliu.

São nove e dezanove,
as lanternas anciãs
derramam uma luz que me move
através de ruas pseudo-irmãs,
anónimas nas placas trepidantes,
íntimas nos contornos cortantes,
pelas quais deslizo
elevado por uma alegria
desprovida de juízo,
em que todo o corpo recria
a despreocupação infantil
dos anos esquecidos,
enterrados pelo ardil
de modernos sonhos caídos...
Esgotado por esta dor de pensar,
não tenho forças para procurar
o alívio pelo qual o meu ser almeja,
escondido na espuma duma cerveja.

Batem as doze badaladas,
num longínquo antro,
trazendo cada uma vozes abafadas
pelo vago e etéreo manto
que paira sobre a frigidez
da calçada pintada com o rímel
de sombras desenhadas pela altivez
de agarrar com a mão falível
uma garrafa destinada ao esquecimento,
uma noite na qual recuso
a lógica que continuamente rebento
com a irracionalidade de ser obtuso...
Oiço o murmúrio fadista
(Não ouves o mundo a adormecer?)
que desconhecia possuir,
que acentua o esgar fatalista
de quem viu mais do que tinha para ver,
de quem já não sabe para onde ir.

Olho para o relógio em busca dum rumo,
é uma e meia, desfocada
pelas cinzas do fumo
que se ergue na minha derrocada,
que docemente me deita no chão
à espera dum falso milagre
que me ressuscite da maldição
de não tirar este gosto acre
da boca queimada pelo arrependimento
de tomar por garantido
o êxtase do imaturo alento,
ganho ao encontrar um refúgio
para o tormento empedernido
pela segurança do subterfúgio
de tudo conseguir camuflar...
Nos estilhaços dum copo partido,
nas rotações dum disco de vinil,
(Não ouves o mundo a suspirar?)
nas costuras duma velha capa,
empoeirada pela atitude senil
de traçar o futuro num mapa
apenas para o deixar voar
nas ondas dum intempestivo mar.

O que cuspo sem pensar
pela minha boca embriagada,
no incógnito tempo da madrugada
donde já não sei regressar,
são as frases que não consigo
guardar na decrépita arrecadação
da desarrumada vida em que prossigo
a gradual rota da auto-destruição...
Não distingues o ultraje
de ser um infeliz actor
sem arte para envergar
a artificialidade dum traje
que me ensine como quebrar
este silêncio constrangedor?

Esta é uma cruel carta,
registo escrito da ironia farta,
da paranóica marca indelével
de escutar a solidão muda
da distância terrível
que tento ultrapassar
com a futilidade desnuda
de mediocremente condensar,
num estranho código morse
que nem eu próprio sei ler,
o medo que distorce
a tentativa de não desfalecer
perante o esforço eremita
de simplesmente não querer saber
e fechar as pálpebras, de me abstrair
do presente que não evita
a evocação dum passado
a que já não sei resistir,
mesmo que seja errado
cobrir o meu olhar receoso
com o discurso inebriado
de quem se senta nos degraus encardidos
deste ridículo beco andrajoso,
cemitério de cigarros seduzidos...
Aqui, neste local, o meu espírito fuma,
reflecte sobre a sua arrogância,
pois mais duro do que viver na ignorância,
apenas vogar na ténue bruma
que lhe recorda a ternura do teu sorriso distante,
luz que ilumina o caminho em que me perco,
fogo que arde no coração petulante,
preso no peito que rudemente cerco
com a mágoa dum soluçar arquejante.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

"Soneto" da Fuga

Senta-te a meu lado
apenas por um momento -
abandona-te ao esquecimento
do que é certo ou errado.

Eu sei que te vais embora,
que num instante me vais esquecer -
dá-me um segundo do teu ser,
deixa-me sentir algo agora.

Como é doce a imaginação
dum miserável sem juízo
nem esperança no coração...

Pois é triste o que idealizo -
não há barcos gregos com a compaixão
de me levar p'ra longe do teu sorriso.

"Soneto" da Depressão

O leve frio nocturno
é dominado pelo brilho do luar
reflectido na indefinição do olhar
que acentua o desespero soturno.

Não sei se contrarie a razão,
ou se vire as costas para fugir,
se te tente fazer sorrir
ou se caia inanimado no chão.

Assim, observo com amargura
como é alvo dum total desprezo
os traços duma triste figura...

Apaga-se o que esteve aceso.
Perco a esperança numa cura.
Reduzo-me ao cru menosprezo.

"Soneto" da Prisão

A marca em altivos ramos
do brilho da lua cheia...
A brisa fresca que nos rodeia
enquanto no ar nos encontramos....

Os rostos sem nome da plateia
que assiste à peça que protagonizamos...
Os momentos nos quais desesperamos
com o controlo duma subtil teia...

Uma teia que teima em me prender,
em me cortar a respiração,
em me mergulhar na doçura de sofrer.

Uma teia urdida com fios de solidão
que torna cada fibra do meu ser
ansiosa pelo toque da tua mão.

Desabafo sem sentido

A noite cai lentamente como um lençol de negrume, lançado sobre o mundo apenas para cobrir, esconder o desespero que enruga mil rostos sem nome, sem rumo, sem história...
Recosto-me no cadeirão da minha indiferença, olhando angustiado o enterro de mais um dia banal, sublinhado pelo fogo-de-artifício rubro e flamejante que me enleva nos braços dos uivos do vento para longe daqui, para longe de tudo, para lá da realidade, onde relembro cada instante, cada momento - onde sinto a doçura dos suspiros perdidos, a beleza dos olhares suspensos, a memória das notas comuns pertencente a músicas intemporais partilhadas no desconhecimento mútuo.
O mundo prossegue a sua marcha lenta, numa fuga para frente infindável, na tentativa de fugir de um passado ao qual me agarro teimosamente, na vã esperança de reviver oportunidades falhadas... É triste quando tudo o que temos na nossa mente são as meras reminiscências do que já teve significado no nosso íntimo, mas que para os outros não são mais do que vírgulas sem particular relevância.
Abro os olhos para a realidade do meu quarto, surrealmente normal, apercebendo-me do tempo desperdiçado em divagações fúteis, em esperanças destinadas ao desespero... O vento atira-se contra a janela insistentemente, o relógio prossegue o seu compasso imperecível, o silêncio ensurdece-me, a alma foge do meu controlo, o coração bate desenfreadamente numa taquicardia crescente, o medo do amanhã que chegará gela-me, paralisa-me num pânico sem precedentes - mas quem sabe o que ele reserva... Talvez a felicidade, talvez o abismo... Talvez...

sábado, 12 de junho de 2010

Crise existencial documentada #8 (ou "Cartas do Oriente")

Vê o céu cinzento,
este tom melancólico
com o qual alimento
o desespero melódico
duma manhã insípida
em que observo com desprezo
as páginas da renhida
luta entre o ódio aceso
e a obrigação de p'ra elas olhar,
mesmo se molhadas pelas gotas
que escavam no meu semblante
a angústia de esperar,
de me prender nas reflexões rotas,
traços indeléveis da inquietante
falta absoluta de significado
da lenta marcha dos ponteiros
num ritmo perfeitamente sincronizado
com os tremores brutais
que me conquistam, grosseiros,
até eu não aguentar mais.

Vê as grossas bátegas
que se precipitam das nuvens escuras,
violentas, ávidas, sôfregas,
setas que apagam as puras
memórias que guardo na mão,
que se esvaem como areia
numa corrente contínua, sem direcção,
(Ritmo funerário da minha respiração)
num tormento sem panaceia...
Cheiro a revolta
de não resistir
a este sufoco que volta
e continua a sorrir
duma incompreensível
e dilacerante impaciência,
dum esforço risível
para não entrar em falência.

Anelo pelos passos
dados na curta espera
pelas cruéis carruagens,
aglomerados de ferros e aços,
arautos da cega e sincera
raiva contra as margens
deste rio de metal e madeira
onde planeio a última resistência
contra a inevitabilidade da despedida,
contra a tristeza duma terça-feira
enlutada pela senescência
da minha reanimada vida
(Perdoa-me mais um clichet,
a inspiração abandonou-me, não se lê?)

Adivinho no vento de oriente
o toque dos teus lábios,
refúgios da minha alma doente,
desenhos doces e sábios
feitos com a mestria
do longínquo dia
em que a própria perfeição
caminhou entre os mortais
p'ra criar algo para o qual não
estava preparado...
Caminho inconsciente junto ao cais,
piso o passeio empedrado
na indiferença dum suspiro alheado,
e ligo o piloto automático,
só assim sei ser pragmático
o suficiente para encarar
o aumento exponencial
da distância inexorável
(Costelas partidas p'ra não gritar)
que me esmurra num real
e terrível despertar
para um destino intratável,
para um fado caprichoso,
com um propósito que tento entender
mas que apenas se revela tortuoso
(Lágrimas caídas p'ra não morrer).

Onde estás?
Para lá dos montes,
quiçá onde jaz
o meu espírito,
afogado nas fontes
onde futilmente evito
as saudades
que por ti sinto,
imerso nas atrocidades
da insegurança senil
de encher mais um copo com
a leveza duma bruma febril
onde não se ouve um som,
onde não me reconheço,
onde fico preso,
pés colados ao chão...
Um inebriado sonâmbulo
desassombrado na especulação
onde somente deambulo,
adivinhando o preâmbulo
do calor que engulo
p'ra evitar a hipotermia
duma lancinante tristeza
que me impede de relembrar
o rosto que me sorria,
a minha última defesa
contra sonhos que não posso sonhar,
contra pensamentos a que não posso ceder...
Desculpa, disse demais, talvez sem querer,
talvez simplesmente por não o ter,
se é que existe alguém
que possa dizer que o tem -
de certeza que não é quem
tudo aposta nas cinzas duma nuvem.