sábado, 12 de junho de 2010

Crise existencial documentada #8 (ou "Cartas do Oriente")

Vê o céu cinzento,
este tom melancólico
com o qual alimento
o desespero melódico
duma manhã insípida
em que observo com desprezo
as páginas da renhida
luta entre o ódio aceso
e a obrigação de p'ra elas olhar,
mesmo se molhadas pelas gotas
que escavam no meu semblante
a angústia de esperar,
de me prender nas reflexões rotas,
traços indeléveis da inquietante
falta absoluta de significado
da lenta marcha dos ponteiros
num ritmo perfeitamente sincronizado
com os tremores brutais
que me conquistam, grosseiros,
até eu não aguentar mais.

Vê as grossas bátegas
que se precipitam das nuvens escuras,
violentas, ávidas, sôfregas,
setas que apagam as puras
memórias que guardo na mão,
que se esvaem como areia
numa corrente contínua, sem direcção,
(Ritmo funerário da minha respiração)
num tormento sem panaceia...
Cheiro a revolta
de não resistir
a este sufoco que volta
e continua a sorrir
duma incompreensível
e dilacerante impaciência,
dum esforço risível
para não entrar em falência.

Anelo pelos passos
dados na curta espera
pelas cruéis carruagens,
aglomerados de ferros e aços,
arautos da cega e sincera
raiva contra as margens
deste rio de metal e madeira
onde planeio a última resistência
contra a inevitabilidade da despedida,
contra a tristeza duma terça-feira
enlutada pela senescência
da minha reanimada vida
(Perdoa-me mais um clichet,
a inspiração abandonou-me, não se lê?)

Adivinho no vento de oriente
o toque dos teus lábios,
refúgios da minha alma doente,
desenhos doces e sábios
feitos com a mestria
do longínquo dia
em que a própria perfeição
caminhou entre os mortais
p'ra criar algo para o qual não
estava preparado...
Caminho inconsciente junto ao cais,
piso o passeio empedrado
na indiferença dum suspiro alheado,
e ligo o piloto automático,
só assim sei ser pragmático
o suficiente para encarar
o aumento exponencial
da distância inexorável
(Costelas partidas p'ra não gritar)
que me esmurra num real
e terrível despertar
para um destino intratável,
para um fado caprichoso,
com um propósito que tento entender
mas que apenas se revela tortuoso
(Lágrimas caídas p'ra não morrer).

Onde estás?
Para lá dos montes,
quiçá onde jaz
o meu espírito,
afogado nas fontes
onde futilmente evito
as saudades
que por ti sinto,
imerso nas atrocidades
da insegurança senil
de encher mais um copo com
a leveza duma bruma febril
onde não se ouve um som,
onde não me reconheço,
onde fico preso,
pés colados ao chão...
Um inebriado sonâmbulo
desassombrado na especulação
onde somente deambulo,
adivinhando o preâmbulo
do calor que engulo
p'ra evitar a hipotermia
duma lancinante tristeza
que me impede de relembrar
o rosto que me sorria,
a minha última defesa
contra sonhos que não posso sonhar,
contra pensamentos a que não posso ceder...
Desculpa, disse demais, talvez sem querer,
talvez simplesmente por não o ter,
se é que existe alguém
que possa dizer que o tem -
de certeza que não é quem
tudo aposta nas cinzas duma nuvem.

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