sábado, 30 de novembro de 2013

Folha Solta #10

O sonho é uma droga potente - embala-nos na obnubilação crente, embota-nos docemente os sentidos, prende-nos num abraço reconfortante ao qual deixamos de saber fugir. A realidade é o antídoto que nos acorda violentamente.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Ensaio sobre a vida

A noite beija o dia numa explosão de sensualidade, apenas possível graças ao véu molhado que cobre a indefinição em que ambos se abraçam. O mundo está parado, num momento raro de contemplação. Parado numa profunda inspiração antes dum inevitável mergulho, que se antevê desesperado e sem retorno.

Permitam-me a veleidade de pousar o olhar numa figura indistinta ao longe... Aproximemo-nos, pé ante pé, desta sombra prostrada pelo cansaço da realidade, num esforço retórico para se manter acordado. O céu veste-se num tom de cinzento carregado, inusitada escolha para um dia perdido nos meados de Novembro, altura curiosa, dado que nunca se percebe muito bem em que ritmo louco anda o tempo. Nunca se percebe muito bem se hoje é hoje ou se já é amanhã. Nunca se percebe muito bem qual o dia da semana em que estamos - mas também, para quê? Não somos escravos das datas, das horas, dos minutos, durante os longos meses de exílio, enclausurados, oprimidos pelas obrigações que nos extraem quaisquer réstias de inspiração, nos chupam até ao tutano com a raiva de nos submeter à sua vontade? Afinal o que somos para lá daquilo que fazemos? Ao fim ao cabo, só podemos conhecer alguém através das suas acções, no sentido lato da palavra - o que diz, o que faz, o que escreve... Só a partir daí podemos deduzir o que alguém pensa, o que sente, o que sufoca dentro de si.

Daí que dedique a minha atenção a este ser, isolado na varanda do seu desassossego, algures numa outra dimensão ou então apenas num recanto qualquer do nosso pequeno vasto mundo. Num óbvio sinal de delírio, ou simplesmente de egocentrismo, vou arrogantemente mascarar-me de omnisciente e tentar desvendar o que ele (pois é dum ele que se trata) resguarda dentro de si do vento frio e cortante que agora se levanta e do sono que se apodera dele, paulatinamente, obedecendo ao compasso das gotas de água que, numa cadência repetitiva, o embalam num entorpecimento assaz estranho e agradável.

Ele é um vulto dum passado recente, ele é alguém que se perde nos pensamentos que o afundam num pânico sem precedentes. Ele é um pobre desgarrado, ele é alguém que se deixa confundir pelos labirínticos pântanos onde é obrigado a tentar encontrar um caminho, um trilho para a promessa que se esconde na bruma que domina o seu horizonte. O que é ele? O que está aqui a fazer? Nem ele sabe. Duvido que alguém saiba.

Olho pelos olhos dele, partilho a sua visão deturpada pelo progressivo cerrar das pálpebras. Vejo as gotas de água num equilíbrio de ballet sobre as folhas dum limoeiro, retorcido pelas intempéries, desfigurado pelos nós da madeira velha e ainda assim resistente. Vejo um regato a precipitar-se, numa pressa eterna, por entre os seixos que os anos tornaram lisos e polidos, obras de joalharia engendradas pelo líquido cristalino que com ele traz um rumor da pureza das nascentes que brotam dum seio de granito. Vejo montes imponentes, sob um capuz de anciãs árvores numa paz inquebrável, enquanto farrapos de névoa tacteante se retiram para o refúgio da atmosfera. Vejo o balir das ovelhas que pastam, inocentes e desdenhosas do universo de carros, máquinas, fumo - só os tufos de erva viçosa e tenra lhes interessam, descobertos por entre as colunas de pedra que sustentam vinhas plantadas pelos avós dos avós dos donos, colunas que se erguem como memoriais da simbiose entre a Natureza e o Homem. Vejo uma rara alegria, uma alegria que aquece uma alma enregelada pelos cuidados, pelas preocupações, pelo cansaço de não viver, uma alegria que não via há muito tempo, há demasiado tempo. Vejo a cristalina e quase infantil alegria de sarar a fadiga com duas inspirações profundas dum ar com um indelével sabor a pinheiros e eucaliptos, de lavar os olhos com um instante de uma natural sublimação, de uma verdura extasiante, de um orgasmo contemplativo.

Vejo o sorriso que nasce nos teus olhos. Vejo a esperança, no coração dele, de poder ver, um dia, esse sorriso ser enriquecido pelo doce curvar dos teus lábios. Vejo o anelo que sente, mitigado num refúgio que sabe que terá de terminar - não há curas definitivas, apenas um adiar do inadiável.



"What is this life if, full of care,
we have no time to stand and stare?"



Uma vida assim não é nada, é um vazio, um vácuo que nos engole e nos expurga de todo o desejo de felicidade. A vida seria roubada da sua riqueza se não tivéssemos o tempo para olhar para o mundo em nosso redor, para as maravilhas que temos a sorte de poder apreciar. Contudo, qual o sentido de viver uma vida pobre, se apenas temos direito a uma? Uma vida pobre é um eufemismo, é o mesmo que não ter nenhuma...

domingo, 17 de novembro de 2013

A Flor

Era uma flor triste e seca. Triste pelo abandono a que tinha sido votada pelas suas irmãs. Seca pelo estio do ar gélido e cortante duma tarde vazia, perdida nos meandros dum Outono esquecido, um ano qualquer, um século não classificado, uma terra inominada. Triste e seca pela teimosia de se agarrar ao seu palmo de terra, saturada pelas primeiras chuvas, pela teimosia em ser a última memória duma Primavera que há muito se havia despedido.

O sol tímido ascendia sobre uma manhã fria. Mais uma manhã que fazia jus à promessa de nela guardar o sopro do Inverno que se aproximava com passos certos. Certos da sua inevitabilidade. Certos de que neles guardam o gelo que vem paralisar os movimentos, o coração, a alma.

A flor chorava. Talvez fosse só orvalho da noite que beijava as suas pétalas. Talvez fossem as lágrimas de solidão que se instalara nela. Só. Só num prado de caules secos e tombados. Uma flor duma brancura virgem. Pureza. Intocada e intocável. Para além de tudo, de toda a mágoa, de toda a dor, apenas bela na sua solidão. Um raio de luz alva num descampado castanho da terra revolvida pelas bátegas de chuva que teimosamente se precipitaram em longos dias de escuridão.

Fossem o que fossem aquelas gotas de água, gelavam agora, formando uma fina camada de geada que se ia petrificando nas pétalas da flor. Tinha frio. Tentava aproveitar a brisa para afastar aquele gelo que dela se apoderava, todavia pouco podia fazer. Não tinha força, não tinha apoio. Todas as suas irmãs haviam fenecido, expurgadas da sua vitalidade pelo tempo inclemente. Ela agarrava-se, persistia, lutava. Não sabia até quando.

Estava ela perdida num pranto imaginado de auto-comiseração quando reparou nuns arbustos que se revolviam à sua frente, nos limites do descampado. Deles surgiu repentinamente um gaio, a abanar as asas para se libertar da água fria. Cambaleava de um lado para o outro, num passo tremido. A flor olhou insistentemente para ele, como que a chamá-lo. Finalmente, companhia, alguém com quem pudesse falar.

“Bom dia. Como te chamas?”

O gaio olhou confuso em volta, pois cria estar só no meio daquele descampado assolado pelo tempo. Percebeu quem o chamava com alguma surpresa, e começou a saltitar, incerto e ziguezagueante, na direcção da flor.

“Bom dia. O que faz uma flor tão bonita ainda por aqui?”

“As minhas irmãs partiram todas – para longe daqui ou para o seu descanso. Eu sou a última de nós, não sei para onde ir nem como ir”

“Está frio, demasiado frio para uma flor como tu. Não pertences aqui, devias partir”

A flor olhou para o gaio, esbaforido e com um ar apressado, e pensou no que ele havia dito. Estaria na hora de partir? Mas ela era nova, não conhecia outra paisagem que não a daquele descampado, onde brotara daquele chão que agora mal reconhecia. Não seria já o chão dela?

“Como é que o poderei fazer, querido gaio? Isto é, partir?"

O gaio abriu as asas, e a flor percebeu que uma delas estava magoada. Olhou com maior atenção para ele e percebeu que também tinha sangue na pata direita.

“Também eu estou a partir, para longe daqui e deste tempo. Estás só, nada está guardado para ti neste sítio apertado e pequeno. Está demasiado frio para uma flor como tu. Estás demasiado só e fechada neste sítio. Voa.”

“Mas eu não sei voar…”

“Claro que sabes. Deixa-te levar pelo vento, vogar nas asas que se adivinham nas tuas folhas. Livre de te elevares e de deixares que a tua sorte te conduza até ao horizonte. E para lá dele, para um lugar melhor. Anda, eu ajudo-te”

Enquanto falava, o gaio aproximou-se da flor com um olhar de comiseração e compaixão por aquela frágil e delicada flor que se via assim desorientada no mundo e, com cuidado, começou a arrancá-la da terra húmida com o bico. Num só movimento ascendente, a flor sentiu-se solta, leve, com a geada a derreter-se sobre as suas pétalas e derramar-se sobre o chão. Eleva-se no ar numa dança rodopiante, num riso melodioso, numa canção de cor e alegria numa manhã ominosa. Murmura um “Obrigado…” que o gaio, a afastar-se da visão da flor, adivinha no rumorejar das pétalas embaladas pelo vento.


Ela voa. Liberdade. Mudança. Sente-se o grito preso no caule, nas folhas, no coração a libertar-se finalmente, a ecoar pelos vales que agora sobrevoa. Um mundo inteiro a desfilar diante dos seus olhos. Florestas, cidades, rios, mares, mil e mais mil outras flores, presas ao chão. Ao mesmo chão que a prendia até há bem pouco tempo. Ela parte para uma nova vida, para um novo dia, para um novo tudo. Desígnio subtil e inovador para quem não sabia voar. O horizonte desenrola-se diante da flor. Do que ele esconde, nada sabe a flor. Contudo, sabe o que ele não esconde. Um novo descampado, pois esse ficou agora para trás, nas brumas do passado que rapidamente se desvanece na excitação do ser, na loucura eufórica que brota da alma da flor. Preenchida pela vontade ressuscitada, pela força de se ver autónoma, nas asas dum vento que a protege até ao momento em que irá aterrar num local onde o sol voltará a brilhar resplandescente. Onde o coração sentirá de novo o calor duma manhã de esperança. Onde a flor não estará só. A solidão dará lugar a um novo lar, no qual poderá voltar a florescer, a crescer, a cumprir a promessa de esplendor e beleza que a agora pequena flor nela encerra. A solidão não é imutável. O mundo guarda nele o futuro da flor. Ela sabe-o e guarda-lhe um sorriso, o mesmo que se começa a desenhar enquanto viaja na atmosfera cristalina, limpa pela água chorada pelas nuvens que se acotovelam atrás de si. O mundo guarda nele um novo mundo para a flor. Basta-lhe alcançá-lo e conquistá-lo. Com a memória das lágrimas encerrada nas suas pétalas.