domingo, 30 de maio de 2010

Crise existencial documentada #7 (ou "Cartas de Lisboa")

Num compasso lento
subo as escadarias
pelas quais tento
escapar das masmorras ébrias
que minam as ruas que percorro,
que abrigam as carruagens cruéis
onde há muito grito por socorro
com os lábios selados e insensíveis,
com a garganta apertada
por um terrível nó,
com a pele gelada
pela solidão de estar só,
longe da confusão esfumada
dos rostos incógnitos na palidez
que marcam a minha frustrada
tentativa de decifrar os porquês,
de poder iludir o nada.

Sei que a noite terá a doçura
do hábito tóxico e crónico
de procurar uma cura
em profundezas de gin tónico,
reflexo do luar dum negro puro
que me cobre num manto
tecido com linhas que seguro,
mesmo quando tomado pelo quebranto
da constante lembrança
de te ter nos meus braços,
numa estática dança
onde aprendemos os passos
que nos deixem escapar à vida,
nos deixem encontrar a saída
deste intrincado labirinto,
no qual já não sei o que sinto,
ou o que o amanhã trará -
apenas sei que já
não sei bem onde estou,
não sei bem quem sou...

A desorientação digna dum louco
toma conta da minha razão
e sinto o ego oco,
o silêncio da respiração
que deixou de existir
perante o teu sorriso
tão próximo que juraria impossível,
imaginado num filme que realizo,
contigo como actriz principal,
e comigo no papel nada credível
de não ser mais uma amostra banal
da vulgaridade inerente
a um mundo demasiado ciente
das limitações que impõe
a uma alma irrequieta
na irreverência de quem compõe
uma sinfonia que afecta
o discernimento de viver no realismo
que absorve a capacidade de aspirar,
a vontade de divagar
por uma gota de romantismo.

Parados, juntos, unidos
afogados num só olhar,
exalando o mesmo ar...
Damos as mãos, feridos
pelo êxtase partilhado,
assinado pelo suave toque
do carinho delicado
distinguido na tua voz -
explode, num ritmo rock,
a pulsação, até agora débil,
que oiço numa perfeita sintonia
através da camisola frágil
com que vesti tudo o que calaria
caso não estivesses aqui
para me esconder da fria
sombra que foge de ti.

Estes são pedaços de sonhos revoltados
que se adivinham nos dedos entrelaçados
na fútil e idílica musicalidade
silenciada no rasgo impaciente
de gravar para sempre nos muros da cidade
o instante em que tudo parou
(Desculpa, já não alinho uma frase decente)
em que tudo se dissolveu numa mera
brisa que me ergueu, me elevou
para lá da inalcançável quimera
de atingir a lucidez no vapor
do álcool com que trato a minha dor.

A noite cai, o entardecer
abate-se sobre o adormecimento
a que me tentei prender
na ânsia de agarrar o momento -
pois o que mais há para dizer
sem ser este murmúrio rouco,
(Prova do timbre prestes a morrer)
que te pede: "Só mais um pouco..."

Contudo o tempo é escasso
para verbalizar todas as palavras,
queimadas com o meio maço
com o qual escrevi parte de mim,
os capítulos que espero que abras
ao ler o intrigante livro sem fim,
testemunho duma vertigem nada sã
de quem, sem querer, subiu aos céus
nas asas duma estranha ruptura,
deste beijo que perdura...
Diz-me até amanhã,
nunca me recebas com um adeus.

domingo, 23 de maio de 2010

Crise existencial documentada #6 (ou "Cartas de Coimbra")

Quando o expoente máximo da imprevisibilidade
não passa do shuffle do teu iPod
abstrai-te do ar artificial da cidade
e deixa que o vento forte que te sacode
disperse as brumas que respiras,
te arrefeça o rosto, te acorde
o fogo das eternas piras
ateadas pela angústia que te morde
o coração com uma rede de mentiras.

Vem comigo caminhar por estas ruas
num jeito levemente cambaleante
que deixa as minhas angústias nuas
a flutuar no ar viciante
de mais um cigarro partilhado
por entre copos de vinho
que afogam o inevitável fado
de me arrastar sozinho.

Não sei se estás ao meu lado
mas sei que sou perseguido
pelo meu olhar raiado
por um vermelho ferido
próprio de quem, no negrume,
esquece tudo o que foi,
abandonando-se a um perfume
que por dentro o corrói.

Vejo o caminho estreito,
talvez alterado pelo ar vaporoso,
entortar-se num trejeito
propositadamente malicioso,
curvando-se num sorriso
que sigo isolado do mundo,
enquanto traço e idealizo
cada passo que darei até ao fundo
recôndito do amanhã
onde se adivinha difícil
a procura vã
pela recordação do míssil
que me deixou neste estado...
Pois que outra explicação
terá o aspecto arruinado
dos escombros do meu coração?

Abraçado pelas margens do Mondego,
vislumbro a corrente calma
que me aperta a alma
com a noção de que não chego,
de que nunca chegarei,
a ser mais do que um pedinte
a viver das tuas esmolas, às quais terei
de me agarrar p'ra não perecer antes dos 20.

Dá-me mais um gole de Porto,
quero esquecer...
Já que tudo está morto,
mais vale adormecer
o desgosto de existir
enterrado numa multidão
que me convida a desistir -
porém prendes-me com a tua mão...

Num sonho traçado de preto
ficamos aqui, cada um meio acordado,
com o som de fundo obsoleto
a sublinhar o real imaginado -
este sou eu, incapaz de lidar
com uma desconhecida felicidade,
a abandonar-me à simplicidade
de parar de pensar...

E numa névoa de absinto
que mescla a verdade com o falso,
perco-me em ti e pinto
um retrato no qual realço
o paradoxo duma vida
incompleta até este momento...
Só peço ao tempo para ser mais lento,
para prolongar a resistência caída.
(Até quando aguento?...
O que é isto de ter uma recaída
por algo que não existia,
por um olhar que me vicia,
por uma chama que não me feria?)

Ilumina-nos a alvorada,
admiro-a com os olhos inchados
pela insone madrugada...
A noite acaba, sinto os dedos gelados
que desesperadamente tento aquecer,
agarrando-me a eles com a loucura
de lhes pedir para não esquecer,
para guardarem a doçura
com a qual escondeste o receio
de poderes enganar toda a amargura
que no teu rosto leio,
enquanto tristemente revejo
os fantasmas duma alma perdida,
mil martírios só meus...
Este é o beijo
mais longo da minha vida...
Bom dia e adeus...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

"Soneto"da Noite Alta

A paisagem da minha vida
estende-se diante de mim
contemplo-a numa insónia sem fim
dedico-lhe uma noite perdida.

As horas escuras da penumbra
são como séculos de sofrimento
nos quais perco a noção do momento
numa indiferença que me deslumbra.

Sinto nos olhos o ardor
do sono que teima em não vir
preso no meu mundo de rancor.

Um mundo do qual não consigo sair
pois não tenho mais forças para pôr
no esforço de não desistir.

"Soneto" da Melancolia

Um leve novelo cinzento
ergue-se diante do meu olhar
perdido no simples acto de sonhar
enquanto o tempo se arrasta lento.

Em nada demoro o pensamento,
no nada me consigo perder,
preso na incapacidade de poder,
de querer libertar-me deste momento.

Sinto a alma afundar-se na melancolia
de te ver e não te ter,
noite após noite, dia após dia.

Volto ao mundo sem querer
e exalo o fumo da minha alegria
para no ar acabar por desaparecer.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Crise existencial documentada #5 (ou "Cartas do Campo Grande")

No refúgio da minha varanda
olho para o horizonte
sem ver o que por lá anda,
sinto só o sol na fronte
enrugada pelas preocupações
que me absorvem a alegria,
que anulam as emoções -
coveiras de cada novo dia
cuja campa selam
com risos de hipocrisia
vindos do alto da sabedoria
erguida na certeza de que revelam
o lado negro e escuro
dos labirínticos becos da minha mente,
nos quais me sinto inseguro,
humilhado por um sofrer inconsequente.

Relembro as memórias
do que deixei por dizer
nas tentativas inglórias
de, por um instante, te merecer.
Recordo a noite cerrada
embotada pelo vapor
da mistificação criada
pelo alívio da dor
que me deprime
enquanto viajo na decrepitude
dum autocarro rude,
ensombrado pelo crime
(comprovativo legal da falta de atitude)
que espero conseguir lavar,
pressionando delete
com o desespero de acreditar...
Vá lá, ri-te,
tem uma certa piada -
esta postura perdida
com a qual encaro o nada
duma multidão esbatida.

O calor sufocante,
corpos suados,
o esgar arrogante
de copos esmagados.
O som ensurdecedor
deixa-me num transe
que abraço com fervor
induzido pela repetição
(mais um pouco, talvez me canse),
sem a mínima noção
de movimentos atabalhoados
e de notas sempre iguais,
de cigarros queimados
e de cervejas frugais...
Tudo se conjuga na névoa surreal
onde o tempo deixa de o ser,
onde o corpo se torna imaterial,
pedaço do sonho no qual quero viver.

Até que chegaste
com um sorriso desarmante,
com o olhar que pousaste
nos retalhos da titubeante
manta que me protege
do meu pior receio:
o de perder o rumo que rege
a tristeza que leio e releio
nas linhas dum futuro
sem réstia de esperança...
Sinto-me a chocar contra um muro,
uma chama que mais ninguém alcança,
uma luz na escuridão
da qual desconhecia a existência...
Apaga o espectro do mundo cão
onde sou consciente da inconsciência
de guardar um laivo de clarividência
numa noite de monotonia e solidão.

À distância do passado,
acarinho estupidamente
o toque delicado
da tua suave mão,
a insuportável ternura
dos olhos que não me salvarão
da eterna amargura
que nutro por mim próprio.
Hoje aqui fico, paralisado
pelo raciocínio sóbrio
de quem sabe estar errado
e quer persistir na ilusão
construída por ecos retorcidos
que tacteiam na confusão
de murmúrios esquecidos,
de carícias inesquecíveis,
de prazeres terríveis.

Como esquecer o desejo
de te ter junto a mim,
quando, num snobismo entediado,
apenas suspiro e bocejo
perante um dia desperdiçado
que nunca mais chega ao fim?
Sabes que só penso em voltar
para lá de montes e vales,
e contigo afogar
os meus incapacitantes males?