domingo, 23 de maio de 2010

Crise existencial documentada #6 (ou "Cartas de Coimbra")

Quando o expoente máximo da imprevisibilidade
não passa do shuffle do teu iPod
abstrai-te do ar artificial da cidade
e deixa que o vento forte que te sacode
disperse as brumas que respiras,
te arrefeça o rosto, te acorde
o fogo das eternas piras
ateadas pela angústia que te morde
o coração com uma rede de mentiras.

Vem comigo caminhar por estas ruas
num jeito levemente cambaleante
que deixa as minhas angústias nuas
a flutuar no ar viciante
de mais um cigarro partilhado
por entre copos de vinho
que afogam o inevitável fado
de me arrastar sozinho.

Não sei se estás ao meu lado
mas sei que sou perseguido
pelo meu olhar raiado
por um vermelho ferido
próprio de quem, no negrume,
esquece tudo o que foi,
abandonando-se a um perfume
que por dentro o corrói.

Vejo o caminho estreito,
talvez alterado pelo ar vaporoso,
entortar-se num trejeito
propositadamente malicioso,
curvando-se num sorriso
que sigo isolado do mundo,
enquanto traço e idealizo
cada passo que darei até ao fundo
recôndito do amanhã
onde se adivinha difícil
a procura vã
pela recordação do míssil
que me deixou neste estado...
Pois que outra explicação
terá o aspecto arruinado
dos escombros do meu coração?

Abraçado pelas margens do Mondego,
vislumbro a corrente calma
que me aperta a alma
com a noção de que não chego,
de que nunca chegarei,
a ser mais do que um pedinte
a viver das tuas esmolas, às quais terei
de me agarrar p'ra não perecer antes dos 20.

Dá-me mais um gole de Porto,
quero esquecer...
Já que tudo está morto,
mais vale adormecer
o desgosto de existir
enterrado numa multidão
que me convida a desistir -
porém prendes-me com a tua mão...

Num sonho traçado de preto
ficamos aqui, cada um meio acordado,
com o som de fundo obsoleto
a sublinhar o real imaginado -
este sou eu, incapaz de lidar
com uma desconhecida felicidade,
a abandonar-me à simplicidade
de parar de pensar...

E numa névoa de absinto
que mescla a verdade com o falso,
perco-me em ti e pinto
um retrato no qual realço
o paradoxo duma vida
incompleta até este momento...
Só peço ao tempo para ser mais lento,
para prolongar a resistência caída.
(Até quando aguento?...
O que é isto de ter uma recaída
por algo que não existia,
por um olhar que me vicia,
por uma chama que não me feria?)

Ilumina-nos a alvorada,
admiro-a com os olhos inchados
pela insone madrugada...
A noite acaba, sinto os dedos gelados
que desesperadamente tento aquecer,
agarrando-me a eles com a loucura
de lhes pedir para não esquecer,
para guardarem a doçura
com a qual escondeste o receio
de poderes enganar toda a amargura
que no teu rosto leio,
enquanto tristemente revejo
os fantasmas duma alma perdida,
mil martírios só meus...
Este é o beijo
mais longo da minha vida...
Bom dia e adeus...

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