Repara nele, numa mão uma cerveja,
na outra um pequeno copo de bagaço.
Repara como a consciência lhe fraqueja,
em como ele já não lhe distingue o sabor a mel,
em como ganha autonomia o braço,
há pouco inanimado, agora num tropel
de gestos descoordenados numa dança feia
para delícia da voraz e exultante plateia.
Repara na malignidade dele concentrada num tumor
dentro do coração que há dias se começou a decompor.
Neste preciso momento é o fígado podre de Jack,
não mais do que um palácio abandonado ao saque.
Ele que um dia já fez coisas belas,
mas isso foi antes de lhe cortarem as mãos.
Ele que já se ajoelhou diante de abertas capelas,
mas agora lambe os dedos em ritos pagãos.
Ele que já provocou com palavras orgasmos,
mas agora desculpa-se pelos estúpidos pleonasmos.
Ele que já foi convidado para prazeres orgiásticos,
mas agora não recebe mais que esgares sarcásticos.
Ele que já foi um mestre em conquistar a cópula,
mas agora não ergue a cabeça, desdentado Drácula.
Ele que já se deu ao luxo de se ocultar em pseudónimos,
mas agora até lhe roubaram as impressões digitais.
Ele que já foi adorado por uma obscenidade de anónimos,
mas agora rasteja, partilha os restos com os animais.
Ele é o nada que já foi tudo.
Ele é o maldito que já foi sortudo.
Até que ela vê uma sombra a levitar,
azul-acinzentado no olhar,
ruivo delicado no cabelo,
ela que é o sonho dele sem sabê-lo,
um sinal que esperava e que o alegra.
Contudo, todos os sonhos acabam por se esfumar
e este não é mais do que os outros, não foge à regra...
Ele foi incapaz de encontrar a força para se levantar
talvez devido a uma fraqueza muscular,
talvez por ter ficado sem ponta de voz,
ou simplesmente porque quer ficar
com a egoísta auto-comiseração a sós.
Quem saberá? Por certo, não nós...
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Crise existencial documentada #12 (ou "Cartas de Caminha")
Raramente vi o céu tão estrelado,
raramente vi as trevas tão luminosas,
um brilho contra-natura derramado
sobre as ténues curvas ruinosas
do perfil que, com os dedos estendidos,
desenho nas dúbias correntes de ar,
que transportam os sons diminuídos
dum pulmão direito a começar
a ceder perante o esforço
de se contrair em insultos,
de berrar impropérios,
sem vestígio de remorso,
para a amálgama de tumultos
em que habitam os meus etéreos
devaneios, delírios, conjecturas,
sonhos nada sérios,
que o vento leva para as amarguras
residentes nas sombras escuras
aonde não chega o calor
da recordação do teu olhar -
apenas o ambíguo terror
de sentir a corrente virar.
Procuro-te veementemente
nesta cidade de rio e rocha,
que floresce ao luar nascente,
tremeluzindo diante da tocha
acesa para me dar a possibilidade
de prolongar a noite intemporal
onde sinto o peso da idade,
o desejo de mudar de canal
(embora me interrogue para qual),
de poder pressionar reset
e deixar tudo para trás,
visto que muito pouco já faz
qualquer sentido, tudo se repete
num ciclo fora do meu controlo,
no qual te espero ao virar da esquina
das ruelas onde queria ter o consolo
de te apagar numa névoa adamantina
que, com ela, traz a frescura
duma chuva em pleno Agosto,
infalível modo de apagar a secura
dos dias que me queimam o raciocínio
que se prolongam nas saudades do rosto
onde deslindei um triste vaticínio.
Revisito neste poema insosso
a imagem que idealizo
da delicadeza do teu pescoço,
da revolta madeixa que aliso
com as pontas dos dedos
(ásperos como velhos penedos,
desajeitados no gesto ensaiado
que redundantemente é falhado)
da cor única da tua íris
que ainda não sei definir,
nem serei capaz de o fazer
enquanto tiver na boca a bílis
do enjoo que persiste em subir
das entranhas que adoram escarnecer
da tentativa de te negar
com a fúria dum moderno Nietzche,
de te reduzir a um imaturo fetiche,
da tua memória esborratar
com tinta negra como azeviche.
As nuvens abrem-se na ânsia
de fugir para outra dimensão...
Quem me dera ir com elas,
devotar-me a uma errância
sem lugar para a razão,
apenas para vogar em caravelas
brancas e sem destino traçado...
Espera, espera só um bocado,
as ilusões não são mais que trapos
com que visto a minha timidez,
pois as nuvens desfazem-se em farrapos,
um pouco como a minha sensatez
implodiu há cerca de meia hora -
perdi as forças para não desfalecer,
desconheço se vivo o agora
ou se estou prestes a deixar de viver...
Fode-me e deixa-me a apodrecer
no rancor de não te esquecer...
Fugi de tudo isto,
enganei-me no caminho,
este está ladeado por um misto
de nostalgia, melancolia e carinho
que sou incapaz de suster sem vinho...
Acabo um cigarro com calma metódica,
fustigado por infindáveis setas de prata,
estilização de gotas duma água retórica
que com um subtil sopro mata
os desvarios duma mente neurótica.
Desfaço-me da pagã beata
num movimento saturado de desdém,
baixo os olhos para a alva linha
com a qual me vou enforcar -
pergunto alto a alguém
com uma voz que não é a minha,
com a loucura de ser o único a inalar,
pergunto a já não sei bem quem
quem ainda está a meu lado
ou se já estou só no meu enterro,
pelo augúrio da morte rodeado,
nas faces de quem espera um erro,
de quem espera os despojos dum condenado.
Estou com uma entorse no pulso,
adquirida nesta raiva de escrever,
de agarrar as palavras que saem avulso
das minhas mãos, quase sem querer.
Daí que desista e me encoste
a uma centenária árvore
erguida na solidão como um poste,
com a resistência dum bloco de mármore,
inflamável apenas pelo fogo,
amodorrado no meu coração,
que salta um batimento com o rogo
solto pela alma na escuridão
duma soalheira manhã de Verão
que rompe o cerrado nevoeiro,
que me aquece aqui recostado
enquanto oiço o canto altaneiro
dum apressado e límpido regato,
despertador para o choro cansado
a que, por fim, me resgato.
Contudo, há dores incuráveis,
como esta dor que me traga
duma só vez...
Que dúvidas insondáveis
me levaram a atirar desta fraga
(onde acredito que não me vês,
onde me equilibro titubeante)
as palavras que aqui lês,
o suspiro que me corta, incessante?
É aqui, acima do Norte,
numa difusa e imaterial fronteira
(onde deixo de crer na sorte,
onde transponho no sono a barreira
de confundir onde tu começas
e onde eu termino)
que abandono as promessas
feitas nas horas de desatino
em que só me restavam destroços...
Mas não sei afastar o frio
que me gela até aos ossos...
Peço-te, em alucinadas preces:
Leva-me para o ermo sombrio
que só tu conheces,
deixa que o erotismo
nos inunde numa maré cheia de prazer
antes que o desejo feneça,
antes que me entregue ao realismo,
de te racionalizar, de te compreender,
antes que a minha boca esqueça
a vontade de procurar a tua
nos meandros duma crua
paisagem onde se adivinha
a despedida dolorosa,
a viagem penosa...
Dedico-te um último aceno, Caminha,
antes de correr as portadas
por onde deixei entrar a alegria
de me demorar nas margens amadas
dum Minho de que jamais me cansaria.
Regresso ao exílio imposto,
baseado no pressuposto
de ter de viver no mundo palpável,
de não ter refúgio no bosque agradável
consumido pelas chamas do desgosto,
ateadas pelo teu sorriso frígido,
alimentadas pelo teu não rígido...
Não me ouviste
tocar à tua campainha?
Não me sentiste
amparar-te quando estavas sozinha?
Não me viste
proteger-te sob a capa amarrotada,
frágil, com a respiração pesada?
Lembra-te do momento deixado a pairar
na atmosfera duma leveza abafada,
do momento que contigo quero reencenar.
raramente vi as trevas tão luminosas,
um brilho contra-natura derramado
sobre as ténues curvas ruinosas
do perfil que, com os dedos estendidos,
desenho nas dúbias correntes de ar,
que transportam os sons diminuídos
dum pulmão direito a começar
a ceder perante o esforço
de se contrair em insultos,
de berrar impropérios,
sem vestígio de remorso,
para a amálgama de tumultos
em que habitam os meus etéreos
devaneios, delírios, conjecturas,
sonhos nada sérios,
que o vento leva para as amarguras
residentes nas sombras escuras
aonde não chega o calor
da recordação do teu olhar -
apenas o ambíguo terror
de sentir a corrente virar.
Procuro-te veementemente
nesta cidade de rio e rocha,
que floresce ao luar nascente,
tremeluzindo diante da tocha
acesa para me dar a possibilidade
de prolongar a noite intemporal
onde sinto o peso da idade,
o desejo de mudar de canal
(embora me interrogue para qual),
de poder pressionar reset
e deixar tudo para trás,
visto que muito pouco já faz
qualquer sentido, tudo se repete
num ciclo fora do meu controlo,
no qual te espero ao virar da esquina
das ruelas onde queria ter o consolo
de te apagar numa névoa adamantina
que, com ela, traz a frescura
duma chuva em pleno Agosto,
infalível modo de apagar a secura
dos dias que me queimam o raciocínio
que se prolongam nas saudades do rosto
onde deslindei um triste vaticínio.
Revisito neste poema insosso
a imagem que idealizo
da delicadeza do teu pescoço,
da revolta madeixa que aliso
com as pontas dos dedos
(ásperos como velhos penedos,
desajeitados no gesto ensaiado
que redundantemente é falhado)
da cor única da tua íris
que ainda não sei definir,
nem serei capaz de o fazer
enquanto tiver na boca a bílis
do enjoo que persiste em subir
das entranhas que adoram escarnecer
da tentativa de te negar
com a fúria dum moderno Nietzche,
de te reduzir a um imaturo fetiche,
da tua memória esborratar
com tinta negra como azeviche.
As nuvens abrem-se na ânsia
de fugir para outra dimensão...
Quem me dera ir com elas,
devotar-me a uma errância
sem lugar para a razão,
apenas para vogar em caravelas
brancas e sem destino traçado...
Espera, espera só um bocado,
as ilusões não são mais que trapos
com que visto a minha timidez,
pois as nuvens desfazem-se em farrapos,
um pouco como a minha sensatez
implodiu há cerca de meia hora -
perdi as forças para não desfalecer,
desconheço se vivo o agora
ou se estou prestes a deixar de viver...
Fode-me e deixa-me a apodrecer
no rancor de não te esquecer...
Fugi de tudo isto,
enganei-me no caminho,
este está ladeado por um misto
de nostalgia, melancolia e carinho
que sou incapaz de suster sem vinho...
Acabo um cigarro com calma metódica,
fustigado por infindáveis setas de prata,
estilização de gotas duma água retórica
que com um subtil sopro mata
os desvarios duma mente neurótica.
Desfaço-me da pagã beata
num movimento saturado de desdém,
baixo os olhos para a alva linha
com a qual me vou enforcar -
pergunto alto a alguém
com uma voz que não é a minha,
com a loucura de ser o único a inalar,
pergunto a já não sei bem quem
quem ainda está a meu lado
ou se já estou só no meu enterro,
pelo augúrio da morte rodeado,
nas faces de quem espera um erro,
de quem espera os despojos dum condenado.
Estou com uma entorse no pulso,
adquirida nesta raiva de escrever,
de agarrar as palavras que saem avulso
das minhas mãos, quase sem querer.
Daí que desista e me encoste
a uma centenária árvore
erguida na solidão como um poste,
com a resistência dum bloco de mármore,
inflamável apenas pelo fogo,
amodorrado no meu coração,
que salta um batimento com o rogo
solto pela alma na escuridão
duma soalheira manhã de Verão
que rompe o cerrado nevoeiro,
que me aquece aqui recostado
enquanto oiço o canto altaneiro
dum apressado e límpido regato,
despertador para o choro cansado
a que, por fim, me resgato.
Contudo, há dores incuráveis,
como esta dor que me traga
duma só vez...
Que dúvidas insondáveis
me levaram a atirar desta fraga
(onde acredito que não me vês,
onde me equilibro titubeante)
as palavras que aqui lês,
o suspiro que me corta, incessante?
É aqui, acima do Norte,
numa difusa e imaterial fronteira
(onde deixo de crer na sorte,
onde transponho no sono a barreira
de confundir onde tu começas
e onde eu termino)
que abandono as promessas
feitas nas horas de desatino
em que só me restavam destroços...
Mas não sei afastar o frio
que me gela até aos ossos...
Peço-te, em alucinadas preces:
Leva-me para o ermo sombrio
que só tu conheces,
deixa que o erotismo
nos inunde numa maré cheia de prazer
antes que o desejo feneça,
antes que me entregue ao realismo,
de te racionalizar, de te compreender,
antes que a minha boca esqueça
a vontade de procurar a tua
nos meandros duma crua
paisagem onde se adivinha
a despedida dolorosa,
a viagem penosa...
Dedico-te um último aceno, Caminha,
antes de correr as portadas
por onde deixei entrar a alegria
de me demorar nas margens amadas
dum Minho de que jamais me cansaria.
Regresso ao exílio imposto,
baseado no pressuposto
de ter de viver no mundo palpável,
de não ter refúgio no bosque agradável
consumido pelas chamas do desgosto,
ateadas pelo teu sorriso frígido,
alimentadas pelo teu não rígido...
Não me ouviste
tocar à tua campainha?
Não me sentiste
amparar-te quando estavas sozinha?
Não me viste
proteger-te sob a capa amarrotada,
frágil, com a respiração pesada?
Lembra-te do momento deixado a pairar
na atmosfera duma leveza abafada,
do momento que contigo quero reencenar.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
"Soneto" da Velhice
A metaforização do Inverno
pinta num puído cinzento
um semblante duro e eterno,
um esgar de constante tormento.
A neve acumula-se na sabedoria
dos cabelos soltos ao vento,
que morde os ossos c'o a zombaria
de ser vergado pelo sofrimento.
Assim me queima, assim sinto,
selvagem e violento, o vento Norte
mensageiro dum pesar indistinto.
Com um envelhecido e ancião porte,
deitado a teu lado, ao tempo minto -
não quero ouvir já os passos da Morte.
pinta num puído cinzento
um semblante duro e eterno,
um esgar de constante tormento.
A neve acumula-se na sabedoria
dos cabelos soltos ao vento,
que morde os ossos c'o a zombaria
de ser vergado pelo sofrimento.
Assim me queima, assim sinto,
selvagem e violento, o vento Norte
mensageiro dum pesar indistinto.
Com um envelhecido e ancião porte,
deitado a teu lado, ao tempo minto -
não quero ouvir já os passos da Morte.
[Quiçá um dia, para lá de toda a esperança,
afastes com os lábios a sombra que me alcança]
afastes com os lábios a sombra que me alcança]
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Lágrimas dum exílio setentrional
A estrada desliza à minha frente,
estou parado nos quilómetros que percorro,
abandonado ao suspiro carente
que oculto no descosido forro
do casaco cinzento e andrajoso,
símbolo dos séculos de desgaste
que pesam sobre o corpo teimoso
em não prescindir da memória que deixaste
gravada nas cicatrizes dum rosto sisudo...
Lentamente, começo a ver o nada no tudo,
observo-me a preencher o requisito
de adormecer nesta maldita cadeira,
onde sei que a noite não é boa conselheira,
pois tem o dom de tornar o obscuro explícito...
Onde estás tu, eterna gaivota,
que contigo trazes o lamento do mar,
voando nas costas da brisa que trota
alegremente na descrença de acreditar?
Onde estás tu, praia triste,
povoada por mil soturnos rochedos,
mordidos pela intempéries em que caíste,
enquanto me entregava aos meus medos?
Onde estás tu, rio intransigente,
que cantas com perene voz
os vales puros da tua nascente
e o vento gélido da tua foz?
Onde estás tu, alto monte,
miradouro sobre a pequenez humana,
desdenhoso da miséria que enruga a fronte,
do delírio da minha imaginação insana?
Onde estás tu, virgem floresta,
que me prendes nas folhas verdes e douradas,
sendo agora tudo o que me resta
um acre cheiro a terras queimadas?
Onde estás tu, frio castelo,
imponente numa história de morte,
não ouves como te interpelo
com um suspiro virado para o Norte?
Onde estás tu, negra igreja,
altar de ostentação de outrora,
arruinada pelo tempo cruel que te beija,
local onde um olhar de desprezo se demora?
Onde estás tu, branco cálice,
guardião duma alma indomável,
fugaz, desparecido num ápice
para corporizar uma paixão intratável?
Onde estás tu, capa preta,
abençoada pela chuva etérea,
imortal na ponta da caneta
com que escrevo a noite ébria?
Onde estás tu, solitária guitarra,
que nos acordes guardas o passado
ao qual o meu espírito se agarra
num último esforço desesperado?
Até que acordo do pesadelo,
e vejo diante de mim Viana,
sobre um luminoso novelo
entretecido pela leviana
sensualidade reflectida nas águas
que a beijam na face -
vejo-a com uma inaudível alegria,
insuficiente para que lavasse
do meu coração as mágoas,
a profunda e muda agonia...
Se bem que seja uma poderosa droga
para a tenebrosa ferida rasgada
pelo clamor que me roga
por descanso para a alma cansada.
estou parado nos quilómetros que percorro,
abandonado ao suspiro carente
que oculto no descosido forro
do casaco cinzento e andrajoso,
símbolo dos séculos de desgaste
que pesam sobre o corpo teimoso
em não prescindir da memória que deixaste
gravada nas cicatrizes dum rosto sisudo...
Lentamente, começo a ver o nada no tudo,
observo-me a preencher o requisito
de adormecer nesta maldita cadeira,
onde sei que a noite não é boa conselheira,
pois tem o dom de tornar o obscuro explícito...
Onde estás tu, eterna gaivota,
que contigo trazes o lamento do mar,
voando nas costas da brisa que trota
alegremente na descrença de acreditar?
Onde estás tu, praia triste,
povoada por mil soturnos rochedos,
mordidos pela intempéries em que caíste,
enquanto me entregava aos meus medos?
Onde estás tu, rio intransigente,
que cantas com perene voz
os vales puros da tua nascente
e o vento gélido da tua foz?
Onde estás tu, alto monte,
miradouro sobre a pequenez humana,
desdenhoso da miséria que enruga a fronte,
do delírio da minha imaginação insana?
Onde estás tu, virgem floresta,
que me prendes nas folhas verdes e douradas,
sendo agora tudo o que me resta
um acre cheiro a terras queimadas?
Onde estás tu, frio castelo,
imponente numa história de morte,
não ouves como te interpelo
com um suspiro virado para o Norte?
Onde estás tu, negra igreja,
altar de ostentação de outrora,
arruinada pelo tempo cruel que te beija,
local onde um olhar de desprezo se demora?
Onde estás tu, branco cálice,
guardião duma alma indomável,
fugaz, desparecido num ápice
para corporizar uma paixão intratável?
Onde estás tu, capa preta,
abençoada pela chuva etérea,
imortal na ponta da caneta
com que escrevo a noite ébria?
Onde estás tu, solitária guitarra,
que nos acordes guardas o passado
ao qual o meu espírito se agarra
num último esforço desesperado?
Até que acordo do pesadelo,
e vejo diante de mim Viana,
sobre um luminoso novelo
entretecido pela leviana
sensualidade reflectida nas águas
que a beijam na face -
vejo-a com uma inaudível alegria,
insuficiente para que lavasse
do meu coração as mágoas,
a profunda e muda agonia...
Se bem que seja uma poderosa droga
para a tenebrosa ferida rasgada
pelo clamor que me roga
por descanso para a alma cansada.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Crise existencial documentada #11 (ou "Cartas de Alcântara")
Permaneço na indefinição tardia,
dissolvida na vontade egocêntrica
de ser uma folha na ventania,
necessidade ridícula e excêntrica
de voar numa ausência de gravidade
na total abstracção da realidade,
durante léguas e léguas,
para longe, bem longe de tudo
num ansiado acordo de tréguas
com o qual me iludo.
Afinal porquê adiar
o que reconheço inevitável?
Porquê aprender a odiar
um sonho só por ser improvável?
"Não sei"
É a resposta que me baila no olhar,
que para mim é já uma lei,
pois poucas vezes consigo escapar
à inevitabilidade da ignorância...
Ou será que consigo
e não sei vencer a arrogância
de me fechar no irredutível abrigo
de não querer saber
ou de pelo menos parecer
escarrar de alto no destino,
com um vago ar de cretino
e com os olhos semi-cerrados
na inculta e ébria presunção
de não admitir os actos falhados
que sabotam as manobras de diversão,
infrutíferas na frágil missão
de me desviar a atenção.
Vá lá, dá-me as chaves,
permaneço afogado na sobriedade
preso pela evidente impossibilidade
de planear um ataque às caves
cintilantes de cristal e ouro,
de vermelho ensaguentado,
sussurrando no escuro
com a voz do longínquo Douro,
com o aroma dum campo imaculado,
com o toque do solo duro.
Mas aqui, alheado dessa perfeição,
nesta forma de ser estranha
que encara tudo com uma apreensão,
atenuada pelo fumo que arranha
a garganta apertada pela opressão
da irresistível vontade de ficar
com os pés colados ao chão,
presos por raízes que parecem brotar
do calcário negro que calceta
(Raios, já não alinho uma ideia correcta)
os caminhos tortuosos
que, semana após semana,
calcorreio com passos pesarosos
apenas para, num flagrante egoísmo
ou numa mera inspiração pessoana,
responder aos impulsos sequiosos
que me levam a olvidar o cinismo,
em mim doença crónica,
que se prolonga até que ceda
uma alma que grita até ficar afónica,
até se prostrar, inútil e leda.
Porém a noite ainda é jovem
e a vontade de ir embora
não supera o medo
das sombras que se movem
no quarto onde mora
a sentença do degredo
a que me condeno diariamente,
um exílio no seio da multidão,
simples desterro inexistente
que me encerra numa prisão
com paredes de sonho,
com grades de emoção,
com um torreão tristonho
donde olho para um idílico céu,
um quadro violado pelo mundo
de carne e osso, de ar e pedra,
esfomeado, preto como o breu,
como a boca dum poço sem fundo,
como o terror que em mim medra
ao sentir os membros fraquejar
na fuga que tento manter viva
mesmo que a mente seja cativa
do infernal esforço de especular
sobre o que poderia ter acontecido,
sobre o que o amanhã guarda
(Véu sobre o coração empedernido),
pois um novo sol já não tarda.
Caminho em direcção ao nada,
tento quebrar o marasmo
de aguardar pela odiosa alvorada,
inconveniente interrupção do orgasmo
de viver na escuridão que atiça
o sangue dos meus restos mortais,
espalhados à luz mortiça
que me pergunta "Onde vais?"
Para o brilho do sorriso que salvaguardo
deste mordaz e selvagem arrepio,
da tentação de rejeitar o fardo
de cumprir o que a mim me prometo...
Sinto na espinha o frio,
no ar a infantilidade da lamentação
que oiço num tom de falsetto
(Dignidade sacrificada em vão).
O sol nasce, fecha-se a porta,
todo o encanto reduz-se à relativa
desilusão duma cerveja morta
antes mesmo de estar viva.
E é no ancião número 28,
sob fechaduras ferrugentas
que um desalmado afoito
encontra a redenção em bafientas
salas nas quais a noção do espaço
se deturpa com a leveza brutal,
inerente ao erro crasso
de me afogar na embriaguez superficial
de não querer ponderar o que faço...
(Aqui, num recanto teu, secular Alcântara,
tirito no gelo duma mal oxigenada câmara)
Contudo isto não tem de ser assim,
talvez um dia encontre a sorte ao te ver.
Todas as estradas têm um fim,
quem sabe se, num imprevisto amanhecer,
estarás lá para me receber.
Mas olha hoje para mim,
esgotado pela noite traída,
pelas meias palavras insignificantes -
se algo mudar a minha vida,
por acaso tinha uma antes?
dissolvida na vontade egocêntrica
de ser uma folha na ventania,
necessidade ridícula e excêntrica
de voar numa ausência de gravidade
na total abstracção da realidade,
durante léguas e léguas,
para longe, bem longe de tudo
num ansiado acordo de tréguas
com o qual me iludo.
Afinal porquê adiar
o que reconheço inevitável?
Porquê aprender a odiar
um sonho só por ser improvável?
"Não sei"
É a resposta que me baila no olhar,
que para mim é já uma lei,
pois poucas vezes consigo escapar
à inevitabilidade da ignorância...
Ou será que consigo
e não sei vencer a arrogância
de me fechar no irredutível abrigo
de não querer saber
ou de pelo menos parecer
escarrar de alto no destino,
com um vago ar de cretino
e com os olhos semi-cerrados
na inculta e ébria presunção
de não admitir os actos falhados
que sabotam as manobras de diversão,
infrutíferas na frágil missão
de me desviar a atenção.
Vá lá, dá-me as chaves,
permaneço afogado na sobriedade
preso pela evidente impossibilidade
de planear um ataque às caves
cintilantes de cristal e ouro,
de vermelho ensaguentado,
sussurrando no escuro
com a voz do longínquo Douro,
com o aroma dum campo imaculado,
com o toque do solo duro.
Mas aqui, alheado dessa perfeição,
nesta forma de ser estranha
que encara tudo com uma apreensão,
atenuada pelo fumo que arranha
a garganta apertada pela opressão
da irresistível vontade de ficar
com os pés colados ao chão,
presos por raízes que parecem brotar
do calcário negro que calceta
(Raios, já não alinho uma ideia correcta)
os caminhos tortuosos
que, semana após semana,
calcorreio com passos pesarosos
apenas para, num flagrante egoísmo
ou numa mera inspiração pessoana,
responder aos impulsos sequiosos
que me levam a olvidar o cinismo,
em mim doença crónica,
que se prolonga até que ceda
uma alma que grita até ficar afónica,
até se prostrar, inútil e leda.
Porém a noite ainda é jovem
e a vontade de ir embora
não supera o medo
das sombras que se movem
no quarto onde mora
a sentença do degredo
a que me condeno diariamente,
um exílio no seio da multidão,
simples desterro inexistente
que me encerra numa prisão
com paredes de sonho,
com grades de emoção,
com um torreão tristonho
donde olho para um idílico céu,
um quadro violado pelo mundo
de carne e osso, de ar e pedra,
esfomeado, preto como o breu,
como a boca dum poço sem fundo,
como o terror que em mim medra
ao sentir os membros fraquejar
na fuga que tento manter viva
mesmo que a mente seja cativa
do infernal esforço de especular
sobre o que poderia ter acontecido,
sobre o que o amanhã guarda
(Véu sobre o coração empedernido),
pois um novo sol já não tarda.
Caminho em direcção ao nada,
tento quebrar o marasmo
de aguardar pela odiosa alvorada,
inconveniente interrupção do orgasmo
de viver na escuridão que atiça
o sangue dos meus restos mortais,
espalhados à luz mortiça
que me pergunta "Onde vais?"
Para o brilho do sorriso que salvaguardo
deste mordaz e selvagem arrepio,
da tentação de rejeitar o fardo
de cumprir o que a mim me prometo...
Sinto na espinha o frio,
no ar a infantilidade da lamentação
que oiço num tom de falsetto
(Dignidade sacrificada em vão).
O sol nasce, fecha-se a porta,
todo o encanto reduz-se à relativa
desilusão duma cerveja morta
antes mesmo de estar viva.
E é no ancião número 28,
sob fechaduras ferrugentas
que um desalmado afoito
encontra a redenção em bafientas
salas nas quais a noção do espaço
se deturpa com a leveza brutal,
inerente ao erro crasso
de me afogar na embriaguez superficial
de não querer ponderar o que faço...
(Aqui, num recanto teu, secular Alcântara,
tirito no gelo duma mal oxigenada câmara)
Contudo isto não tem de ser assim,
talvez um dia encontre a sorte ao te ver.
Todas as estradas têm um fim,
quem sabe se, num imprevisto amanhecer,
estarás lá para me receber.
Mas olha hoje para mim,
esgotado pela noite traída,
pelas meias palavras insignificantes -
se algo mudar a minha vida,
por acaso tinha uma antes?
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