Permaneço na indefinição tardia,
dissolvida na vontade egocêntrica
de ser uma folha na ventania,
necessidade ridícula e excêntrica
de voar numa ausência de gravidade
na total abstracção da realidade,
durante léguas e léguas,
para longe, bem longe de tudo
num ansiado acordo de tréguas
com o qual me iludo.
Afinal porquê adiar
o que reconheço inevitável?
Porquê aprender a odiar
um sonho só por ser improvável?
"Não sei"
É a resposta que me baila no olhar,
que para mim é já uma lei,
pois poucas vezes consigo escapar
à inevitabilidade da ignorância...
Ou será que consigo
e não sei vencer a arrogância
de me fechar no irredutível abrigo
de não querer saber
ou de pelo menos parecer
escarrar de alto no destino,
com um vago ar de cretino
e com os olhos semi-cerrados
na inculta e ébria presunção
de não admitir os actos falhados
que sabotam as manobras de diversão,
infrutíferas na frágil missão
de me desviar a atenção.
Vá lá, dá-me as chaves,
permaneço afogado na sobriedade
preso pela evidente impossibilidade
de planear um ataque às caves
cintilantes de cristal e ouro,
de vermelho ensaguentado,
sussurrando no escuro
com a voz do longínquo Douro,
com o aroma dum campo imaculado,
com o toque do solo duro.
Mas aqui, alheado dessa perfeição,
nesta forma de ser estranha
que encara tudo com uma apreensão,
atenuada pelo fumo que arranha
a garganta apertada pela opressão
da irresistível vontade de ficar
com os pés colados ao chão,
presos por raízes que parecem brotar
do calcário negro que calceta
(Raios, já não alinho uma ideia correcta)
os caminhos tortuosos
que, semana após semana,
calcorreio com passos pesarosos
apenas para, num flagrante egoísmo
ou numa mera inspiração pessoana,
responder aos impulsos sequiosos
que me levam a olvidar o cinismo,
em mim doença crónica,
que se prolonga até que ceda
uma alma que grita até ficar afónica,
até se prostrar, inútil e leda.
Porém a noite ainda é jovem
e a vontade de ir embora
não supera o medo
das sombras que se movem
no quarto onde mora
a sentença do degredo
a que me condeno diariamente,
um exílio no seio da multidão,
simples desterro inexistente
que me encerra numa prisão
com paredes de sonho,
com grades de emoção,
com um torreão tristonho
donde olho para um idílico céu,
um quadro violado pelo mundo
de carne e osso, de ar e pedra,
esfomeado, preto como o breu,
como a boca dum poço sem fundo,
como o terror que em mim medra
ao sentir os membros fraquejar
na fuga que tento manter viva
mesmo que a mente seja cativa
do infernal esforço de especular
sobre o que poderia ter acontecido,
sobre o que o amanhã guarda
(Véu sobre o coração empedernido),
pois um novo sol já não tarda.
Caminho em direcção ao nada,
tento quebrar o marasmo
de aguardar pela odiosa alvorada,
inconveniente interrupção do orgasmo
de viver na escuridão que atiça
o sangue dos meus restos mortais,
espalhados à luz mortiça
que me pergunta "Onde vais?"
Para o brilho do sorriso que salvaguardo
deste mordaz e selvagem arrepio,
da tentação de rejeitar o fardo
de cumprir o que a mim me prometo...
Sinto na espinha o frio,
no ar a infantilidade da lamentação
que oiço num tom de falsetto
(Dignidade sacrificada em vão).
O sol nasce, fecha-se a porta,
todo o encanto reduz-se à relativa
desilusão duma cerveja morta
antes mesmo de estar viva.
E é no ancião número 28,
sob fechaduras ferrugentas
que um desalmado afoito
encontra a redenção em bafientas
salas nas quais a noção do espaço
se deturpa com a leveza brutal,
inerente ao erro crasso
de me afogar na embriaguez superficial
de não querer ponderar o que faço...
(Aqui, num recanto teu, secular Alcântara,
tirito no gelo duma mal oxigenada câmara)
Contudo isto não tem de ser assim,
talvez um dia encontre a sorte ao te ver.
Todas as estradas têm um fim,
quem sabe se, num imprevisto amanhecer,
estarás lá para me receber.
Mas olha hoje para mim,
esgotado pela noite traída,
pelas meias palavras insignificantes -
se algo mudar a minha vida,
por acaso tinha uma antes?
Caro amigo João: gostava de poder dar te as opiniões prometidas no âmbito de um café, ou qualquer coisa. Sinto que assim não me consigo expressar da forma como quero. Mas estou muito impressionada, muito! Temos muito que conversar, adorava conhecer as inspirações e os contextos.
ResponderExcluirE muito obrigada pelo teu comentário, fiquei muito contente. Para mim também és uma opinião extremamente "entendida" :)
Beijinhos e continua a escrever!
abençoada seja, mesmo morta :D
ResponderExcluiraté que ponto estamos sós, se podemos dizer 'estamos'?