domingo, 5 de outubro de 2014

Elevador

Um elevador
que desce e sobe
na ânsia snob
de se resgatar à dor
e à mordaz gravidade
que teima em me prender ao chão
arrogante na sua veleidade
de recusar a ascensão,
de me mostrar a imperfeição.

Um elevador
que se retorce e distorce,
sussurrando em código morse,
como num mau filme de terror,
as palavras em cadência mecânica
que nunca disse à minha parede,
engolidas pela manhã tirânica
onde não sei bem se tenho sede
ou se simplesmente desejava tê-la
para me relembrar tenuemente
de que algo em mim ainda sente.

Um elevador
que deambula e vagueia
perdido numa vida meio cheia,
desorientado com arte e primor,
torpe caixa de metal
reflectida na sua própria frieza
ao não possuir já sinal
daquela efémera beleza
de bater um coração no interior,
de emanar um vestígio de calor,
não há nada tão doce como a ausência de sorte
quando respiras num mundo de razão,
mas com passos trôpegos num etéreo desnorte.
Esqueci-me de levantar os pés do chão.

domingo, 8 de junho de 2014

Varanda

O céu nocturno
é uma tela dum perdido Picasso
sem período, sem tempo, sem motivo
apenas um preto soturno
que reflecte o fracasso,
solene cessação de estar vivo
sem motivo
sem estar vivo
vivo nesta constante desilusão
de já não fazer sentido,
de suspirar na incompreensão
de estar completa e totalmente embrutecido
e de para tal não reconhecer razão
de antemão
ou no posfácio,
parece que fico a perder no rácio
entre os pensamentos plausíveis
e os delírios inconcebíveis.

Renego-me da minha sorte.
Abraço a perene morte
e odeio-a visceralmente,
enterro-me nos paradoxos
que entretenho para somente
julgá-los nos meandros pouco ortodoxos
da minha absoluta loucura,
todos os dias renovada à luz do social
"subscreva abaixo com a assinatura,
tem de a fazer sempre igual,
não faça nenhuma rasura".

Aprendi a dormir com a porta fechada
para não deixar fugir os sonhos
nem a minha sombra estropiada
que se aconchega com monstros medonhos
sussurrantes num doce timbre grave,
nutridos com o medo
que acarinho com o toque suave
das lágrimas que secaram
no sal do desenredo,
e que do rosto se lavaram
no freneseim da partida,
da poética destruição
que não guarda em si dor
mas sim a vontade reerguida
de reiniciar uma resolução
desenhada e planeada com primor.

Olha agora comigo o céu,
atreve-te a levantar o véu...
Tudo o que agora possuo é um meio luar,
uma nuvem onde me vejo desvanecer
e um copo de whisky com gelo,
é tudo o que me resta para amar,
é tudo onde posso florescer,
antes ser nada do que aspirar a sê-lo.