domingo, 5 de outubro de 2014

Elevador

Um elevador
que desce e sobe
na ânsia snob
de se resgatar à dor
e à mordaz gravidade
que teima em me prender ao chão
arrogante na sua veleidade
de recusar a ascensão,
de me mostrar a imperfeição.

Um elevador
que se retorce e distorce,
sussurrando em código morse,
como num mau filme de terror,
as palavras em cadência mecânica
que nunca disse à minha parede,
engolidas pela manhã tirânica
onde não sei bem se tenho sede
ou se simplesmente desejava tê-la
para me relembrar tenuemente
de que algo em mim ainda sente.

Um elevador
que deambula e vagueia
perdido numa vida meio cheia,
desorientado com arte e primor,
torpe caixa de metal
reflectida na sua própria frieza
ao não possuir já sinal
daquela efémera beleza
de bater um coração no interior,
de emanar um vestígio de calor,
não há nada tão doce como a ausência de sorte
quando respiras num mundo de razão,
mas com passos trôpegos num etéreo desnorte.
Esqueci-me de levantar os pés do chão.

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