domingo, 8 de junho de 2014

Varanda

O céu nocturno
é uma tela dum perdido Picasso
sem período, sem tempo, sem motivo
apenas um preto soturno
que reflecte o fracasso,
solene cessação de estar vivo
sem motivo
sem estar vivo
vivo nesta constante desilusão
de já não fazer sentido,
de suspirar na incompreensão
de estar completa e totalmente embrutecido
e de para tal não reconhecer razão
de antemão
ou no posfácio,
parece que fico a perder no rácio
entre os pensamentos plausíveis
e os delírios inconcebíveis.

Renego-me da minha sorte.
Abraço a perene morte
e odeio-a visceralmente,
enterro-me nos paradoxos
que entretenho para somente
julgá-los nos meandros pouco ortodoxos
da minha absoluta loucura,
todos os dias renovada à luz do social
"subscreva abaixo com a assinatura,
tem de a fazer sempre igual,
não faça nenhuma rasura".

Aprendi a dormir com a porta fechada
para não deixar fugir os sonhos
nem a minha sombra estropiada
que se aconchega com monstros medonhos
sussurrantes num doce timbre grave,
nutridos com o medo
que acarinho com o toque suave
das lágrimas que secaram
no sal do desenredo,
e que do rosto se lavaram
no freneseim da partida,
da poética destruição
que não guarda em si dor
mas sim a vontade reerguida
de reiniciar uma resolução
desenhada e planeada com primor.

Olha agora comigo o céu,
atreve-te a levantar o véu...
Tudo o que agora possuo é um meio luar,
uma nuvem onde me vejo desvanecer
e um copo de whisky com gelo,
é tudo o que me resta para amar,
é tudo onde posso florescer,
antes ser nada do que aspirar a sê-lo.