segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Lágrimas dum exílio setentrional

A estrada desliza à minha frente,
estou parado nos quilómetros que percorro,
abandonado ao suspiro carente
que oculto no descosido forro
do casaco cinzento e andrajoso,
símbolo dos séculos de desgaste
que pesam sobre o corpo teimoso
em não prescindir da memória que deixaste
gravada nas cicatrizes dum rosto sisudo...
Lentamente, começo a ver o nada no tudo,
observo-me a preencher o requisito
de adormecer nesta maldita cadeira,
onde sei que a noite não é boa conselheira,
pois tem o dom de tornar o obscuro explícito...

Onde estás tu, eterna gaivota,
que contigo trazes o lamento do mar,
voando nas costas da brisa que trota
alegremente na descrença de acreditar?

Onde estás tu, praia triste,
povoada por mil soturnos rochedos,
mordidos pela intempéries em que caíste,
enquanto me entregava aos meus medos?

Onde estás tu, rio intransigente,
que cantas com perene voz
os vales puros da tua nascente
e o vento gélido da tua foz?

Onde estás tu, alto monte,
miradouro sobre a pequenez humana,
desdenhoso da miséria que enruga a fronte,
do delírio da minha imaginação insana?

Onde estás tu, virgem floresta,
que me prendes nas folhas verdes e douradas,
sendo agora tudo o que me resta
um acre cheiro a terras queimadas?

Onde estás tu, frio castelo,
imponente numa história de morte,
não ouves como te interpelo
com um suspiro virado para o Norte?

Onde estás tu, negra igreja,
altar de ostentação de outrora,
arruinada pelo tempo cruel que te beija,
local onde um olhar de desprezo se demora?

Onde estás tu, branco cálice,
guardião duma alma indomável,
fugaz, desparecido num ápice
para corporizar uma paixão intratável?

Onde estás tu, capa preta,
abençoada pela chuva etérea,
imortal na ponta da caneta
com que escrevo a noite ébria?

Onde estás tu, solitária guitarra,
que nos acordes guardas o passado
ao qual o meu espírito se agarra
num último esforço desesperado?

Até que acordo do pesadelo,
e vejo diante de mim Viana,
sobre um luminoso novelo
entretecido pela leviana
sensualidade reflectida nas águas
que a beijam na face -
vejo-a com uma inaudível alegria,
insuficiente para que lavasse
do meu coração as mágoas,
a profunda e muda agonia...
Se bem que seja uma poderosa droga
para a tenebrosa ferida rasgada
pelo clamor que me roga
por descanso para a alma cansada.

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