No refúgio da minha varanda
olho para o horizonte
sem ver o que por lá anda,
sinto só o sol na fronte
enrugada pelas preocupações
que me absorvem a alegria,
que anulam as emoções -
coveiras de cada novo dia
cuja campa selam
com risos de hipocrisia
vindos do alto da sabedoria
erguida na certeza de que revelam
o lado negro e escuro
dos labirínticos becos da minha mente,
nos quais me sinto inseguro,
humilhado por um sofrer inconsequente.
Relembro as memórias
do que deixei por dizer
nas tentativas inglórias
de, por um instante, te merecer.
Recordo a noite cerrada
embotada pelo vapor
da mistificação criada
pelo alívio da dor
que me deprime
enquanto viajo na decrepitude
dum autocarro rude,
ensombrado pelo crime
(comprovativo legal da falta de atitude)
que espero conseguir lavar,
pressionando delete
com o desespero de acreditar...
Vá lá, ri-te,
tem uma certa piada -
esta postura perdida
com a qual encaro o nada
duma multidão esbatida.
O calor sufocante,
corpos suados,
o esgar arrogante
de copos esmagados.
O som ensurdecedor
deixa-me num transe
que abraço com fervor
induzido pela repetição
(mais um pouco, talvez me canse),
sem a mínima noção
de movimentos atabalhoados
e de notas sempre iguais,
de cigarros queimados
e de cervejas frugais...
Tudo se conjuga na névoa surreal
onde o tempo deixa de o ser,
onde o corpo se torna imaterial,
pedaço do sonho no qual quero viver.
Até que chegaste
com um sorriso desarmante,
com o olhar que pousaste
nos retalhos da titubeante
manta que me protege
do meu pior receio:
o de perder o rumo que rege
a tristeza que leio e releio
nas linhas dum futuro
sem réstia de esperança...
Sinto-me a chocar contra um muro,
uma chama que mais ninguém alcança,
uma luz na escuridão
da qual desconhecia a existência...
Apaga o espectro do mundo cão
onde sou consciente da inconsciência
de guardar um laivo de clarividência
numa noite de monotonia e solidão.
À distância do passado,
acarinho estupidamente
o toque delicado
da tua suave mão,
a insuportável ternura
dos olhos que não me salvarão
da eterna amargura
que nutro por mim próprio.
Hoje aqui fico, paralisado
pelo raciocínio sóbrio
de quem sabe estar errado
e quer persistir na ilusão
construída por ecos retorcidos
que tacteiam na confusão
de murmúrios esquecidos,
de carícias inesquecíveis,
de prazeres terríveis.
Como esquecer o desejo
de te ter junto a mim,
quando, num snobismo entediado,
apenas suspiro e bocejo
perante um dia desperdiçado
que nunca mais chega ao fim?
Sabes que só penso em voltar
para lá de montes e vales,
e contigo afogar
os meus incapacitantes males?
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