Os estores escancarados
são fraca barreira
contra os raios desgarrados
da inevitabilidade soalheira
duma manhã de verão,
rescaldo da desgraça
da fraqueza que me ameaça,
dotada duma incandescência
que exacerba a indisposição,
consequência óbvia da ciência
delicada e exacta
dos vapores alcoólicos
das chamas inebriantes
duma alquimia ingrata,
religião dos melancólicos,
vício dos errantes.
Vomito estas palavras
na aflição de delas me libertar
de curar patologias macabras
que destroem o acreditar,
se é que alguma vez existiu
algures entre a crença
e a sombra imensa
que no amanhã me engoliu.
São nove e dezanove,
as lanternas anciãs
derramam uma luz que me move
através de ruas pseudo-irmãs,
anónimas nas placas trepidantes,
íntimas nos contornos cortantes,
pelas quais deslizo
elevado por uma alegria
desprovida de juízo,
em que todo o corpo recria
a despreocupação infantil
dos anos esquecidos,
enterrados pelo ardil
de modernos sonhos caídos...
Esgotado por esta dor de pensar,
não tenho forças para procurar
o alívio pelo qual o meu ser almeja,
escondido na espuma duma cerveja.
Batem as doze badaladas,
num longínquo antro,
trazendo cada uma vozes abafadas
pelo vago e etéreo manto
que paira sobre a frigidez
da calçada pintada com o rímel
de sombras desenhadas pela altivez
de agarrar com a mão falível
uma garrafa destinada ao esquecimento,
uma noite na qual recuso
a lógica que continuamente rebento
com a irracionalidade de ser obtuso...
Oiço o murmúrio fadista
(Não ouves o mundo a adormecer?)
que desconhecia possuir,
que acentua o esgar fatalista
de quem viu mais do que tinha para ver,
de quem já não sabe para onde ir.
Olho para o relógio em busca dum rumo,
é uma e meia, desfocada
pelas cinzas do fumo
que se ergue na minha derrocada,
que docemente me deita no chão
à espera dum falso milagre
que me ressuscite da maldição
de não tirar este gosto acre
da boca queimada pelo arrependimento
de tomar por garantido
o êxtase do imaturo alento,
ganho ao encontrar um refúgio
para o tormento empedernido
pela segurança do subterfúgio
de tudo conseguir camuflar...
Nos estilhaços dum copo partido,
nas rotações dum disco de vinil,
(Não ouves o mundo a suspirar?)
nas costuras duma velha capa,
empoeirada pela atitude senil
de traçar o futuro num mapa
apenas para o deixar voar
nas ondas dum intempestivo mar.
O que cuspo sem pensar
pela minha boca embriagada,
no incógnito tempo da madrugada
donde já não sei regressar,
são as frases que não consigo
guardar na decrépita arrecadação
da desarrumada vida em que prossigo
a gradual rota da auto-destruição...
Não distingues o ultraje
de ser um infeliz actor
sem arte para envergar
a artificialidade dum traje
que me ensine como quebrar
este silêncio constrangedor?
Esta é uma cruel carta,
registo escrito da ironia farta,
da paranóica marca indelével
de escutar a solidão muda
da distância terrível
que tento ultrapassar
com a futilidade desnuda
de mediocremente condensar,
num estranho código morse
que nem eu próprio sei ler,
o medo que distorce
a tentativa de não desfalecer
perante o esforço eremita
de simplesmente não querer saber
e fechar as pálpebras, de me abstrair
do presente que não evita
a evocação dum passado
a que já não sei resistir,
mesmo que seja errado
cobrir o meu olhar receoso
com o discurso inebriado
de quem se senta nos degraus encardidos
deste ridículo beco andrajoso,
cemitério de cigarros seduzidos...
Aqui, neste local, o meu espírito fuma,
reflecte sobre a sua arrogância,
pois mais duro do que viver na ignorância,
apenas vogar na ténue bruma
que lhe recorda a ternura do teu sorriso distante,
luz que ilumina o caminho em que me perco,
fogo que arde no coração petulante,
preso no peito que rudemente cerco
com a mágoa dum soluçar arquejante.
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