segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Poema Anónimo

Era uma vez um poema que não rimava,
subtil evidência da inabilidade
de ser socialmente aceite
na vasta sociedade dos versos,
dos lirismos pseudo-literários,
das palavras com triplo significado...
Contudo, nada disso tinha ele,
apenas letras atravancadas,
desarranjadas no vago rascunho
de mostrar sentimentos que se confundiam
com a ponta inerte da esferográfica,
ensaguentada pela mediocridade
que dele jorrava de inédito modo -
pobre poema, ostracizado pelos seus pares,
que, todavia, não lhe eram assim tão iguais.

Olhava-se num espelho de noite cerrada,
demasiado opaco para lhe devolver
o olhar carregado do raro ódio
por ele próprio, pelo mundo,
pelo conto que morava ao lado,
pela crónica que era porteira,
pelo poema que, com graciosidade,
rimava lá no alto do 7º andar
e cuja harmonia lhe havia roubado
o coração de celulose e tinta negra,
engalanada por jogos de sentidos,
por pleonasmos, metáforas, hipérboles,
arrogante na superioridade criativa
do génio que a havia tornado poesia.

Camuflado sob o traje deceptivo
duma capa de gosto algo duvidoso,
o poema que não rimava afundou a cara
nos cantos dobrados da folha que era corpo
(isto sabendo que os poemas têm uma face)
e renuncia-se a si próprio,
ao objectivo de embelezar o real,
agora vê que nunca o conseguiu,
que está para lá, muito para lá
da sua caótica e analfabeta métrica,
do seu desconexado esquema rimático.

Enojado pela brutal constatação
de que nunca seria o que se propôs ser,
que não seria mais do que um projecto
estuprado desde a nascença,
coloca-se no limiar do abismo,
no vértice da carcomida escrivaninha
do quarto mísero e gelidamente vazio,
subtraído de toda a alma que o habitara...
Um dia, o poema que não rimava
acendeu um preto isqueiro
e na chama viu tudo o que amava,
ígneo flashback do verdadeiro
ridículo do seu fim prematuro,
viu como fora extirpado do futuro -
Ateia o fogo que o consome
numa devoradora investida
duma rubra e violenta fome,
reduzindo a cinzas a frágil vida...

Era uma vez um poema que não rimava,
que lágrimas de tinta chorava,
até ao dia em que reparou
que, sem querer, rimou.

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