sábado, 9 de outubro de 2010

Voo

Hoje exacerbo o mau humor,
tanto num ribombante clamor,
como num sussurro entredentes.
Hoje, ontem, amanhã, resmungo
contra o mundo e as minhas lentes,
contra um amaldiçoado e teimoso fungo
que inicia a decomposição cardíaca,
potenciada pelos inconsistentes murmúrios,
a sintonia da sanidade maníaca,
que me interrompem em interlúdios
desprovidos do mais fugidio
e ténue vestígio de sentido,
meros grunhidos que recrio
com uma ininteligível fonética,
o som das asas dum anjo caído,
que, num voo rasante, vem mostrar
a sua suicida genialidade patética,
amnesicamente sem se lembrar
que há muito que já não sabia falar.

Assim, nada te diz
"Tenho saudades"
(leve sabor a anis,
pesada noite de veleidades)
como escrever poesia
e gravá-la na tua porta
com o gume duma faca fria,
brilho na luminosidade pura...
Acarinho com doçura
o dia antes de te conhecer,
quando ainda sabia viver.

Mas qual o simbolismo de tudo isto?
Apenas o duma lisa pedra de xisto,
lascada, riscada, deformada e despedaçada,
até se tornar o cascalho duma vida passada
ou seja, putativamente, não tem nenhum,
é a tradução dum inconsequente preliminar
que se prolonga ad eternum
até por fim decidires parar
com o ardil de me deixar voar,
e em 2 abruptas frases sibilinas
transfiguras os sorrisos que hoje me destinas
na realidade onde tenho de me despenhar.

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