domingo, 9 de junho de 2013

Ensaio sobre a nudez

Nu.

Vestido com as máscaras que nunca retirei, com a maquilhagem que nunca removi. E estou nu, sozinho no quarto dos meus temores, sitiado pelos sonhos que não concretizei, rodeado pelos fantasmas do passado. Pelos esqueletos que arrendaram a título eterno o meu armário, assentando lá sem data de despejo, apropriando-se da escassa alegria que me restava, devorando-a num banquete orgiástico e decadente. Gargalhadas. Risos. Artificialidades pueris de figuras de estilo que se materializam perante os olhos cansados em delírios piréticos.

Um piano imaginário faz das suas teclas eco dos passos errados que dei. Tantas vezes que virei nas encruzilhadas para o lado oposto àquele que devia seguir. Encontra resposta nas gotas de chuva que batem levemente no vidro da janela. Por onde escorrem as lágrimas que ninguém devia chorar. O cinzento apodera-se de mim, envolve-me nos braços frios, cai sobre a noite negra, apenas um cinzento torpe, lânguido, um cinzento que anestesia a dor de não saber o que fazer. A dor de sentir. A dor de pensar. A dor de fingir a própria dor até ao dia em que de facto a sente. Pungente. Cortante. Dilacerante. Como as cordas do violino que rejubila, salta, vibrante na sua leveza de objecto insensível a quem o ouve. 

O destino atarefa-se em apanhar quem ousa desafiá-lo. Com passos certos e persistentes, num ritmo imperturbável, estanque a manobras de diversão, a fait-divers. Aos enganos que o Homem insiste em eternizar na negação de pensar. Hoje dedico-me ao niilismo existencial - a vida não tem sentido nem propósito. Amanhã quem sabe se o futuro não guarda uma manhã soalheira que me reavive o calor no coração. Se lá for possível chegar. Cadáver retorcido, fibrosado, retalhado pelas cicatrizes que dele zombam. Cada uma com a recordação embutida do punhal que a fez. No cabo de cada uma dessas lâminas estão escritos os caracteres das letras com que desenho os nomes esquecidos, os sítios perdidos, os momentos que jazem sob um fogo amodorrado. Os sorrisos e as palavras que não serão levados pelas ondas que me tolhem os pés, dormentes e incapazes de ensaiar uma subtil e elegante fuga.

Encosto o meu cansaço à janela que revelei. A janela para o mundo. A janela para dentro de mim. O vidro embaciado já não esconde o sofrimento nem os segredos que ocultei a sete chaves no baú mais andrajoso do quarto mais recôndito. Chaves essas que esqueci e lembrei, chaves essas que agora trago na mão estendida, uma mão que procura o consolo de se saber em segurança, protegida. Uma mão que procura o olhar que a enclausurou. Uma mão que tacteia no escuro, na neblina dum fim sem princípio, dum princípio sem fim. Que tacteia pelo dia em que se poderá para sempre esconder dos pensamentos que não pode pensar, dos sonhos que não pode sonhar.

O violino continua o seu pas-de-deux com o violinista. O piano com a sua dança nos dedos do pianista. Eu continuo nu, gelado pelo vento que se enfurece contra a minha alma. Cubro-me com os meus falhanços, mas são uma manta mil vezes remendada, mil vezes esfarrapada.

A fragilidade das linhas
que traçam a perfeição em finos gestos
nas curvas jamais sozinhas,
para sempre acompanhadas pelos lestos
suspiros que te perseguem
pelas ruas que não atravessas,
pelos caminhos áridos que neguem
a oportunidade de juntar as peças
e construir-te uma estátua,
como devia ter feito antes
em vez de me perder nas divagações petulantes
de procurar só a esperança. Pois mato-a
uma e outra vez, repetidamente,
psicopata da própria existência
perseguido pelo sangue quente
que se imbui no corpo em decadência.

Não tenho mais nenhuma manta. Só mais uma quimera. Mais uma esperança egoísta. 

Mais uma mão estendida em frente, prefácio dum corpo nu e desorientado, à procura dum olhar em fuga. Voltará a deixar-se encontrar? Quem sabe... Eu não o sei. Quiçá alguém ouse lançar palpites sobre os intrincados desenganos do futuro. Eu não. Já me habituei a errar. Tenho de aprender a mudar. A acertar.

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