terça-feira, 12 de março de 2013

Solidão

A solidão e o medo...
do dia em que vou acordar
e ver que o engano a que acedo
decidiu deixar de me enganar,
resta-me assim um nada
que para mim é tudo,
uma terra queimada
onde sofro desnudo
das paredes de noite escura
que me protegem da candura
de ser ao mesmo tempo ingénuo e senil,
de cuspir estas palavras em estado febril...
Só, desmaio
num só movimento -
que se abata sobre mim um raio -,
ainda assim tento
acarinhar o rumor do mar
inventado dum só fragmento
do céu pintado num azul-cinzento
que impede o sonho de voar.

A solidão e a dor...
aperta a respiração,
paralisa-me neste torpor
de continuar em vão,
aura dum sonho psicadélico
que me cega de luz,
infinita no clarão bélico
da guerra que não faz jus
ao título pomposamente
atribuído no egocentrismo
de ser para sempre recorrente
no acto de não pensar,
de parar num raciocínio frenético
no qual sente a mente congelar,
no qual só lhe resta o esgar céptico
de quem já esqueceu o que era gostar.

A solidão e o grito...
vísceras rasgadas
pelo eterno mito
de mágoas desassossegadas
e de raivas sufocadas
no calor das lágrimas contidas,
na loucura de correr,
sem sentido, sem querer,
pernas latejantes com feridas,
abstracção do tempo e do espaço
e dos espinhos a ladear a calçada,
correr esquecido do cansaço,
correr para ti, para o nada.


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