As nuvens choram a uma só voz
unidas numa só doença atroz.
Mas não me importo realmente
com as gotas que o meu rosto sente.
A estação fria e soturna
é o primeiro ponto de paragem
duma busca baseada numa miragem
e logicamente terminada na urna
selada pelo teu doce desprezo...
(humidade no ar, gelo no nariz)
Tenho um fogo que tem de ser aceso
p'ra apagar a lembrança do que não fiz.
Portas decrépitas e envelhecidas
sorriem-me enquanto os meus passos,
autónomos na ânsia de sarar as feridas,
guiam-me na missão de gastar os escassos
trocos que sobrevivem na carteira...
Não por muito tempo, obviamente,
chama-os uma dança com o balcão de madeira
onde se transfiguram numa corrente
de pequenos incêndios líquidos :
anestésicos de qualquer resquício de vontade
que me deixam a pairar sobre os sonhos lidos
na melodia duma casa de saudade.
Finalmente já tropeço nas pedras da calçada -
quando já só penso no agora,
quando estupidez é sinónimo de risada -
e continuo a subir, a subir
até chegar às portas do inferno,
um clandestino sem necessidade de fugir
da sombra dum permanente Inverno
cobrindo todos os recantos duma alma
que clama por mais uma dose de gin
p'ra alimentar o alheamento que acalma
o medo da previsibilidade do fim.
Porque está tudo desfocado?
Tenho algumas vagas ideias,
talvez pense nelas daqui a bocado
quando não tiver tanto álcool nas veias...
"A sério? Ouves música indie?
Então de quem é esta canção?"
No nada vejo uma boca que ri,
quem sabe uma simples alucinação
numa reles tentativa de aproximação.
Estranho... mas normal...
(peito preenchido pelo ego aumentado)
Entro em mais um jogo banal
antes que não passe dum devaneio molhado
pela chuva que persiste em cair
como uma música lounge duvidosa
que ainda assim marca o compasso
dum pas-de-deux em que o par já goza
o travo característico da antecipação.
O olhar foge-me para as meias de ligas,
com um fogo desprovido de paixão,
cujos rasgos sensuais e provocantes
denunciam as quedas inevitavelmente amigas
das cervejas que engoliu em golos ofegantes.
A culpa perdeu-se há algumas ruas atrás,
ficou num beco sem nome, nojento,
por isso recosto-me à parede,
sentado no passeio onde jaz
toda a complexidade do pensamento
corporizado no cadáver da minha sede.
Condeno a minha noite à morte
e sinto no meu sangue o fumo
que me deixa sem noção do norte,
que me retira dum indefinido rumo,
que me afunda num delírio soft-porn
no qual somente o corpo raciocina,
desejando que não ceda e me torne
um fantasma que para si vaticina
um terno encosto na inconsciência...
Não é preciso grande ciência,
só deixar-me levar
e continuar a respirar,
sorver o viciado ar
através da boca entorpecida
à qual dedico a raiva traída
que é o meu suporte de vida.
E esqueço, esqueço, esqueço
já nada interessa... Adormeço
neste sono acordado
de quem não quer ser curado.
São seis e meia da manhã,
o sol rompe timidamente o nevoeiro
caminho com uma tosse nada sã
que me verga o corpo inteiro.
Ah, tudo o que ontem fazia sentido
a luz da ressaca torna pervertido...
A noite passada é um mero borrão
(cabeça baixa, olhos no chão)
subtilmente definido pela lucidez
cuja memória está colada
à roupa que tresanda
ao cheiro da sua nudez
sóbria e brutal, envergonhada
pelo que esta loucura que anda
de mão dada com a embriaguez
nos levou a fazer...
Mas já estou na estação,
ainda com aquela leveza
de quem afogou o coração
em águas opacas de tristeza...
Repara no quão deprimente
é este destino inconsequente
fomentado por um terror
que mais ninguém sente...
Peço a esta carruagem refulgente
(espera um pouco, o metro, já?)
que leve com ela a incomportável dor -
quiçá o amanhã será melhor, quiçá...
A pedido de muitas famílias aqui estou eu, comentador oficial da poesia do folhas de uma alma perdida. xD
ResponderExcluirO poema está porreiro, sobretudo a história que nele "narras". Porque de facto és muito bom a narrar, e já tinha visto isso na prosa que escreves... A poesia sai-te solta, simples e clara, o que dá uma boa imagem geral do que pretendes mostrar ...
Em relação mesmo ao poema... Sabes que sou um grande apreciador de poesia, e como poesia bem escrita que aqui tens, não podia deixar de gostar. Apesar da inicial "desmotivação" devido ao tamanho deste teu trabalho, depois a leitura sai fluída, e percebe-se bem o que queres dizer...
Agora enquanto Rúben Nogueira "normal": É pá deixa-te de mariquices... xD kidding. Pá, espero que seja só no papel que tenhas estes teus dilemas e visões obscuras da Vida. Faz da Vida um jogo de aprender, e deixa lá as dores para trás. Agora siga pós copos, e já sabes, mais depressa ganho eu que vocês os 2 juntos... xDD
Abraço!
Em bom português, um processo criativo aqui escarrapachado (há-de vir de escarro?). Começou sem espírito, mas a ebriedade do papel ajuda. E eu fui lá ter contigo. Bravo.
ResponderExcluirAprecio a subtileza de quem finge a própria morte e tira gozo de quem, desonestamente, a chora x)
Um abraço