A perfeita imagem do adeus
sofre um contínuo escrutínio
pelos rumores vindos dos céus,
testemunhas do assassínio
que marcou a minha fuga
da realidade, apressado
pelo aprofundar daquela ruga,
escavada na face amargurada,
vislumbrada numa janela
anónima neste autocarro,
lado a lado com a bela
recordação que com as mãos agarro
num movimento só possível
numa deturpada visão,
distorcida e insensível -
porque desprezas a compaixão?
Esta inconveniente trepidação,
este calor sufocante,
acompanha a rítmica palpitação
que rosna dentro dum arrogante
peito arruinado pelo ar viciado -
o dormente caminho vai-se fazendo,
sobre os metros do alcatrão desgastado
que atapeta os carreiros sinuosos
que percorro, furiosamente roendo
as entranhas com ódios tortuosos.
Rostos desconhecidos,
sinais de vidas distantes,
palavras de livros amarelecidos,
rastos de misérias gritantes...
São tudo o que vejo
nestes bancos mal almofadados,
merecedores apenas dum esgar
que materializa o desejo
de os ver vazios, abandonados,
dos ver cheios dum punhado de ar
(tórax rasgado na 201,
boca a salivar por um copo de rum).
A cabeça (demasiado pesada)
pende contra o plástico duro,
a moldura da paisagem amaldiçoada
por imponentes árvores de betão,
memoriais do local escuro
p'ra onde os meus passos me trarão
mesmo que tudo o resto se dissipe
na total e completa obnubilação
de reduzir tudo a um ficheiro zip
ou a uma página caída no chão,
coberta por milhares de rascunhos
de um projecto, duma quimera,
o sonho pelo qual a minha alma espera,
encostada, numa pose descontraída,
a arcaicos postes de iluminação -
mas há muito que chegou à conclusão
de que, muito provavelmente,
o estoicismo de ter paciência
será silenciado pelas buzinas estridentes,
cego pelas luzes que piscam intermitentes
a indicar a próxima paragem,
com a qual este devaneio
(não mais do que um instinto selvagem)
morre... Até porque creio
que o mate esta suave aragem,
com um beijo na fronte ferida,
paliativo para a dor sofrida
neste percurso que resume uma vida.
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