Ando como um sonâmbulo,
cruzo-me com fantasmas petrosos,
plano sobre degraus andrajosos
neste que é apenas o preâmbulo
de mais um capítulo escrito
pela criatividade cansada.
Assim, restrinjo-me ao que cito,
ao que roubo da literatura iluminada.
Atravesso minimalistas corredores,
ao ritmo de tosses e lamentos,
murmúrios de incógnitos temores,
de espectros virulentos...
Recebo uma lufada de ar
nas encovadas olheiras -
ao longe, oiço o cacarejar
de velhas hipocondríacas,
sussurros de provinciais feiras,
de queixas sobre caídas macieiras
ou maridos com insuficiências cardíacas.
Desenho na face um esgar snob,
e com gestos ensaiados
ergo a cabeça para o sol que sobe
(mais uma manhã dos mal-amados)
e acendo o isqueiro
com o qual inflamo
o desprezo pela Humanidade,
a rejeição de tudo o que amo,
o aperto da saudade.
Entro no teatro dos meus medos
apavorado por um niilismo
que torna todos os enredos
insignificantes amostras de masoquismo,
apagadas com pastilhas de mentol,
com injecções de cafeína
com anestésicos à base de etanol -
tudo esforços inúteis para esquecer
a dúvida que, por dentro, mina
qualquer estratégia para não a ter.
Isolo-me numa íntima comunhão
com o volume máximo do meu mp3.
Preguiçosamente, perscruto a multidão,
movimento repetido pela enésima vez -
porém, paraliso perante a súbita visão
dos traços delicados do teu rosto perfeito,
que me batem tão forte
como uma pedrada na cabeça,
(joelhada no estômago, murro no peito).
Praguejo contra a sorte
que faz com que me esqueça
da retorcida tortura
que há anos perdura.
Quero saber o teu nome,
pois o último que viveu em mim,
mesmo esquecido, deixou-me
a boca adormecida pelo fel...
Espero que o teu não seja assim,
mais uma colher de envenenado mel.
Mas não consigo, não posso...
De mim próprio troço -
sei que, no meu íntimo, roço
o estupidamente interessante,
com esta bizarria paradoxal
de não escrever uma rima decente,
de não manter um intelecto pedante,
sem estar mergulhado no deprimente,
se for minimamente normal,
se sentir, por um segundo que seja,
a felicidade que qualquer um inveja...
A principal inimiga da inspiração,
assassina de qualquer criação.
A intensidade do querer
desarma-me a veia irónica,
deixa-me inútil, sem ver
nada para lá duma leveza magnífica
que inebria os sentidos,
que me quebra a vontade
em inúmeros pedaços perdidos.
Não tenho refúgio para a tempestade
que se revolta face à estagnação,
ao sedentarismo ultrajante,
caídos como castelos de cartão
perante esta rajada de vento cortante
constituída só por um olhar
por dois desconhecidos trocado,
um cansado de desesperar,
o outro distante, inatingível
no pedestal imediatamente criado
pelo romantismo incorrigível
alimentado por absurdos clichets
(plano de fundo - caras inanimadas;
primeiro plano - as memórias do que lês
aprendidas em neblinas alcoolizadas)
Será que me salvarás
desta terrível tendência,
desta maldição assaz
insultuosa para uma consciência
imersa na auto-comiseração
da qual me quero libertar,
sinal duma rota para a destruição -
sei que inevitavelmente a vou tomar,
só te peço, só queria...
Envolve-me com o teu olhar,
adia a minha queda para outro dia.
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