sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Nostalgia

Rompe
Rasga
Rói
Na penumbra dum vão de escada,
enrolo-me sobre mim mesmo,
fecho os olhos da alma mal alumiada,
escrevo o desespero e tu lês-mo,
tu sabes recitá-lo de cor,
desenhei-o com lágrimas salgadas
que se confundiam com o meu suor
num Verão de noites atraiçoadas
pela vontade de me perder,
de chorar o que nunca foi,
o que devia ter sido e não foi,
o que não foi e que quero rever.
Tu lês-mo pois secaste-me do rosto,
com os beijos que desejei, a água
que cravou a palavra desgosto
fundo, bem fundo. Olha, trago-a
ainda hoje comigo, gasto amuleto
que me recorda o que já não prometo.

Arranca
Arrasta
Agarra
Estou só, nu na escuridão,
o vulto dum miserável,
sem força para pousar a mão
e estancar a hemorragia incontrolável
violentamente aberta à tua passagem...
Filme recente, neo-realismo selvagem,
rodado num passado remoto,
há anos de sofrimento atrás,
memória cronológica que me traz
aos dedos uma amarelecida foto,
retrato da perdida luta
que rancorosamente emboto
com pinceladas de raiva bruta.

Renega
Retraça
Rejeita
Odeio o teu regresso,
amo o teu sorriso,
nos turnos em que me revezo
para suportar as insónias que profetizo
mal acordo dos sonhos turbulentos
em que subo degraus de madeira,
em que revisito pátios cinzentos,
em que sinto nas folhas a voz prazenteira
do fogo que julgara enterrado
e que ainda me suga a vida,
aquela que ardeu na tua mão distraída
e que deixaste cair como um fósforo queimado

Abraça
Acaricia
Acorda
O passado não descansa,
na melhor das hipóteses amansa,
até dele fugirmos, pondo de lado
o conceito de ser errado,
hábitos antigos,
velhos amigos
de não me lembro quando...
Contudo, no destino não mando
felizmente não possuo tal dom,
e acabaste por cortar o cabelo, apagar as pegadas
sem deixar um sinal, uma letra, um som
apenas as folhas desfeitas e cremadas
da poesia que agora recuso,
foste para nunca mais te ver outra vez,
foste para onde já não me vês.
Agora, num revivalismo caído em desuso,
procuro-te em cada carro que passa,
fugazes luzes numa paroxística estrada
destituída de direcção, que queres que faça,
fui eu quem a desenhei assim,
e de forma assaz despropositada
esqueci-me de onde era o fim...

Com música rebento os tímpanos,
com íntimos sonhos profanos
(estes fragmentos sem lógica nem ligação)
destruo cada fibra do meu coração,
são os últimos pregos do meu caixão.

Um comentário:

  1. Já tinha saudades de vir aqui passar um bocadinho. Vi isto:

    http://culturafnac.com/novostalentos/literatura/2010/index.php

    Tens de tentar! Mesmo!

    ResponderExcluir