quinta-feira, 17 de março de 2011

Crise existencial documentada #15 (ou "Cartas do Adeus")

Olho
não para a frente
como queria, como devia,
e sim para o reflexo decadente
que me retribui o olhar
no voo de cotovia
onde se quebram em 7 anos de azar -
os mensageiros da negada sorte
prestes a desaparecer
nas brumas dum vinho forte,
demasiado frio para me aquecer -
os estilhaços do teu espelho...
O chão onde hoje me ajoelho
já não me abriga, não me faz esquecer
a dissimulação inebriante da tua voz
já não me deixa navegar sem ver
na redundância dum rio sem foz.

Tento ignorar o teu murmúrio,
por experiência própria incongruente,
estou farto do mau augúrio
que é dar ouvidos a uma serpente,
porém nos passos vacilantes
que me guiam para te encontrar
sou ensurdecido pelos tonitruantes
ecos do teu riso doce
no vento que se esquece de clamar
e que ainda assim me trouxe
a recordação que não quero guardar.

A noite chora a inevitabilidade
da confirmação da tragédia,
da irremediável realidade
do enterro duma geração nédia,
onde me perdi,
onde nos perdemos
onde após o ré já não surge o si,
onde a verdade não é o que queremos...
Estás longe, tão longe do que sou,
afastas-te do lugar para onde vou,
deves estar algures a leste do nada,
fora do alcance da lírica chorada,
caminhas sobre a neve
numa perfeição ensaiada,
com a leveza de ballet,
o diabo que me leve,
nunca senti a alma tão mutilada
como quando me pergunto porquê,
porquê demorar o olhar na graciosidade
das curvas e contracurvas desconcertantes
duma estrada vedada aos plebeus,
aos medíocres que sufocam nesta cidade,
nestas ruas asquerosas e aviltantes,
cobertas pelos infinitos véus
que a luz não consegue ultrapassar,
que não me deixas rasgar...
Posso não ter um metro e oitenta,
posso nunca superar os meus medos,
tenho só as palavras em tinta cinzenta
que jorram dos meus frágeis dedos,
com as quais descrevo a senescência
do ego reduzido a um diminuto fragmento,
incapaz de se reconstruir na incoerência
da solidão da espera por um momento
apenas para o deixar escapar,
alheado a fantasiar com o hálito a menta
da esperança hiperbolizada que acalenta
quando na noite invoca "in vino veritas",
mas olho para ti e sei que não acreditas...
Desejava tanto ter fé,
já não sei o que isso é.
Desejava tanto não ter dormido até tão tarde,
já não recupero o tempo que assim arde.

Deixa-me só dizer-te num fio
(segura nas mãos um amarrotado recorte)
de voz soprado ao ouvido
(deitado no chão, a tremer de frio)
que quando o sol desce para mais uma morte
(espectro crepuscular, destino vendido)
ainda penso no que poderia ter sido dito
(a sentir a calçada áspera contra as vértebras),
nas subtis idiossincrasias do sofrimento carnal
(pobreza de quem sempre foi desdito),
na esquizofrenia de cerrar as pálpebras
(ilusão estupefaciente, delírio natural)
e sentir a suavidade da tua mão sobre a minha
(amordaçado pelo insipiente rogo)
no despertar violento do voo sem destino
(foge com ele o sorriso que já não caminha)
não sei se sonhado ou cravado a fogo
(cala-se o longínquo repique dum sino)

Morro
sufocado pela multidão
e pelo derradeiro nó
apertado com raiva cega
pela tua adorável mão
e pelo punhal que se prega
sob o peso do teu encosto
nas câmaras do meu coração,
rasgadas, destruídas pelo desgosto
acumulado nas paredes em deterioração -
reparo que já não sei onde deixei a razão,
e, de súbito, como que de escarro,
a realidade abate-se sobre mim,
queimei os sonhos na ponta do cigarro
e dei o passo para o princípio do fim.

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