Nesta noite de tenra idade
antes nascer já sombra caída
numa manta remendada de maldade
a emudecer por um sopro de vida
do que ser filho pródigo da esperança
na vã procura do regresso
possível na ingenuidade de criança
cega pela distância que já não meço.
Aperta-me o peito
o abraço da noite tépida,
a dor da alma fétida
criada sem pátria nem jeito
nas vísceras dos desenganos
meus, tão meus como o abandono
a que voto os delírios insanos,
recrudescentes nas horas sem sono...
Recear sem fugir,
cair na inércia nunca sossegada.
Chorar sem dormir,
afogar a fronha da almofada
nas lágrimas que traduzem o nada
a tingir os sonhos que hão-de vir.
Afogado na auto-comiseração
ou apenas tomado pelo ócio paralisante
de um ponteiro que já só desencanta,
lençol fino de perversão
a enrolar-se torpe à minha garganta,
muda pela raiva trôpega a jusante...
Eis-me irrequieto no limbo da insónia,
artificial em tudo o que fui e sou -
veias lavadas com amnésia e amónia,
ideias reduzidas ao nulo que me levou.
Abandono a alma velha e só,
o coração podre de desconfiança
à melodia dum escorreito nó
que sem mais avança,
cruel na fria persistência,
desajeitado na trémula dança -
a um mero passo da demência
no abismo sem quem nem onde
dum breu que já não esconde
a saudade da inocência.
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