quinta-feira, 4 de julho de 2013

Ensaio sobre a morte

Hoje vi morrer um homem.

O mundo chora por ele. É um choro falso, uma vez que já é amplamente aceite a tese de que o mundo não chora por ninguém que não ele próprio, e mesmo quando se chora a si mesmo, fá-lo com lágrimas de sangue e vingança. Vingança contra quem contra ele é impotente, fraco, frágil como uma pétala de uma perdida rosa branca que só uma mão delicada pode proteger. Defender do que a espera longe do toque suave que guarda nele as memórias e recordações de uma outra vida, de uma outra existência, onde o momento ainda guardava em si a capacidade de traduzir felicidade. E não a miséria e a angústia com que se veste agora. Agora, sempre. Para sempre. Em tons de cinzento e preto. Que se misturam em sonhos partilhados.

Sai o vómito da alma, regurgitado sobre as lajes duma cidade parada. Ociosa. Paralisada por um calor sufocante. Paralisada pelo sufoco que me aperta a garganta, para não cuspir as mil palavras que guardo a sete chaves no meu peito. Infelizmente, face a várias e desafortunadas peripécias, esse mesmo peito não é mais do que um velho e carcomido baú de madeira a desfazer-se perante as intempéries do desespero que sopra no bafo quente que teima em se abater sobre as ruínas de quem um dia olhou com sobranceria. De quem um dia se julgou imortal, apenas para observar que cometia um erro crasso em assim se considerar. Pois entre o que se é e o que se considera ser existe uma considerável distância, tanta como a de um oceano. Que não se quebra. Que não se parte. Para partir, basta o coração, que parte tantas e tantas vezes para longe, tão longe que se transcende na sua própria materialidade. Até parar de bater.

Resta-se a si mesmo. Na hora da morte, resta-se a si mesmo. E ao copo a quem confiou os recantos mais escuros e mórbidos da sua alma. Pudera que eles morressem consigo e com o conteúdo do copo, engolido de um só trago para afogar o passado no tormento do seu próprio fel. Resta-se a si mesmo. E ao copo. E ao cigarro que deixa queimar lentamente enquanto sente a névoa a levá-lo para longe, a imiscuir-se nos pulmões decrépitos, assassinando-o por dentro, mas sem nunca o abandonar, sem nunca lhe virar as costas. Contudo, também ele parte. Porque não faz sentido ficar. Tristes daqueles que depositam uma vã esperança na inanimação do objecto, quando se esquecem que eles próprios se objectificam, a si e aos outros, num delírio racional de se recusar a sentir, de se negar a sentir. Até que o gelo aquece, e água escorre pelo rosto como um regato jovem que se lembra de brotar duma nascente que há muito havia sido seca pelo estio da mágoa e da dor.

Está numa sala. Uma sala cheia pelos gritos da solidão de ser o único no meio de mil anónimos. Anónimos do seu próprio anonimato, rostos incaracterísticos assim como o é o bafo duma noite quente e lenta. Lenta, lentificada, lentificante. Vagarosa na preguiça de apenas passar sem deixar vestígios atrás de si. Um vagar de quem se sabe certa do seu estatuto de noite, de negrume, dum preto que tudo engole na ânsia de ser ainda mais escuro do que aquilo que o define. Vai adiantada a hora... A sala está vazia. 


Hoje olhei-me ao espelho. E vi morrer um homem. Vi-lhe o olhar ofegante de desespero, caído, derrotado. Baço pela certeza da morte que se avizinha, pelo sopro de vida que se esvai pelas janelas entreabertas enquanto sussurra as mil recriminações que guardou. Certo do abismo que no seu reflexo se abre diante dele. Incerto do que o abismo lhe guarda – se as pedras frias e esfomeadas que receia, ansiosas por dar ao corpo um leito granítico e frio para repousar, se o sorriso efémero que sonha.

Death is just an illusion - a high wall. It is not the end. There is no such thing as 'the end'. It is the beginning.

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