Era uma vez algo.
Era uma vez uma criança,
aquela que em mim trago
corporização da ingenuidade
que arrebatadamente me lança
para os braços dum destino
retorcido pela crueldade
de tentar ser
um ensaio cinematográfico
digno dum Tarantino,
apesar de nunca o merecer,
de não passar dum sarcástico
esforço para tornar imprevisível
um anunciado e vulgar final
novo apenas para a inconcebível
incapacidade de reconhecer o trivial.
Projecto a insensatez
numa escuridão sonhada
onde tropeço uma e outra vez
nas pedras da calçada,
a relva fria e cinzenta
das ruas do meu descontentamento,
coberta pela geada que aumenta
proporcionalmente ao tormento
que me gela o sangue
em cubos esculpidos a bisel
pela perfeição matemática
duma subjectividade exangue,
somente possível
graças à demência errática
de negar o sentir,
de continuar a tingir
o tórrido e derretido alcatrão
que atapeta o chão
dum solitário Julho
com os doentios tons
do funeral do meu orgulho,
caído no sufoco do calor
duma tarde despida de sons,
calados os gemidos de dor
das árvores ressequidas,
do pranto de folhas deprimidas,
guardiãs de épocas esquecidas.
Mas uma sirene persistente
chama-me à realidade
e ergo o olhar morto
para a fachada reluzente
alvo duma antecipada saudade,
embalada no conforto
de ser banhada pelo sol virgem
de mais uma alvorada
que me cura da vertigem
de reaprender em cada passada
esta estranha e bizarra sensação
de anelar, de desesperar
por um novo lar,
templo de solidão,
cemitério da insegurança,
altar do meu êxtase,
da calma que amansa
os espectros que me assombram
com frases preenchidas pelo ênfase
de milhares de reticências
que para sempre prolongam
a incerteza das reminiscências.
Entro na minha nova vida,
enterro a história sofrida...
e estugo o passo
ao longo dos corredores,
oiço o eco do colapso
das incontáveis flores
amordaçadas sob os azulejos
que traduzem o desenho
dos ténues beijos
que hoje desdenho
na ânsia de me libertar.
Não tenho mais questões,
não quero pensar...
suplico por mais injecções
de viciante adrenalina,
pelo soporífero egoísta
que torne a noite suportável,
pela dose que assassina,
com hipocrisia nunca antes vista,
a insónia intratável.
Não vês como estou nervoso?
Não face ao vermelho espalhado
na imaculada bata.
Não face ao toque rugoso
do fim anunciado
que nenhuma droga trata.
Não face às tremuras
duma brutal abstinência,
marca das amarguras
da repetida inconsequência
de desperdiçar uma vida.
Não face à boca descaída,
face às pupilas vazias
duma alma que já partiu.
Não face às faces frias
cujo futuro traiu
qualquer réstia de expectativa.
Não face à carne viva
que espreita por linhas abertas
em telas outrora belas...
Mas sim face às raivas encobertas
por uma frágil mortalha de linho,
transparente às sequelas
do recalcamento freudiano
com o qual caminho
vergado pelo peso decano
dos anos órfãos de carinho...
Mas sim face ao terminar
das horas que se esgotam
na loucura do tempo sem vagar
para a necessidade de obliterar
os receios que me garrotam.
E é nesta sala dum etéreo branco,
palco da miséria humana
onde do meu peito arranco
o luto que inevitavelmente emana
perante o sofrimento condensado
na urgência que nunca termina,
sem hipóteses para o ânimo quebrado,
pois há sempre mais um frasco de morfina,
há sempre algo que pode ser tentado,
mesmo que não exista a possibilidade
de evitar a morte
num local onde a surrealidade
não se separa da cega sorte.
Um ocaso ocre e laranja
de raios inclementes que apontam
para o nada que se rearranja
nas sombras que se alongam,
prenúncio dos cansaços,
fósforos no negrume
onde vêm acender o lume
da luta pelos teus braços,
que contrastam com a doçura
da fadiga que me tolhe o corpo,
que apaga a memória da tortura
ao me enlevar num limbo torpo...
E tento lavar o suor
que se confunde com a mágoa
estampada no meu rosto,
com uma torrente de água
esforço fútil contra o terror
de enfrentar um serão de desgosto,
de descanso inquieto,
de voltas de desassossego
nos lençóis onde ofego
pelo desligar do intelecto
que me queima com a morbidez
de dissecar tudo o que fez
e tudo o que deixou por fazer...
Por favor, deixa-me adormecer...
Era uma vez eu
imerso numa prece de ateu,
à qual me agarro
na companhia derradeira
do vigésimo cigarro,
sentado na beira dum degrau,
olhando uma vista sobranceira
directamente para o abismo,
alucinação de anónimo grau,
enquanto medito no fatalismo
do meu irresolúvel enigma
que pelos vistos faz jus
à fama de se tornar num estigma
paralisante nos seus traços crus,
carrasco da auto-estima...
e assim,
nesta intrincada fronteira de ar,
no rescaldo dum motim,
tombo perante os murmúrios insones
que não consigo silenciar
com a violência dos meus headphones...
atiro-me para o chão
e choro as lágrimas que nunca cairão,
choro a dor desprovida de emoção,
choro o último suspiro do coração
num pranto simplesmente insignificante
perante a vil decrepitude
que me asfixia na névoa agoniante
da descrença em toda a sua plenitude.
Porém talvez receba sorrisos de gratidão,
talvez veja a alegria duma criança,
um amor unido por uma aliança,
uma vitória a romper a imensidão
da impotência perante a condição
de ser apenas mais uma peça
num puzzle onde nada interessa.
O melhor,sem dúvida!
ResponderExcluirBeijinho,
Joana