quinta-feira, 4 de março de 2010

Crise existencial documentada #1 (ou "Cartas do Camões")

Ando sozinho,
perdido no escuro...
Constantemente desalinho
as linhas ordenadas do futuro.

Brinco com o caos sem nexo
que tenho a arte de criar,
delirante como numa noite de sexo,
prolongando o orgasmo de odiar.

Sigo algo, sigo em frente,
enquanto o gelo me invade
o olhar com um brilho demente,
reflexo da saudade
que me queima, corrosiva,
nos redutos do meu ser -
mordaz de forma altiva,
na arrogância de julgar poder,
de sonhar demasiado alto,
de com os erros não aprender...
Quando sou eu que a mim falto,
quando sou eu que me desilude,
quando é a minha estupidez incessante
que não cessa de me deixar mudo
com o espanto de existir tal constante.
Oiço a raiva gritar
junto dos meus ouvidos (tão junto...)
milhares de palavras sem assunto
na ânsia de me ver chorar
as lágrimas que jamais cairão -
há muito que assisti à morte
do meu disfuncional coração,
abandonado à sua sorte,
podre e descomposto,
clamando pela eutanásia
que lhe cure o desgosto
e que o adormeça na cama macia
do total esquecimento.

Os meus passos -
o eco do meu pensamento -
ressoam na rua
onde tento preencher os espaços
abertos numa alma nua
e ferida pelo desespero...
Estas são as ruínas de quem fui
lembradas no sacrifício de ler o
bloco anónimo e negro que flui
dos sonhos que alimentei no passado
somente com as alucinações
de um intelecto atrofiado
pelo vício das sensações.

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